<
>

Coluna da Evelynn: Por que as ligas femininas são necessárias nos esports?

play
Nyvi Estephan comenta representatividade feminina e brasileira nos esports (6:13)

Apresentadora de esports foi reconhecida internacionalmente nos Esports Awards em 2019 (6:13)

Oi, gente! Meu nome é Evelynn e eu sou colunista de cenário feminino aqui no ESPN Esports.

Eu trabalho com esports há pouco mais de três anos. Quando comecei, mulheres eram minoria absoluta tanto nos bastidores quanto nos palcos — e fico feliz por isso, aos poucos, estar sendo mudado.

Grande parte dessa mudança tem a ver com as ligas femininas. Torneios exclusivos para mulheres, no entanto, sempre foram um assunto polêmico na comunidade de esports. Muitos dizem que, por não existir diferença física entre homens e mulheres, não há necessidade de que categorias femininas existam em campeonatos de esports.

Dá pra entender a lógica, mas não é sobre isso. A necessidade dessas ligas é um consenso na comunidade feminina, e a maioria das reclamações vêm de homens. Não consigo entender o motivo, afinal, nem tem a ver com eles, mas por conta de algumas dessas reclamações, decidi explicar aqui na ESPN a necessidade dessas ligas no cenário de esports.

Neste texto, vou abordar as diferenças sociais que afastam mulheres dos esports, qual o papel de uma liga feminina, se ligas mistas são mais viáveis (spoiler: toda liga de esports é mista) e também explicarei como incluir mulheres nos esports da melhor forma.

A estrutura social afasta mulheres dos videogames — e dos esports

Imagina a sua casa e as casas na sua família. Quem faz as tarefas domésticas? Quem cuida dos filhos, dos irmãos, dos sobrinhos?

Caso sua família seja desconstruída e essas tarefas sejam divididas igualmente entre todos os membros (utópico, hein), ela foge completamente da curva da nossa sociedade. Historicamente, esse papel sempre foi das mulheres e, por mais que o mundo mude, ele ainda é atribuído à gente. As mulheres são estruturalmente mais cobradas por tarefas domésticas e relacionadas à família do que homens — e isso é refletido no tempo livre que resta às pessoas desses gêneros.

Lembro que, uma vez, li um jogador profissional contando que, enquanto ele se dedicava dia e noite para chegar à elite do jogo que amava, sua mãe levava e buscava seu prato de comida no computador. Minhas perguntas são: 1) Isso aconteceria com uma possível irmã? Ela poderia abdicar de todas as tarefas domésticas pelo sonho de ser uma atleta de esports profissional? 2) Alguém pensou em quanto tempo livre essa mãe abdicou para dar todo o suporte doméstico a ele?

Somadas às cobranças sobre estudos e trabalho em geral, desde novas temos mais responsabilidades por conta do nosso gênero. Meninas, com que idade vocês aprenderam a limpar suas casas e cuidar de seus irmãos? Isso vem cedo pra a gente.

As horas de jogatina vêm com consequências e punições mais graves do que às dos garotos da mesma idade. E, se existe “fórmula” pra ser um jogador de esports de sucesso, ela consiste em: começar cedo, se dedicar integralmente ao seu jogo e evoluir sua maneira de jogar conforme os anos.

Além disso, videogames são vistos desde sempre como hobbies “masculinos”, preconceito que impede que meninas ganhem consoles, computadores gamers e os próprios jogos. Isso já é impeditivo o suficiente, não?

É, mas ainda tem o assédio. Quem vive na comunidade gamer sabe bem o inferno que é ser mulher nela, especialmente no ambiente multiplayer. É cotidiano esconder o nick ou a voz para não sofrer ofensas machistas, boicotes ou ameaças em partidas casuais e ranqueadas. Um espaço que tem a premissa de ser seguro e divertido acaba se tornando um pesadelo quando você tem o gênero diferente da maioria.

E, quando essas meninas conseguem ultrapassar todas essas barreiras que eu já mencionei, acabam ouvindo deboches e mais absurdos no cenário profissional. Desde o clássico “não tem que ter liga feminina” até, bom, o tal do “perdi pra mulher”.

Toda essa estrutura nos afasta de um espaço que é, por premissa, misto. E não afasta só nos esports: mudando alguns elementos, dá pra entender por que sofremos no esporte tradicional, no mercado de trabalho e em diversos outros ambientes — especialmente os que são tidos como majoritariamente masculinos. Não somos bem vindas desde o princípio, o que faz com que a caminhada para os homens se torne uma corrida com obstáculos para as mulheres.

