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Chat Aberto: AfroGames e a importância de investir em inclusão nos esports

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Há várias pesquisas de mercado que apontam os esportes eletrônicos como uma realidade no dia a dia dos brasileiros.

Segundo a Newzoo, o país registrou em 2018 cerca de 75,7 milhões de pessoas que jogam qualquer tipo de game, sendo que 47 milhões (62%) jogam esports.

Em 2020, a Pesquisa Game Brasil (PGB) apontou que 73,4% dos brasileiros consomem jogos eletrônicos em alguma esfera. Desse número, cerca de 65,6% são familiarizados com o meio de esports, sendo 44,7% praticantes.

Só que é preciso questionar essa “realidade” por meio de recortes sociais, afinal, é evidente a falta de negros na bolha gamer - assim como pessoas de classes mais baixas.

É uma discussão que ganhou força só no último mês de maio, quando houve as manifestações #BlackLivesMatters em protesto a morte do estadunidense George Floyd, um homem negro, após abordagem de um policial branco.

Um dos trabalhos pioneiros no Brasil de inclusão nos esportes eletrônicos, a AfroGames precisou encarar essa dura realidade logo na primeira reunião quando o projeto ainda estava no papel. É o que contam William Reis, coordenador executivo da AfroGames, e Ricardo Chantilly, empresário do ramo musical, em conversa exclusiva no Chat Aberto desta semana. Os dois estão por trás dessa iniciativa.

Chantiliy chegou a entender as barreiras sociais dos esports logo na apresentação do projeto AfroGames para o pessoal do AfroReggae, grupo cultural voltado para a diminuição das desigualdades sociais e que estava estudando a possibilidade de expandir os investimentos também para o setor de esports.

Foi quando alguém interrompeu a apresentação de Chantily e fez o seguinte questionamento: "Cara, não vi um negro jogando".

"Aquilo foi realmente uma porrada”, admitiu o empresário durante a gravação do podcast do ESPN Esports Brasil, que pode ser escutado via Soundcloud e Spotify. “Como eu não estava ainda envolvido no terceiro setor, nas ONGs, eu também não estava com essa visão. E a partir dali começamos a desenvolver esse projeto, que virou realidade ano passado atendendo seis jovens."

O AFROGAMES

O AfroGames surgiu em maio do ano passado com a missão de capacitar e profissionalizar os jovens da favela Vigário Geral, que fica na Zona Norte do Rio de Janeiro. O investimento consiste na criação de um centro de treinamento, iniciativa inédita em favelas do país todo.

O espaço, localizado no Centro Cultural Waly Salomão, que fica na Zona Norte do Rio de Janeiro, disponibiliza 100 vagas aos jovens da comunidade. Eles têm aulas de League of Legends, programação de computadores (TI), produção de trilha sonora focada em games e inglês.

Após ficar um tempo sem patrocinador, o AfroGames fechou acordo com a Fusion, marca da Ambev, que entra como principal investidora do negócio. Com isso, o centro de treinamento será reaberto ainda neste ano, seguindo as normas de segurança da OMS, com o retorno das aulas presenciais.

Além disso, o AfroGames poderá alavancar de vez o projeto-embrião da sua própria organização de esports por meio do AFG Esports, time de League of Legends recém-criado com alunos selecionados da turma formada em 2019. “Os seis que mais se destacaram. Não tem caridade”, pontuou Chantily.

TIME DE ESPORTS DA FAVELA

O AFG é composto por cinco garotos e uma garota - todos residentes da periferia - que receberão um salário mínimo como bolsa de jogadores, com a possibilidade de se dedicar em tempo integral na profissionalização da carreira como pro players. Eles terão ainda à disposição uma sala exclusiva para o tie, treinamentos, técnico e acompanhamento psicológico - tudo para poderem competir em vários torneios.

“O objetivo é que esse time, em três ou cinco anos, vire uma organização forte. E daqui, depois de uns cincos anos, que nós sejamos reveladores de talentos”, projetou o empresário.

O AfroGames, portanto, passará a “agenciar a carreira desses garotos porque hojes eles não têm nada”, comentou Chantily. “Há um ano, um jovem da favela de Vigário Geral, ele mal tinha acesso ao computador. Alguns falam que nunca ligaram um computador. Tinham ligado celular, é o que eles usavam.”

