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Biguzera: o fenômeno das 41 eliminações que sonha escrever o nome da paiN na história do CS

biguzera, o jogador que chocou o mundo do CS com 41 eliminações Felipe Guerra / Gamers Club Masters

O dia 17 de dezembro de 2018 ficou marcado no Counter-Strike brasileiro. Era o primeiro destaque da carreira de biguzera, que nesta data impressionou a comunidade do FPS no mundo inteiro ao conseguir 41 eliminações numa partida em que acabou perdendo.

Tal façanha ocorreu durante o confronto final da sétima temporada da Brasil Premier League (BPL). Ainda desconhecido por muitos, biguzera atuava ao lado de amigos pelo NO ORG, e o adversário da equipe era a Detona, um dos principais times do País. Mas o fato de estar enfrentando os Pitbulls não amedontrou o jovem, que mostrou ao mundo que jogar Counter-Strike era “brincadeira de criança”.

Mais de um ano depois de ser revelado, em entrevista ao ESPN Esports Brasil, biguzera conta que que lembra-se “perfeitamente desse dia”.

"Estava tendo um churrasco lá em casa e, para mim, o jogo estava normal. Eu estava matando, mas não olhando o placar e nem preocupado com isso. Quando acabou o jogo, me despedi do pessoal falando que estava rolando um churrasco em casa e que ia curtir. Foi quando meu irmão perguntou como tinha sido a final e falei que tinha jogado bem, mas havia perdido”.

Ele revela que ficou sabendo do feito quando viu que tinha muitas mensagens e notificações numa rede social. “Lembro que tinha criado Twitter uma semana antes, porque o pessoal falou que eu precisava. Eu não tinha noção do quão bem tinha jogado, e aí a galera começou a me mandar muita mensagem porque o Don Haci publicou no perfil dele. Aí o que eu fiz contra a Detona naquele dia parou até no fórum do HLTV, o v$m publicou no Twitter dele e começaram a vir os seguidores”.

“Foi muito rápido e eu não tinha noção que tinha amassado no jogo. Hoje em dia, de vez em quando, quando não tenho nada pra fazer, vejo o ‘VT’ dessa partida e ainda não consigo entender porque matei tanto. Às vezes acontece”, brinca.

Esta é uma das muita histórias que podem ser contadas com o objetivo de retratar a ainda nova carreira de biguzera, um dos integrantes da melhor equipe que compete no Brasil na atualidade — a paiN Gaming — e considerado um dos principais nomes do jogo no País.

Mas estamos aqui não só para falar sobre os já consideráveis feitos do jogador no último um ano e meio. Conhecer Rodrigo Bittencourt mostra-se essencial para entender a meteórica ascenção do jovem de 22 anos que de Niterói, no Rio de Janeiro, foi parar no topo do cenário nacional de Counter-Strike.

Biguzera conta que conheceu o FPS mais amado do Brasil por meio do irmão mais velho, pessoa que aparece como figura central na vida do jogador após a perda dos pais.

“Meu irmão mais velho jogava CS 1.6 e viajávamos muito para Búzios [litoral do Rio de Janeiro]. Nessa cidade tinha uma lan e ficávamos nela enquanto meus pais passeavam. Eles nos deixavam lá jogando, e foi o meu irmão que me ajudou a dar os primeiros passos no Counter-Strike. Foi ele que me apresentou ao jogo”, revela.

Irmão este que bigu considera um pai: “Desde que perdemos nossos pais [o pai aos 8 anos, a mãe aos 17], ele assumiu essa postura pra mim, essa responsabilidade. Sempre que tenho que tomar uma decisão mais difícil, eu recorro a ele, porque é o que mais próximo que tenho de família”, conta.

Além de ter apresentado o Counter-Strike a Rodrigo, o irmão mais velho também é um dos que mais incentiva o integrante da paiN a seguir a carreira de jogador profissional. “Quando eu ainda nem pensava em ser profissional, nem tinha ideia do que ia virar, ele sempre esteve ao meu lado e sempre viu meu talento. Por termos perdido nossos pais cedo, foi diferente porque meu irmão já tinha uma cabeça mais moderna, mais aberta”.

