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Franquias no CBLoL: O que são franquias esportivas?

Final do CBLoL 2019 recebeu milhares de torcedores na Jeunesse Arena Riot Games Brasil

No início de 2020, a Riot Games Brasil anunciou que o Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL) adotará um sistema de franquias a partir de 2021. Com isso, equipes que queiram competir na primeira divisão do torneio de esports terão de aplicar para a compra de uma vaga, a fim de tornarem-se sócios da liga.

As franquias já são realidade em boa parte das regiões competitivas de LoL no mundo. A liga norte-americana, LCS, foi a primeira, seguida pela europeia LEC e, a partir de 2021, a coreana LCK também fará parte do sistema. No esporte tradicional, grandes ligas ao redor do mundo são franqueadas, como as gigantes norte-americanas NBA, NFL, National Hockey League NHL e MLB.

Os fãs brasileiros, no entanto, não são tão familiarizados com o conceito, pois as principais ligas esportivas no país seguem uma lógica diferente — que tem a ver com a maneira com que os esportes foram profissionalizados no Brasil.

A LÓGICA DE FRANQUIAS

Para esclarecer o que são franquias e o que isso significaria no contexto do CBLoL e dos esportes eletrônicos, o ESPN Esports Brasil consultou o comentarista da ESPN Ubiratan Leal, que explicou questões inerentes às ligas americanas e franquias em geral.

No Brasil, o esporte tornou-se profissional através da lógica de clubes esportivos, geralmente organizados por funcionários de empresas ou moradores de determinados bairros. Assim, todo membro do clube teria chance de fazer parte dos times profissionais, mesmo que o acesso fosse feito através de divisões inferiores.

As principais competições de futebol no país seguem esta lógica. O Brasileirão de Futebol tem 4 divisões (Série A, B, C e D), em que atletas e times de todo o território nacional podem conquistar seu espaço através de seu desempenho e, quem sabe, chegar à primeira divisão e aos campeonatos internacionais a que ela dá acesso.

A lógica de franquias, no entanto, é diferente. Ubira explica a questão trazendo uma hipótese: um grupo de amigos monta um time de algum esporte e conhece outros times que queiram jogar contra eles. O campeonato é formado entre times conhecidos, é um sucesso e passa a acontecer anualmente.

“De repente, esse torneio passa a ficar famoso, muita gente começa a acompanhar e eles começam a ganhar dinheiro com ele. Eles não querem que mais gente entre, pois o campeonato é deles. Se for para alguém entrar, que seja alguém que este grupo considere legal ou que não vá deteriorar a estrutura que o grupo criou, que vá trazer destaque ou injetar investimento”, sugere o comentarista, ilustrando a situação.

O campeonato, nesta hipótese, não pertence a uma federação externa aos times que controle e rege o que pode ou não acontecer: ele pertence aos próprios times, que são sócios entre si. “A franquia é: você é dono de um pedaço daquilo”, traduz Ubiratan. As organizações são donas do negócio, e uma nova franquia é uma nova unidade de negócios daquele campeonato esportivo.

Com a “posse” do campeonato pertencendo a seus participantes, as decisões administrativas são tomadas pelas próprias franquias em acordo, ou por um administrador da liga, que também é definido pelas organizações. Apesar da competitividade no jogo, a ideia é que a receita e os patrocínios sejam igualados na liga, para que não haja discrepâncias de desempenho em jogo que ameacem o ecossistema da liga.

“Os esportes americanos funcionam dessa maneira porque eles criaram os campeonatos assim”, explica o comentarista. Assim, por exemplo, Los Angeles Lakers e New York Knicks são franquias da NBA — o que os configura em sócias e unidades de negócios do torneio milionário de basquete em Los Angeles e Nova York, respectivamente.

Apesar das franquias não serem tão populares no Brasil, elas existem em torneios como a Liga Nacional de Futsal (LNF) e a Nova Basquete Brasil (NBB). A LNF foi fundada em 1996 e conta com 19 franquias de 5 estados do país, enquanto a NBB é datada de 2009 e tem 16 franquias de 7 estados.

LIGAS DE ACESSO

Com base nesta lógica, o acesso dos times ao campeonato é dado de maneira diferente do que campeonatos com modelo de “divisões”. Não há obrigatoriedade de “segunda divisão” ou de uma liga de acesso — os times participantes da liga principal são definidos através das franquias pertencentes à união e não há rebaixamento.

Ligas menores, no entanto, são adotadas com frequência, porém com motivação diferente. Um time de uma “liga B” à franqueada não tem o objetivo de subir à principal, e sim, em sua maioria, de desenvolver talentos para serem utilizados pelos times das franquias.

No contexto da NBA, a G-League (conhecida também como NBA Development League) serve como campo de formação para novos atletas de basquete em diversas partes dos Estados Unidos. 27 times pertencentes às franquias da NBA se dividem em seis divisões ao redor do país, desenvolvendo talentos locais e, eventualmente, atraindo olhos dos times da liga principal a alguns de seus atletas.

Ligas como a NFL, no entanto, não contam com nenhum tipo de liga de acesso, e revelam talentos apenas por iniciativas como o Draft — evento anual em que as franquias avaliam e recrutam estrelas do esporte universitário e amador.