O discurso do empresário condiz com a realidade brasileira, uma vez que apenas 41,7% das residências tinham acesso a computador em 2018, segundo dados do IBGE. Em contrapartida, 94,9% da população tinham acesso a telefone celular.

O AfroGames procura diminuir essas barreiras nas favelas cariocas. “Hoje, esses garotos programam. Todos jogam. E sabem mexer no computador. Além de tudo, eles têm aulas de inglês. Então você está preparando esses garotos pra vida”, concluiu Chantily.

NÃO É CARIDADE

Na visão de Chantily, reduzir esse trabalho todo do AfroGames apenas como projeto social não condiz com o que está em jogo.

“Sabe como eu defino o AfroGames? É um projeto 100% comercial. Eu preciso pagar as contas, tenho filho pra sustentar. O prédio tem que sobreviver. Tem contas, funcionários. Tem que pagar as contas. Ele é 100% comercial, mas 200% social”, ressaltou.

William tem o mesmo discurso. “O AfroGames não é caridade. Na verdade, a gente encara como políticas afirmativas. É um projeto no qual damos ferramentas necessárias para que uma população que não tem esse acesso consiga entrar.”

“É claro que nós temos a responsabilidade social, mas isso também é negócio”, avaliou. Para o coordenador executivo, “você vê que ele está além da caridade” quando tem como proposta não só trabalhar o jovem da periferia num recorte de games, mas tem todo um trabalho de base para que ele se torne um cidadão.

“Temos que fazer alguma coisa na base, na educação. Não é punindo só, coisa que eu nem tenho lugar de fala como branco [pra falar]. Porque o branco acha que está tudo certo, mas tá tudo errado. A gente tem que realmente meter a mão na massa. A gente tem que fazer”, respondeu.

TRABALHO DE BASE

Até pelos cursos oferecidos, que vão além do objetivo de formar pro player, o AfroGames consegue inserir “esse público em um dos mercados que mais cresce no mundo”, como disse William. “A gente sabe e entende. Já é uma realidade: afastar os jovens do crime.”

O trabalho de base que o AfroGames promove é muito voltado, como ainda explicou William Reis, para “empoderar e politizar essa galera”. É algo que já está no “DNA” do AfroReggae e que foi estendido para esse braço gamer.

“Não é um projeto que vai fazer caridade, tirar 'fotinha' da pobreza e pronto, está tudo certo. Pelo contrário: é um projeto que vai dar frutos não só para esse jovem, mas também para o AfroReggae. É negócio.”

QUEM LACRA NÃO LUCRA?

O jargão empresarial “Quem lacra não lucra”, muito usado de forma negativa para criticar ações de diversidade e inclusão, rapidamente virou assunto na conversa com William e Chantily. E o empresário musical foi muito crítico.

“Ninguém ganha com isso”, condenou. “Meu dia a dia no AfroGames me mostra o quanto temos que fazer alguma coisa. Não por alguém, mas pra toda uma sociedade.”

“Temos que quebrar esse degrau, esse racismo que existe, essa barreira. A violência atinge a todos. Atinge o garoto negro lá dentro e o branco aqui fora. Não existe grade ou segurança que vai te proteger totalmente.”

A dupla de empresários entende que é necessário falar de lucro para que o AfroGames vire a página de ser taxado como mais um projeto social nos esports dentre vários.

William explicou esse raciocínio. “Com diversas marcas a gente fazia questão de reforçar exatamente isso: 'Você não tá colocando dinheiro aqui por causa de caridade. É dinheiro pra ter lucro pra sua marca’.”

No podcast do ESPN Esports Brasil, William e Chantily exploraram com mais detalhes essa visão empreendedora sobre políticas de afirmação. A dupla destrinchou como o Estado, por meio de leis de incentivo, permite a manutenção do AfroGames e facilita na aproximação com patrocinadores.

O potencial da favela, seja como consumidora ou então celeiro de craques dos esports, também foi muito discutido. Os dois concordam que existem joias brutas nas periferias do Brasil, mas que não têm o devido acesso para construírem carreira nos esports.

“Qual é o nosso trabalho? Qual é a nossa missão? É dar a chance pra essa molecada para a gente descobrir quem é o Pelé ou o Neymar que pode estar lá dentro”, projetou Chantily.

Escute mais sobre o AfroGames, além da visão empreendedora de inclusão e diversidade nos esports, no Chat Aberto.