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Coluna da Evelynn: Projeto Valkirias reúne centenas de garotas para aprender esports

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Em agosto de 2020, a treinadora de League of Legends Pamela Mosquer anunciou em suas redes sociais o interesse em auxiliar um grupo de garotas a aprender sobre o jogo. Esperando, no máximo, 40 jogadoras, Pam se surpreendeu com as quase 300 inscrições concretizadas em menos de três semanas — sinal claro do interesse das meninas no competitivo do MOBA.

Da intensa demanda somada à vontade de diversas garotas e alguns homens de ajudar, surgiu o Projeto Valkirias. Três meses após a criação, a atuação foi expandida também ao Valorant, e mais de 600 garotas compõem o Discord em que aulas, palestras e orientações acontecem várias vezes por semana.

Em entrevista à Coluna da Evelynn, a fundadora relata que não esperava o retorno massivo da comunidade. Hoje em dia, o empecilho é ter conteúdo demais: “As meninas não conseguiam comparecer a tanta coisa, (...) porque tinham entrevistas com jogadores profissionais, casters, managers, e ao mesmo tempo elas tinham aulas”, relata.

A rotina das Valkirias é intensa: as participantes têm acesso a aulas teóricas com treinadores profissionais e a partidas personalizadas de treino entre duas e três vezes por semana, com turmas à tarde e à noite, dependendo da disponibilidade da garota interessada. “Elas pegaram o ritmo como se fosse um colégio, mesmo”, afirma Pamela.

ESFORÇO E RECOMPENSA

No League of Legends, garotas de todos os elos dividem-se entre interessadas em melhorar no jogo casual e interessadas em integrar o cenário competitivo. Atualmente, a primeira turma do projeto encaminha-se para finalizar a primeira etapa, e a fundadora conta, com orgulho, que a evolução é visível em boa parte das participantes.

Pamela e Tadashi, treinador de LoL do projeto, usarão o próximo final de semana para avaliar as participantes atuais e premiar as que mostraram mais evolução — independente do elo ranqueado. “Vamos assistir a SoloQ [partida ranqueada] que elas vão jogar e fazer um Vod Review [revisão de partida] ali na hora. Tem um arquivo com tudo que elas fizeram, qual foi a evolução delas, e a gente vai premiar as meninas que tiveram a melhor evolução do começo ao final do projeto”, diz.

“Eu tenho meninas que estavam no Ouro e a evolução delas foi tão rápida que elas subiram pro Diamante em dois meses. E não só isso, as meninas que eram Ferro, tem muitas que estão no Ouro agora, elas sentiram muita diferença. Eu sinto que era o empurrãozinho que elas precisavam. Aquela ajuda que ninguém nunca dá”, confessa.

DIFICULDADES

Apesar do interesse das garotas no cenário competitivo, a fundadora do Projeto Valkirias avalia a falta de referências no topo da pirâmide como principal desafio no desenvolvimento das jogadoras. “Não tem modelo para elas se espelharem. Elas não têm uma pro player pra olhar e pensar ‘eu quero ser igual essa menina’”, aponta.

“Chega num ponto em que elas falam ‘tá, por que eu tô fazendo isso?’ Porque elas jogam coisa de 10, 20 SoloQ por dia. É muito tempo investido, e elas não veem futuro e ficam desanimadas”, relata Pam.

A alternativa encontrada pelo projeto foi marcar reuniões semanais com uma psicóloga da organização e com a própria Pamela. “Passei bastante tempo falando para elas não desistirem. Lutarem, porque a gente tá abrindo caminho para as próximas meninas, que no começo vai ser difícil pra caramba, mas que temos que pensar em lá na frente, no impacto que isso vai trazer para as meninas lá na frente”, diz.

Com essa mentalidade, a fundadora relata que as participantes tornam-se mais centradas e melhoram o desempenho. “Tinha meninas que tinham medo de jogar soloq, nunca tinham jogado na vida. E hoje elas jogam muito, jogam juntas, tem amizade entre elas, conversam no grupo, se chamam pra jogar.”

INSERÇÃO NO CENÁRIO PROFISSIONAL

A todo momento, Pamela Mosquer deixa claro que o objetivo do Projeto Valkirias é no longo prazo, e que o resultado estará “lá na frente”. Apesar de acreditar que haverá mulheres no novo formato do CBLoL, ela não tem certeza de que elas sairão, neste momento, do Projeto Valkirias.

“Algumas meninas estão motivadas [em entrarem no CBLoL], mas algumas não se sentem prontas ainda. Foi muito pouco tempo de treino. Muitas delas estão focando mais nas seletivas que acontecerão no ano que vem do que em estarem no próximo CBLoL. Mas eu sei que a maioria delas tem interesse no competitivo. Até porque a gente tem elas divididas em competitivo e casual, e as meninas do competitivo são maioria”, diz a fundadora.

Pam afirma que o Valkirias também investe esforços em apresentar as garotas interessadas em trabalhar no cenário para as organizações profissionais. “Várias organizações já entraram em contato comigo para tryout, tanto com jogadoras quanto com managers ou casters. Faço isso sempre”, relata, citando que algumas das Franquias já consultaram o projeto.

Ela conta que faz a ponte por já ter tido frustrações “horríveis” com organizações de LoL antes de criar a iniciativa, o que faz com que a fundadora se comprometa a auxiliar para que mulheres não tenham experiências tão ruins com empresas.

FUTURO

A esse momento, a organização já transcende a atuação de Pam e conta com quase 20 pessoas auxiliando em diversos cargos administrativos e de treinamento — mas a fundadora pretende expandir cada vez mais, a fim de atingir cada vez mais mulheres no objetivo de treiná-las para o cenário de esports.

“O nosso objetivo para o projeto é que ele abrace vários jogos, não só o Valorant e o LoL. A gente agora quer abrir pro Free Fire, é uma novidade. Queremos abrir para o Wild Rift, também. Se tudo der certo, vamos abrir para o Free Fire em breve, e já na metade de 2021 abrir pro Wild Rift”, espera a fundadora.

Pamela Mosquer confidencia que o resultado esperado a longo prazo é que, através do Projeto Valkirias, mulheres sejam inseridas em todas as áreas dos esports. “Não só como jogadora: eu quero treinadoras, analistas, managers, jornalistas, quero encher esse negócio de mulher”, finaliza.


*Evelyn Mackus é jornalista, caster de esports e colunista sobre cenário feminino no ESPN Esports Brasil. Siga-a no Twitter e no Instagram.