Nos esports, duas opções de “segunda divisão” são adotadas por duas das principais ligas franqueadas do mundo. A LCS, liga norte-americana, conta com a LCS Academy, em que cada uma das 10 franquias do campeonato tem a obrigação de manter um time B, podendo utilizar os atletas do segundo time na liga principal.

Já a LEC, que representa o território europeu, adotou ligas regionais entre países do continente como torneios paralelos ao principal. Campeonatos como a LPLOL (liga portuguesa), a LVP (liga espanhola) e a Ultraliga (polonesa) acontecem ao longo da temporada com times locais, resultando num torneio entre seus campeões chamado EU Masters. Todas as 12 ligas pertencentes à conjuntura do EU Masters servem de campo de desenvolvimento de jogadores para a LEC. A Liga Latinoamérica (LLA), vizinha do CBLoL, segue o mesmo modelo de ligas regionais como acesso.

Já o Flashpoint, torneio franqueado de Counter-Strike inaugurado em 2020, não conta com nenhuma opção de acesso para novas franquias ou desenvolvimento de jogadores até o momento.

COMO IMPLEMENTAR NO CBLOL?

No modelo atual, a estrutura do CBLoL conta com três divisões: o próprio CBLoL, que é a primeira divisão e dá acesso a torneios internacionais; o Circuito Desafiante, que dá acesso ao CBLoL; e o Circuito de Acesso, conhecido como “Tier 3” ou “Circuitinho”, circuito aberto de torneios que dá acesso ao Desafiante.

Em tese, qualquer time do Brasil pode ser parte do CBLoL partindo do Tier 3 e conquistando seu caminho rumo à primeira divisão através de vitórias nas ligas de acesso inferiores — comparáveis às Séries B e C do Brasileirão.

No momento, o CBLoL está em transição para o sistema de franquias. Isso significa que os times que queiram fazer parte do CBLoL a partir de 2021 devem enviar suas aplicações para a Riot Games, que é a administradora da liga, e a empresa decidirá quem serão os participantes e sócios do CBLoL nas próximas temporadas.

A aplicação consiste, basicamente, em uma proposta completa para compra de uma vaga. Isso contempla um projeto de manutenção de elenco, planos de negócio consistentes e projeções para o crescimento de suas marcas em prol do aumento da produtividade do campeonato como um todo.

A organização norte-americana Team Liquid, por exemplo, ilustrou sua aplicação para a LCS com um vídeo. Confira:

Com isso, as decisões administrativas e a maioria das questões referentes ao campeonato serão decididas em conjunto por todos os times, que se tornarão franquias.

Ao implementarem as franquias, as ligas LEC e LCS aumentaram o número de equipes participantes de 8 para 10, e estabeleceram através de suas próprias necessidades os modelos de liga de acesso adotados entre si. Queridinho do público brasileiro, o Circuito Desafiante pode, com a chegada das franquias, ser extinto ou transformar-se em liga academy ou conjunto de ligas regionais.

PRÓS E CONTRAS

Especialmente no contexto do esporte eletrônico, a franquia é um modelo muito discutido por ter prós e contras bem definidos. A falta de uma estrutura de rebaixamento por si só é um dos maiores fatores de discussão, pois acarreta em muitas consequências.

Algumas das vantagens das franquias são:

  • Estabilidade para patrocinadores: Sem a possibilidade de rebaixamento, times tornam-se terrenos mais férteis para patrocinadores e marcas interessadas em investir no campeonato, pois sabem que permanecerão na primeira divisão mesmo se planejamento não der frutos de primeira;

  • Possibilidade de investimentos a longo prazo: Planejamentos podem ser feitos visando meses ou anos, pois não há o imediatismo de fugir do rebaixamento e fazer a equipe competitiva “vingar” em três meses;

  • Desenvolvimento da liga nos bastidores: Com sócios definidos através de um estudo consistente, a chance de conflitos acontecerem é menor, visto que a ideia é que as franquias concordem entre si. A cooperação entre sócios na captação de mais receita para a liga também é levada em consideração, e o que faz bem para uma franquia, em tese, fará bem para todo o campeonato.

Algumas das desvantagens da franquia são:

  • Problemas com competitividade: Como não há rebaixamento, alguns críticos da franquia alegam que os times e jogadores podem ficar “acomodados” no campeonato e não buscarem melhoria a longo prazo. A LCS, por exemplo, definiu que franquias cujos times que ficassem em último lugar por quatro etapas consecutivas perderiam automaticamente seu lugar na liga;

  • Renovação da liga: A estabilidade da liga impede também renovação de pensamento, pois a ideia é que não haja mudanças no quadro de sócios por certo tempo. Isso pode trazer consequências negativas a longo prazo caso alguma das franquias não siga uma conduta interessante para o desenvolvimento do campeonato.

RESUMINDO

  • Franquias são ligas “independentes” entre si cujos participantes são também donos do negócio;

  • Não há rebaixamento nem obrigatoriedade de segunda divisão, mas há possibilidades de ligas de acesso;

  • No CBLoL, organizações deverão se aplicar para a compra de uma vaga através de um plano de negócios;

  • A falta de rebaixamento pode trazer tanto estabilidade econômica quanto problemas na competitividade.


Confira outras partes do Especial de Franquias no CBLoL da ESPN: