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Coluna da Evelynn: Conheça o time feminino que surpreendeu na qualificatória do First Strike

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Neste mês de outubro, a comunidade de Valorant foi surpreendida pelo time feminino Fire Angels, revelado após vitória contra a equipe profissional da Black Dragons na primeira qualificatória do First Strike.

Mesmo com a eliminação vindo em seguida, em um 13 a 2 contra a Fusion Fraggers, as jogadoras Celinett, Tayhuhu, Shyz, Shizue e Isa comemoraram nas redes sociais a vitória, divulgada com um vídeo curto do clutch de Shyz no round decisivo. Eu, que sempre anseei ver mulheres em todos as áreas dos esports, fiquei de coração quentinho com os gritos de felicidade das meninas ao final do vídeo.

Com poucas semanas desde sua formação, o mix de atletas que tem desde o Point Blank até o League of Legends como base busca encontrar-se por completo no jogo — e o caminho é a disputa de todos os campeonatos possíveis, femininos ou não.

Quem confirma é a capitã do time, Celinett. Em entrevista à Coluna, a jogadora, que tem 7 anos de experiência no Point Blank, conta que chegou no Valorant com um time de garotas também advindas do FPS da OnGame, mas que divergências no caminho fizeram com que seu time atual se encontrasse.

Por uma queda de conexão de uma de suas companheiras, Celine e Tayhuhu convidaram Isa para completarem seu time na Ascent Women’s Cup. Shyz e Shizue eram suas adversárias na série final, e seu bom desempenho fez com que elas fossem convidadas para fechar o time.

A equipe foi formada e começou a treinar no início de outubro, cerca de duas semanas antes da qualificatória do First Strike. Hoje em dia, as garotas tem foco absoluto em prosseguirem no cenário competitivo, e treinam diariamente entre as 16 e 20h.

CAMPEONATOS PROFISSIONAIS

Apesar de serem grandes defensoras do cenário feminino, as jogadoras não se restringem a jogar apenas torneios entre mulheres. “Desde que eu vim dos outros jogos eu já me sentia preparada para esse cenário. Sempre tive na cabeça que jogaria os campeonatos independentemente [de gênero]”, conta a capitã.

Celine entende a importância de derrotas para o aprendizado das jogadoras. “Se você for lá e jogar contra um time mais forte, masculino, mais preparado, um time que ganha pra jogar, profissional, você vai perder, mas vai perder aprendendo no que você tem que melhorar, o que você tem que buscar”, crava.

Para ela, o First Strike fazia parte da estratégia, e serviria para ganhar experiência para que as jogadoras aprendem com as derrotas. “A gente não espera jogar e já ganhar, a gente é pé no chão, sabe que é muito difícil ganhar esse campeonato. Mas queremos participar”, explica.

Tendo competido no Point Blank, Apex Legends, PUBG e até Free Fire, Celine diz que esse pensamento não é seu lema apenas no Valorant, mas vem de competições em todos os jogos. “A gente não teve uma conversa pra decidir se jogaria todos os campeonatos. Eu sugeri e as meninas falaram ‘bora’. Bora jogar, pegar experiência, sinergia no time. E a gente foi”, diz.

VITÓRIA CONTRA BD

No First Strike, as garotas venceram as duas primeiras chaves das classificatórias e caíram contra a Black Dragons — um dos primeiros times de Valorant formados no Brasil, e composto também por ex-jogadores de Point Blank. Celine comenta que seu time, por ser recente, cometeu “errinhos bobos” que foram muito punidos pela BD.

Mesmo assim, as jogadoras conseguiram performar bem contra seus adversários. O mapa foi decidido em um Overtime, mas a capitã revela que foram eles que conquistaram a prorrogação: “Chegamos a abrir 12 a 9 contra eles, não era nem pra ter ido pro OT, quase perdemos. Ganhamos no Clutch da Shyz”, confessa.

Para ela, o resultado e o jogo aponta no que o time precisa evoluir. “[Precisamos] passar mais tempo juntas, jogar mais campeonatos e scrims pra ir evoluindo essas coisas, porque o placar foi apertado”, assume.

O jogo seguinte da classificatória, contra a Fusion Fraggers, não teve resultado parecido. Isa teve uma queda de internet — “um caminhão bateu no poste que passava a fibra na casa dela”, conta Celine, aos risos — e não conseguiu retornar a tempo do jogo. Com 4x5, o jogo foi perdido em um 13 a 2, mas a capitã exalta o fair play dos adversários, que não menosprezaram as garotas.

CASO FOOX

A conquista das jogadoras contra a Black Dragons, no entanto, foi ofuscada por um comentário machista feito por um dos adversários. Ele lamentou em uma live ter “perdido para mulher”, o que causou revolta da comunidade, que apoiou integralmente as Fire Angels.

“Acho que a gente conseguiu tirar o melhor disso”, confessa Celine. “Quem saiu como errado na história foi ele, e com razão, porque em nenhum momento a gente desrespeitou ele. Nem mesmo de outros jogos, nunca teve histórico de eu falar um ‘A’ pra esse menino, sempre respeitei como respeito meus adversários”, diz.

A capitã avalia que seu time saiu da situação como adversárias dignas: “mulheres que, mesmo na desvantagem histórica de ter piores equipamentos, não ter o time contratado e não ter patrocínio, conseguiram dar seu melhor e conquistar a vitória com todo o mérito”, cravou.

Celine reconhece a importância da vitória para o cenário feminino e a comunidade de esports. “Um time feminino ganhar de um time profissional é um feito muito grande. É algo que inspirou as meninas, eu sei disso porque várias me mandaram mensagem e compartilharam nossa vitória. Para mim, isso significa que eu consegui um dos meus objetivos, que é de representar as meninas”, confessa.

“Por mais que tenha pessoas para vir falar besteira, eu não me importo, porque sei que as pessoas que eu queria afetar com essa vitória, eu afetei. Com certeza a visibilidade foi mais positiva do que negativa, porque não tem o que ver de negativo. Não fizemos nada de errado, só jogamos um jogo e ganhamos. Não xingamos, não falamos nada, ele foi babaca de graça”, opina a capitã.

FUTURO

Exaltando outra vez o foco no cenário profissional, Celinett assume que seu time recebeu propostas depois do ocorrido, e define as conversas como um sonho. “Nunca pensei na minha vida que chegaria um momento em que eu ia poder ganhar um salário para jogar um jogo competitivamente. Então a gente tá com sangue nos olhos para aceitar propostas e honrar isso, honrar as meninas e dar nosso melhor”, garante.

A capitã compreende que a evolução não é um processo imediato, mas diz que seu time estará fazendo de tudo para subir “nessa escada que é o competitivo”. Para ela, o suporte financeiro e estrutural de uma organização era tudo que seu time precisava, porque as garotas já são um time bom, novo, que pode aprender e evoluir muito.

Ela finaliza incentivando organizações a contratarem times femininos de Valorant. “Se você der suporte para um time feminino, você não sabe até onde elas podem chegar. Historicamente, nunca tivemos patrocínio, sempre tínhamos os piores computadores e equipamentos. Se você pode consertar isso e apoiar um time feminino, esse time pode te surpreender e chegar muito longe”, garante.


*Evelyn Mackus é jornalista, caster de esports e colunista sobre cenário feminino no ESPN Esports Brasil. Siga-a no Twitter e no Instagram.