Ao falar sobre a mãe, biguzera lembra: “Ela falava sempre que eu tinha que fazer faculdade e eu respondia dizendo que não conseguia me ver em uma. Ela faleceu dois dias antes do ENEM, e eu só fiz por fazer, sem nenhum intuito”. Levemente emocionado, o jogador afirma que, “com cerreza, hoje eu sinto que meus pais estariam muito orgulhosos do que me tornei. Não só como profissional, mas também como pessoa, e meu irmão sempre lembra disso”.

Por mais que, na época, não tenha seguido o conselho da mãe de cursar uma faculdade, atualmente biguzera concilia a rotina de jogador profissional com a faculdade de Ciências Contábeis — fato o qual classifica como curioso.

“É curioso porque eu nunca gostei de estudar, nunca gostei de escola. Hoje faço faculdade e estou no sexto período de Ciências Contábeis. Nunca quis fazer faculdade e, por causa de alguns fatores, fui meio que obrigado, mas hoje eu consigo conciliar minha rotina com a faculdade a distância e estou até gostando”, revela.

Ao ser questionado sobre o que sonhava ser antes de seguir carreira nos esportes eletrônicos, biguzera afirma que, assim como muitos outros jovens no Brasil, sonhou ser jogador de futebol: “Sempre quis jogar futebol, e aí quando chegou na minha adolescência fui desistindo, fui vendo que é muito mais trabalhoso do que pensamos. Depois pensei em fazer engenharia e cheguei a cursar por um tempo, mas vi que não era a minha praia, e logo quando larguei essa faculdade comecei a jogar CS”.

Biguzera aponta: “Hoje eu só consigo me ver no esporte eletrônico, porque é uma área que eu curto. Se eu não fosse dessa área, talvez eu trabalhasse com contabilidade mesmo, o que estudo atualmente”.

“Eu não consigo me ver em nada além do Counter-Strike. Tenho muita vontade de gerir também. Se acontecer alguma coisa, se eu precisar parar por algum motivo, tenho muita vontade de gerir alguma área do CS ou virar treinador porque eu curto muito. Sou um cara com uma cabeça muito aberta e gosto muito desse jogo. Não consigo me imaginar fora do CS e nem do esporte eletrônico”, afirma.

CARREIRA

"O que me levou a competir no CS foi ver que em pouco tempo jogando no Global Offensive, mesmo sem levar tão a sério, eu já estava num nível muito bom para o MM", revela biguzera.

Relembrando a época em que começou a competir, o jogador aponta que tudo começou quando "um amigo meu conheceu um cara de Niterói que tinha um time e ele me chamou. Jogamos a Liga Amadora e, no nosso primeiro campeonato, conseguimos subir para a Liga Principal, na qual eu senti que já estava me destacando. Foi quando falei pra mim mesmo que estava na hora de dar um passo a frente e tentar me profissionalizar".

O segundo passo dado na carerira, conta bigu, foi começar a jogar na versão latino-americana da plataforma FACEIT: "Comecei a jogar uns PUGs e aí conheci o f4stzin, o rood e o dumau, e criamos um time junto com o drop. No nosso primeiro campeonato ficamos em segundo na Amadora, ganhamos a Principal e subimos para a Liga Pro".

O convite para integrar a formação que se tornaria a paiN Gaming aconteceu após a participação do NO ORG na BPL. "Lá na Pro ganhamos da W7M, mas acabamos rebaixados. Quando descemos, estávamos num nível bom de CS, e foi quando o DeStiNy trocou a Wild pela INTZ. Aí os caras de lá chegaram em mim e vieram falar comigo depois daquela final da BPL. Logo depois daquele jogo [contra Detona]me mandaram mensagem. Foi muito rápido comigo, porque só em quatro meses me dedicando eu consegui chegar na paiN", relembra.

Com o histórico desempenho diante da Detona voltando ao assunto, pergunto a biguzera se ele acredita que essa partida tenha abrido a porta para a entrada na paiN: “Com certeza, não tem como negar. Esse jogo eu fiquei conhecido não só no cenário brasileiro, como também no mundo. Querendo ou não, naquela época, eu não era ninguém ainda, não tinha feito nada, e depois de um jogo todo mundo ficou sabendo de mim. Passei de uma possível revelação para realidade e fui me provando”.

Biguzera revela que não foi só contra a Detona que realizou o feito de “deitar mais de 40 bonecos”. Ele conta que repetiu a façanha no primeiro treino junto a paiN: “Lembro até hoje do meu primeiro treino. Nele eu matei 40 bonecos. Estava querendo mostrar muito serviço e estava muito focado”. O jogador adiciona, rindo, que depois da partida os companheiros “falaram que eu estava com sorte de principante, que eu estava baitando todo mundo. Mas falar todo mundo fala, brincar todo mundo brinca. Difícil é fazer, é repetir”.

Vestir a camisa da paiN, inclusive, é um sonho que biguzera conseguiu realizar. “Sempre admirei muito a paiN por ser uma organização muito ‘sinistra’. Assisti alguns jogos do clube no League of Legends e sempre falei que era ‘sinistra’. Sempre tive a paiN como uma organização referência no Brasil, uma que eu sempre quis jogar, e quando me falaram que íamos atuar pela paiN, eu não acreditei. Fiquei muito animado para jogar, e aí foi só alegria”.

Mas biguzera não só conseguiu se tornar jogador da organização a qual admirava, como também foi determinante para escrever o nome da paiN no Counter-Strike, modalidade na qual o clube não era tão relevante: “Com certeza escrevemos o nome da paiN no CS neste ano. Quando lembrarem o 2019 do CS brasileiro, todo mundo vai falar que a paiN foi o time que mais ganhou, o que mais apresentou um CS bonito, um CS legal de ser assistido. Todo mundo vai lembrar da gente”.

Biguzera fala ainda sobre a possibilidade de se tornar uma figura importante para a paiN no CS a ponto de ser relacionado da forma como Kami é no League of Legends. “Não tem coisa mais marcante na carreira de um jogador do que ele conseguir fazer história em um time e quando todo mundo falar desse time, lembrar de você. Você ter essa figura ao lado do time, da mesma forma que o Kami tem com a paiN no LoL. A paiN precisa de uma figura no CS. Não que seja eu, que seja o conjunto do time que a gente tá ganhando. Acho isso muito legal”, comenta.

ASCENSÃO METEÓRICA

Se pular do posto de revelação para o de realidade demanda certo tempo para alguns jogadores, no caso de biguzera aconteceu num piscar de olhos. Na primeira temporada competindo profissionalmente com a paiN, o jogador conseguiu seis títulos, ter — mesmo que breve —, experiência internacional e figurar como finalista em importantes prêmios, como o Gamers Club Awards e o Prêmio eSports Brasil.

Fora a indicação feita pelo Draft5 como o segundo melhor jogador atuando no Brasil neste ano.

Perguntado se tudo pelo que passou neste ano superou as próprias expectativas, biguzera responde quase que instantaneamente que sim. “Por mais que a gente tenha nossa autoconfiança, é diferente porque nunca vai ser tão bom quanto foi. Surgi no final de 2018 e a minha primeira organização profissional foi a paiN. Pra mim foi muito rápido e eu não conseguia imaginar que fosse tão longe em um curto período de tempo. Indicações a prêmios, títulos, desempenho individual e experiência internacional. Tem muita coisa envolvida e, com certeza, eu não esperava nada disso”, analisa.

Biguzera lembra com carinho da primeira vez que teve a oportunidade de jogar um torneio fora do País. Isso porque a final mundial da sétima temporada do StarSeries & i-League foi também o primeiro torneio presencial do jogador. Logo na estreia, diante da FaZe Clan, o brasileiro mostrou ao que veio.

“Eu nunca tinha sentado numa LAN para jogar competitivo, e logo no meu primeiro round aconteceu um 1vs3 contra a FaZe e eu ganhei. Ali, parece que toda a pressão que tinha nos meus ombros e nervosismo tinha sumido. Então, hoje sou muito tranquilo jogando em LAN, porque desde minha primeira oportunidade fui muito calmo jogando”, relembra.

Olhando para trás e lembrando tudo pelo que passou, tanto na vida pessoal como na profissional, biguzera aponta ao ESPN Esport Brasil que se enxerga como “um menino que tinha um sonho e que se tornou um homem que já pode falar que conquistou alguma coisa, mas que não estou nem perto do que quero conquistar. Tenho muita sede de vitória e sei que estou no caminho certo. Não consigo ver o meu passado e defini-lo, porém consigo dizer sobre o meu futuro que estou no caminho certo”.

