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Do 'frio na barriga' ao respeito aos detalhes: os bastidores do retorno do CBLoL

Os bastidores do retorno do CBLoL Riot Games

Foram três longas semanas de espera. Enquanto as ligas norte-americana (LCS) e europeia (LEC) estavam correndo a todo vapor, nós no Brasil estávamos ansiosos por novidades. No dia 10 de abril, no entanto, a espera acabou. O CBLoL estava de volta.

A re-reestreia do torneio foi um dos momentos mais aguardados do ano para o fã brasileiro de League of Legends e também para os “rioters” (como os funcionários da Riot Games se autointitulam), que tiveram que se adaptar pela segunda vez no ano para manter o CBLoL rodando. A primeira, foi na transição do estúdio Quanta para o On e-Stadium, após as fortes chuvas que por conta das fortes chuvas que tomaram a cidade de São Paulo em fevereiro. Agora a ausência foi por conta do distanciamento social que o novo coronavírus vem impondo.

“Entrei na sexta-feira com um grande frio na barriga”, confessa Carlos Antunes, diretor de Esports da Riot Games sobre o retorno do campeonato ao ESPN Esports Brasil. “Tínhamos todos trabalhado muito nas últimas semanas, esbarrado em problemas, descoberto e testado coisas que resolviam limitações da produção remota. E a cada parte da operação que a gente resolvia, vinha uma sensação muito boa de que estávamos um passo mais perto do CBLoL voltar. Cada pessoa do nosso time estava muito engajada e dando o melhor de si para resolver cada desafio, e isso foi muito inspirador para mim”.

Apesar de tudo estar preparado, Carlos confessa que ainda tinha aquela sensação que todos nós temos quando estamos realizando algo importante: a preocupação de algo dar errado. “Era tudo muito diferente, o time não estava fisicamente junto (e a gente tira muita força uns dos outros, juntos o tempo todo) e a expectativa da volta do CBLoL era muito grande. Como será que a comunidade ia receber um show diferente do CBLoL de todos os fins de semana?”, relembra.

“Aí subiu a vinheta de abertura. E logo nos primeiros minutos, eu estava colado no Twitter fazendo mil pesquisas e buscas, olhando a transmissão em três telas diferentes, conversando com o time nos canais de áudio. Fui vendo, então, que a comunidade estava gostando de ter o CBLoL de volta, e que todos já estavam vibrando e torcendo pra desempatar a tabela, e com saudades dos casters. E isso deu força!”, conta.

Mas antes de chegar nesse ponto, existiu muita preparação. “O nosso maior desafio foi transformar toda uma infraestrutura física, presente em estúdio, em uma infraestrutura online”. O diretor contou como foram as semanas de preparação e também as peculiaridades do Brasil para fazer o CBLoL voltar à ativa.

“Apesar do esporte eletrônico permitir partidas online por conta de sua natureza digital, a produção e transmissão de um campeonato envolve uma operação complexa e similar à de uma TV com shows ao vivo” explica o diretor. Carlos diz ainda que toda estrutura de levar o CBLoL para as casas dos espectadores é muito similar com o que vemos em um canal de TV. “Uma grande parte da nossa produção é baseada em equipamentos e processos que, para possibilitarem a versatilidade e a qualidade que queremos levar ao ar, estão vinculados a uma infraestrutura física.”

“Todo fim de semana, na nossa operação normal, temos dezenas de profissionais que se envolvem na captação de imagens, controle de áudio, edição e produção de conteúdo como replays, quadros patrocinados, informações em tempo real e no corte em si do programa que vai ao ar com todos esses conteúdos - e tudo isso é coordenado por equipamentos e fluxos de trabalho implantados no nosso estúdio, ou em um estúdio temporário como o que montamos na On e-Stadium e em nossos eventos presenciais”, continua.

Para sair de uma estrutura física para adaptar o trabalho ao âmbito online, a equipe da Riot precisou buscar novas ferramentas de trabalho ao mesmo tempo em que a Riot busca manter a qualidade com a qual o espectador está acostumado a ver nos finais de semana. Essas ferramentas vão da edição, cortes e transições, até mesmo ferramentas de comunicação entre os times e a empresa e da Riot com os casters tiveram que ser apropriadas para serem usadas na nuvem. “Essa foi uma solução nova e que exigiu de todo o time de produção e transmissão muita flexibilidade, mas que também nos estimula muito a inovar”, diz o diretor. “Foram necessários inúmeros testes antes de assumir que, sim, era possível fazer uma entrega online. Ainda estamos otimizando a transmissão, sempre buscando alternativas de melhorar cada vez mais o conteúdo entregue aos fãs de esports”.

UM NOVO DESAFIO

Apesar de ter como seu principal produto focado em uma transmissão online, a maioria dos profissionais que atuam na produção do CBLoL veio da televisão. Porém, sabemos que os narradores e analistas são “macacos velhos” em produzir shows e mesas redondas na internet. Gustavo Ruzza, o Melão, é não se vê como um “especialista” em transmissões de campeonatos online, mas é inegável que tem uma grande experiência em produzir shows online. O analista faz semanalmente um programa de debates sobre o CBLoL, o Late Game Show.

“Eu não acho que tenho uma ‘vasta experiência’ em campeonatos online porque eu fiz isso por pouco tempo. A primeira vez que fiz uma transmissão foi em agosto de 2012 e já no final de janeiro de 2013 em já estava em uma estrutura 100% em estúdio. Tive uma experiência intensa de alguns meses no comecinho da minha carreira (e que não guardo nenhuma saudade) e agora está muito diferente”, conta.

