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F1: A história de Jo Ramirez, chefe na Copersucar-Fittipaldi, coordenador na McLaren e testemunha de Senna x Prost

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Zanardi relembra relação com Ayrton Senna: 'Foi um grande modelo pra mim' (1:27)

Ex-piloto da Fórmula 1 e atualmente competindo no paraciclismo é o convidado do Bola da Vez de Casa deste sábado, às 22h00 na ESPN Brasil (1:27)

O mexicano Jo Ramírez é um sobrevivente. Até chegar ao panteão da Fórmula 1 como um dos chefes da McLaren em suas décadas douradas (1980 e 1990), roeu muito osso no esporte a motor.

Ele "só" ajudou a forjar os títulos de Niki Lauda (1984), Alain Prost (1985, 1986 e 1989), Ayrton Senna (1988, 1990 e 1991) e Mika Hakkinen (1998 e 1999) como coordenador da equipe inglesa.

Durante a entrevista que durou mais de uma hora e meia, o engenheiro tinha ao fundo diversos retratos de seus anos na principal categoria do automobilismo. O vermelho e branco era predominante. Recordações da era avassaladora da equipe inglesa.

Nascido em 1941, Joaquín "Jo" Ramírez Fernández se formou em engenharia mecânica na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) na capital e logo rumou para a Europa, onde acompanhou Ricardo Rodríguez, prodígio da Ferrari, em seu início na F1.

A morte precoce de Ricardo nos treinos para o primeiro GP do México em 1962, porém, poderia ter mudado o rumo da carreira de Jo Ramírez. A distância acabou se tornando um alento no luto que precisou enfrentar naquele delicado momento.

"Éramos como irmãos. Muito próximos. Eu estava na Europa, porque não tinha dinheiro para viajar ao México e acompanhá-lo nessa corrida (a Ferrari, onde Jo trabalhava como aprendiz de mecânico e braço direito do piloto, não levou carros para a corrida. Ricardo Rodríguez pediu permissão e entrou na pista pela Rob Walker Racing Team)", conta Jo Ramírez em entrevista à ESPN.

"Saber da morte dele foi um choque, ainda mais à distância, e se eu estivesse na pista quando tudo isso aconteceu, provavelmente poderia não ter seguido na Fórmula 1. Mas como eu estava na Itália e sem trabalho, não tive muito tempo para pensar. Então, creio que isso acabou me fazendo focar ainda mais em buscar emprego", revela.

E começou ali a literalmente bater de porta em porta para arranjar trabalho. Assim conseguiu chegar à Maserati, depois à Lamborghini, responsável pelos motores dos carros de turismo das duas montadoras. Ainda nos anos 1960, mudou-se para a Inglaterra onde começou a trabalhar na Ford, e o destaque lhe rendeu um chamado de Dan Gurney para coordenar os carros nas provas nos Estados Unidos... e finalmente, na F1.

Jo Ramírez, com apenas 30 anos de idade, chegou à Tyrrell para ajudar Jackie Stewart a conquistar seu terceiro e último título na categoria em 1973. Dois anos depois, um dos grandes desafios da carreira do mexicano: ser chefe da Copersucar-Fittipaldi, a primeira equipe sul-americana da Fórmula 1.

Um projeto que, para ele, já nasceu com prazo de validade.

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2:37

Mauro Cezar: '1991 foi a temporada de maior supremacia de Senna e a mais desastrosa de Prost na F1'

Jornalista relembrou ano em que brasileiro foi tricampeão, Piquet deu adeus, Schumacher estreou e o francês acabou demitido

"O maior problema da equipe é que tudo (do desenho ao carro pronto) era feito no Brasil. E para conseguir liberar peças na alfândega, por exemplo, demorava-se muito tempo, enquanto as outras equipes na Europa já estavam muito à frente para desenvolver os carros. Quando conseguíamos montar o carro, tínhamos que levá-lo à Europa, mas os testes já não estavam mais acontecendo. Isso trouxe desgaste para todos", recorda-se Jo Ramírez.

Ele ficou até 1977 na escuderia de Emerson Fittipaldi (que posteriormente mudou sua base para a Inglaterra) e passou por equipes menores (Shadow, ATS e Theodore) até finalmente ser convidado por Ron Dennis para integrar a McLaren em 1983.

"Eu saí de times que não tinham orçamento para, assim que chegar à McLaren, Ron Dennis me dizer: 'Gaste o que for preciso para termos o melhor'", garante Jo Ramírez.

Coordenador da equipe de Woking de 1984 a 2001, o mexicano consolidou Alain Prost como melhor piloto da F1 com dois títulos mundiais (1985, 1986) até contratar Ayrton Senna, de quem já era amigo, em 1988.

"Certa vez eu acompanhava uma corrida de Fórmula 3 na Inglaterra com Emerson Fittipaldi, em 1981, 1982, e Ayrton veio falar com ele. Foi quando nos conhecemos. E Emerson me falou: 'Veja, esse menino vai ser um dos grandes'".

Jo Ramírez tem uma recordação, digamos, peculiar da primeira vez em que trabalhou com Senna, ainda antes da Fórmula 1.

"Em 1983, me chamaram da West Surrey Racing para trabalhar no GP de Macau da F3. Ayrton fez a pole position, mas na noite antes da corrida o pessoal saiu, e Senna bebeu um pouco a mais. No dia seguinte, no warm-up, ele estava passando mal e me pediu a chave do meu quarto para dormir e ver se melhorava", conta.

"Ayrton ainda me falou que era para acordar com vontade... 'Pode bater na porta e me sacudir. Só saímos dali quando eu estiver de pé e com as calças postas'. Dito e feito, duas horas antes fui até lá e fiz isso. Já um pouco melhor, ele correu e ganhou".

Em 1988, com Prost e Senna, a McLaren teve uma das temporadas mais dominantes da história da Fórmula 1, com o francês ganhando sete corridas, o brasileiro vencendo oito e conquistando seu primeiro título na categoria.

Uma relação que, segundo Jo Ramírez, era tranquila até ali.

"Senna queria ser o que era Prost. Alain era considerado o melhor piloto da F1 e quando chegou Ayrton à McLaren o acolheu da melhor forma, sem qualquer 'porém'", recorda-se. "Lembro-me de Keke Rosberg (campeão em 1982) dizer que Prost arrasaria Senna como companheiro, mas não foi isso o que aconteceu".

A temporada de 1989 então chegou, e uma manobra do brasileiro logo na segunda corrida (GP de San Marino) azedou o clima dentro da McLaren.

"Em 1988, fizemos uma temporada dos sonhos, e só não vencemos uma corrida, em Monza, porque o motor de Prost quebrou, e Senna bateu em Jean-Louis Schlesser (substituto de Nigel Mansell na Williams naquele GP) quando tentava dar uma volta. Esse foi o pior inimigo de Ayrton Senna: sua impetuosidade, falta de paciência", analisa Jo Ramírez.

"Naquele GP em Ímola, eles fizeram um pacto de não tentar ultrapassar um ao outro até a curva Tosa, que era de baixa velocidade, na primeira volta. Senna largou em primeiro, Prost na sequência, e depois da largada tudo seguiu conforme o combinado. Mas então houve aquele acidente feio do Gerhard Berger na Tamburello, e a prova foi paralisada".

"Como só tinham acontecido duas voltas, houve uma relargada. Senna seguia na pole, largou mal, e Prost o ultrapassou logo quando a luz vermelha apagou. Só que o Ayrton forçou e ultrapassou o Alain na freada da Tosa. Daí...", suspira o mexicano.

"Prost ficou descontrolado, raivoso. Ele se desconcentrou, rodou duas vezes, mas ainda assim chegou em segundo; Ayrton ganhou. E o Alain chegou furioso aos boxes e não foi à entrevista coletiva. 'Se eu for, posso falar coisas que vou me arrepender depois'".

"Fomos então realizar testes na Inglaterra, e o Prost deu umas declarações muito fortes ao L’Èquipe ('Não quero tratar de mais nada com ele. Eu aprecio honestidade, e ele não é honesto')", lembra o coordenador. "A partir dali, nas conversas pós-treino ou pós-corrida, aconteciam dois briefings. Eram duas equipes dentro de uma".

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2:22

Ayrton Senna x Alain Prost: Renan do Couto analisa carreiras e escolhe 'seu lado'

Renan explicou a rivalidade e como a relação entre os pilotos se desgastou

O desgaste da relação entre os dois principais pilotos levou à saída de Alain Prost ao final da temporada 1989, quando ele conquistou seu terceiro título após o polêmico acidente no GP do Japão.

Amigo de Prost e Senna, Jo Ramírez garante que não tomou partido. "Isso era coisa para o Ron Dennis resolver", sorri.

A competição entre eles só poderia fazer bem à McLaren, segundo o engenheiro. "Se Prost tivesse ganhado o título em 1988, talvez a convivência entre eles tivesse durado mais".

"Eu gostaria de estar na McLaren quando aconteceram os problemas entre Fernando Alonso e Lewis Hamilton em 2007. Um chegou ganhando 12 milhões de euros, outro só 400 mil, mas o espanhol não se sentia à vontade na equipe inglesa... Mas eles eram dois meninos, não se podia comparar com a rivalidade entre Senna e Prost", define.

Questionado quanto ao melhor de cada um dos arquirrivais, Jo Ramírez analisa: "Com carro 100% a seu gosto, Prost era imbatível - mas é difícil conseguir um carro 100%, né? Senna tinha a capacidade de improvisar, de mudar seu tipo de direção. Alain era melhor encontrando o acerto, e Ayrton não gostava de mudar as coisas. 'Coloquem o carro igual ao de Prost que eu me adapto a ele'".

Então, Ayrton Senna não gostava de acertar o carro?

"Ele não gostava muito dos testes. Escapava quando possível. Ele mudava poucas coisas no carro. Para mim, Prost era sempre melhor, mas Ayrton era tão rápido... Tirava sempre o máximo do carro, nunca vi alguém como ele. Senna, para mim, é o piloto mais rápido da história. Nunca vi alguém botar 1,5s naquele que era reconhecido como piloto número 1 da F1 em Mônaco, com o mesmo carro", avalia o ex-McLaren.

"Ele seria rápido correndo nos anos 1950 ou atualmente", define Jo Ramírez.