Apesar de já ter alcançado o topo do cenário brasileiro no primeiro ano como profissional, bigu fala que ainda não atingiu o auge. “Ainda não. É minha primeira temporada e ainda tem muita coisa que continuo aprendendo. Continuo olhando e vendo onde errei. Estou sempre evoluindo e gosto de aprender as coisas. Com certeza tenho muito mais coisas para aprender e sou um cara relativamente novo no cenário. Tenho mais lenha para queimar”, afirma.

Não são somente os títulos conquistados junto a paiN que mostram a biguzera que 2019 foi mágico. No último mês da temporada, o jogador foi elogiado publicamente pelo capitão do MIBR, FalleN. Sem contar também com as propostas que recebeu para atuar fora do País, como a recebida pela YeaH Gaming.

"Acho que se fosse há um ano, eu nunca iria acreditar em ver o FalleN falar de mim. Hoje, vejo o cenário brasileiro vindo muito forte e até ele já percebeu isso, que o Brasil está crescendo muito. A palavra para o elogio que recebi dele é gratidão. Fico feliz por ele abrir os olhos aqui para o Brasil. Ver ele falando sobre mim me dá mais motivação e só confirma que estou no caminho certo", afirma.

UM MOTIVO A MAIS PARA SER CAMPEÃO

Na temporada que se inicia, biguzera já tem um motivo extra para continuar fazendo sucesso no Counter-Strike: o nascimento de sua primeira filha em alguns meses.

"Daqui para frente vai ser um pouco mais complicado, porque agora eu não só jogo por mim. Eu não tenho mais que pensar só em mim. As escolhas mudam", afirma biguzera.

O jogador trata de falar que a chegada de Ana Júlia vai servir de motivação extra para continuar jogando: "Você ter uma motivação em casa para jogar, querer olhar aquela pessoa, é sempre bom. Antes eu ganhava por mim e pelo meu irmão. Queria sempre orgulhar ele. Mas agora não. Agora também quero ganhar pela minha filha e pela minha namorada. São mais pessoas para orgulhar".

A notícia de que vai ser pai chegou num momento em que biguzera e os companheiros discutem junto à paiN a possibilidade de sair do Brasil na metade de 2020. O jogador revela que, se a mudança se concretizar, pretende levar a filha e a amada, "porque é muito complicado eu morar lá fora e as duas aqui no Brasil. É um assunto delicado, um negócio que tem que ser muito bem conversado com a organização e eu ainda vou tratar com o clube".

Biguzera falou também sobre a possibilidade de servir de treinador para a própria filha caso ela decida seguir seus passos no Counter-Strike. O jogador fala que não é do tipo de "incentivar a pessoa a fazer o que eu faço, mas se ela optar por seguir o mesmo caminho do meu, vou apoiar muito e ficar feliz. Vou ajudar o máximo e, com certeza, vou fazer esse papel de treinador porque eu gostaria de ter uma pessoa me ajudando no individual, em casa, me mostrando os erros".

MAJOR NO RIO: UM SONHO A ALCANÇAR

Apesar de não ser carioca da gema, já que não nasceu na cidade do Rio de Janeiro, biguzera fala que será um sonho poder disputar um Major de Counter-Strike: Global Offensive no estado natal: "Eu quero mais do que todo mundo [jogar o Major] porque é na minha casa. Eu tenho que fazer isso, tenho que conseguir essa vaga".

Categórico, o jogador afirma ainda que a seletiva para o Major será o campeonato para o qual mais vai se dedicar, "dar a vida", já que jogar um torneio deste tipo "é o sonho de todo jogador de Counter-Strike, principalmente a competição sendo realizada na sua casa". "São duas coisas que eu mais queria: jogar um Major e um Major no Brasil. Juntar os dois em um é tudo o que eu queria". crava.

O integrante da paiN bate na tecla que está preparado não só para o desafio de se classificar para o Major, como também de iniciar a carreira no exterior. "Fizemos história no Brasil e agora está na hora de repetir lá fora. Acredito que a gente vai fazer o que a Furia fez ou até mais. Tenho muita esperança nisso e acredito que temos potencial demais para chegarmos longe".