“Eu lembro de um campeonato que organizei e transmiti no começo de 2013 que foi horrível, horrível. Os times estavam em um processo de transição para a profissionalização, deu vários problemas com as equipes. E também usávamos um programa de comunicação que tinha um problema de segurança enorme e que deixava bem vulnerável nosso endereço de IP. Então sofríamos muitos ataques de DDoS toda santa vez. Eu lembro que em algum momento desse campeonato eu tive que passar a bola para alguém transmitir e deitei em posição fetal com tantos problemas de estresse e de raiva”, relembra o humorado analista.

Ele diz que como agora a estrutura da Riot é bem diferente, as coisas estão mais tranquilas “Agora eu só preciso me preocupar em fazer meu trabalho e não me preocupar em um milhão de outras coisas”.

Apesar de sua experiência com om LGS, Melão confessa que ainda assim é uma novidade pra ele também e que “O que mais me surpreendeu – e que eu tinha esquecido – de como é difícil você não ter a referência visual de seu colega. De como essa referência visual de pegar deixa e desenvolver ideias. Agora que a gente não está se vendo é um desafio a mais”.

Carlos diz que essa experiência que Melão e os outros casters foi muito importante “A experiência dos casters, é claro, nos ajudou muito no processo de migração para o formato online. A experiência deles na criação de conteúdo é fundamental em trazer não só familiaridade no uso de soluções “remotas” de comunicação, como também na naturalidade como fazem narração e análise como se ainda estivessem um ao lado do outro”.

A Riot deu toda infraestrutura para os casters e jogadores, enviando equipamentos e fazendo diversos testes para que tudo estivesse pronto na hora da transmissão “Tudo fica ainda mais complexo, porque fatores externos, como qualidade da internet, podem influenciar na qualidade da transmissão. Estamos sempre buscando alternativas para inovar e sabemos que vamos aprender muito ao longo dessa jornada”.

Além de contar com a experiência dos casters, é importante lembrar que a Riot é uma empresa global e, como dito no início deste texto, as outras ligas já estavam acontecendo online. “Desde o início, criamos uma rotina de troca de experiência entre todas as ligas para que pudéssemos estudar soluções ou ainda compartilhar aprendizados. Essa foi uma troca de experiência muito válida e que segue ocorrendo entre times de todo o mundo”.

Porém, apesar disso, sabemos que o Brasil é um país particular em todos os sentidos, “No caso do Brasil, tivemos ainda um fato adicional: como ainda estávamos operando com alguns processos de contingência em função das enchentes que impactaram nosso estúdio, algumas soluções não puderam ser simplesmente ‘migradas’ para a nuvem, e precisamos desenvolver um novo projeto, encontrar novas soluções e fazer testes - a equipe levou, aproximadamente, 10 dias para configurar e testar até estarmos prontos para ir para o ar”, relembra Carlos que faz questão de reforçar que “seguimos aprimorando nossa transmissão mesmo após a estreia online”.

ADAPTAÇÃO DOS TIMES

Vale lembrar que para jogar o CBLoL, os jogadores e times não podem simplesmente sentar e ligar os computadores para disputar uma partida. Apesar de ter uma ampla rede de internet, São Paulo é uma cidade muito grande e cada time está em um lugar diferente, o que exige uma preparação diferenciada para cada equipe. Não apenas isso: estamos em estado de distanciamento social e isso tem sido levado a sério para a equipe do CBLoL.

“Conversamos com todas as equipes para garantir que a volta do CBLoL pudesse acontecer, sobretudo preservando e priorizando a segurança dos jogadores”, conta Carlos. “Trabalhamos desde o princípio conversando com as organizações para identificar como seria a lógica da quarentena de cada time (em suas casas, em Gaming House), para que pudéssemos garantir a qualidade das conexões, dos equipamentos de cada jogador”.

“Aumentamos nosso time de operação para poder dar mais suporte a operação técnica das partidas, e poder dar suportes aos jogadores e organizações. Estamos sempre à disposição para melhorar a infraestrutura no que for possível dentro do que podemos oferecer como liga”.

ALÍVIO APÓS A ESTREIA

Apesar disso, Carlos conta que o principal fator para que essa força seja ampliada é a confiança dos fãs do CBLoL com a Riot “O medo de termos algum problema por causa de conexão ou qualquer fator fora de controle sempre esteve e estará lá, mas ele foi sendo substituído por uma convicção de que se acontecer algo, a comunidade vai entender, e a gente vai conseguir resolver”.

Carlos também conta como foi a sensação de quando a última partida chegou ao fim e a transmissão foi encerrada. “Quando a última partida chegou ao fim, de uma super-semana (porque começar com semana normal não é CBLoL (rs), bateu aquela adrenalina que nem evento do CBLoL, quando o time se entreolha e diz “valeu!”. Só que dessa vez, por áudio. E já partimos para planejar o próximo fim de semana”.

Ele comparou esta sensação com uma grande final “Eu comecei na Riot em 2016, logo antes da Final do Ibirapuera. Eu não tinha nem um mês de casa e fui trabalhar na Final do CBLoL. Na hora que eu vi aquela arena, o público, o CBLoL me tocou de um jeito que eu jamais imaginaria - até hoje eu me emociono e lembro de alguns momentos. Nesse final de semana, nossa segunda estréia do ano, o CBLoL me sacudiu de novo, e me mostrou porque estamos aqui e que vale a pena. Vale a pena demais!”