O que uma liga feminina faz

As ligas femininas são, basicamente, um espaço seguro para que as mulheres possam conhecer o amor pela competição apesar de todos esses fatores que nos afastam dos palcos. Mulheres de qualquer rank em qualquer jogo podem ser apresentadas ao esport através de ligas femininas bem estruturadas, e conhecer, através delas, a rivalidade e a vontade de vencer e de se superar no jogo que amam.

Elas não servem para excluir homens — isso nunca, nunca foi a intenção. Elas servem apenas para nos incluir. As ligas femininas preparam mulheres para que elas superem os obstáculos e cheguem, apesar do caminho diferente, aos mesmos espaços que as pessoas que não tiveram as mesmas dificuldades.

É claro que ligas mistas são a opção ideal. Mas o cenário misto sem a existência do cenário feminino é utópico: o cenário de esports, em tese, já é misto, mas mulheres não têm oportunidades de desenvolvimento justas para que possamos competir frente a frente com homens. Falta terreno para que a base seja desenvolvida: e esse terreno consiste em ligas femininas sólidas.

É fácil de entender: Todo jogador profissional de qualquer esporte começou de algum lugar. Desde as ligas de base de Counter-Strike da Gamers Club até os campeonatos de RP de League of Legends, todo jogador teve torneios menores para entender sua paixão pela competição e continuar jogando.

Como esses ambientes são hostis e inacessíveis para as mulheres, isso acaba nos afastando não apenas deles, mas dos esports como um todo. As ligas exclusivas são um espaço seguro para que a base feminina seja desenvolvida — sem assédio, entre mulheres, com os elementos competitivos de qualquer torneio.

Ligas femininas são mais fáceis?

Mas as premiações das ligas femininas ainda são menores que no cenário profissional, pouquíssimas mulheres têm salários e dá pra contar nos dedos as que conseguem se sustentar com o jogo. Ainda assim, existe um mito de que as mulheres “preferem” as ligas femininas por serem “dinheiro fácil”.

A minha amiga AMD, competidora do cenário feminino de Counter-Strike, me ajudou a refutar esta ideia. “Além das premiações serem muito inferiores, não faz sentido a gente se dedicar tanto a algo em que a gente ganha muito menos. Ninguém se contenta com pouco, todo mundo quer viver o sonho, mas tem toda a questão cultural e social”, explica.

Ela ainda cita que um grande fator que afasta os times femininos da elite dos esports é a recusa de times masculinos em treinarem com as garotas. “Nem sempre os melhores time do Brasil aceitam treinar com os femininos, porque eles dizem que não somos bons treinos para eles. Mas um dia, para eles chegarem onde estão, eles precisaram que um time de nível mais alto aceitasse treinar com eles”, diz.

“Existe essa hipocrisia: um time mediano precisa de um time mais forte para crescer, mas esse mesmo time, muitas vezes, não aceita treinar contra um time feminino dizendo que não é produtivo para eles”, exemplifica AMD.

Como incluir mulheres nos esports

Há algumas semanas, fui contatada por um empresário do cenário de esports que tem interesse no cenário feminino de esports e no desenvolvimento das mulheres no nosso meio. Ele me perguntou se entrevistas e divulgação de figuras femininas dos esports são um bom jeito de fazer o cenário feminino crescer, e eu fui enfática: o cenário feminino cresce quando as premiações crescem.

O cenário de esports só existe por conta dos torneios de esports, e só foi desenvolvido por conta da quantidade de dinheiro rodando através destes torneios. Boas premiações e possibilidades comerciais fizeram com que organizações surgissem e investissem pesado em jogadores — com salários cada vez mais altos — e estrutura, o que fez com que o cenário de todas as modalidades crescesse.

Você inclui mulheres nos esports quando fornece um campeonatos femininos frequentes e com boas premiações, para que as organizações e marcas cresçam os olhos e ofereçam bons salários e condições para que as mulheres se desenvolvam profissionalmente e cheguem ao nível dos jogadores profissionais homens.

O holofote sozinho não adianta se ele não vier acompanhado de dinheiro — que vem com exposição de marca, claro, mas com muito mais. Como as mulheres vão conseguir bater de frente com homens nos esports se, enquanto eles ganham salários de cinco dígitos, contamos nos dedos quantas mulheres sequer ganham salários com esports? Sequer se sustentam com os jogos que amam?

Nós não queremos ser excluídas dos esports. As ligas exclusivas nunca terão a intenção de nos deixar à margem do cenário principal de esporte eletrônico. Nós queremos um cenário igualitário de verdade: e isso implica em mais incentivos no início. Queremos escadas para que a escalada até o topo seja equivalente à caminhada dos homens, porque o objetivo é o mesmo: ser campeão e viver do sonho, viver de esports.