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CBLoL: 'Pode ser um fim de semana ruim para quem não gosta da Uppercut'

RafaP é tricampeão sulamericano e atua como analista na Uppercut, por quem disputará os playoffs do CBLoL contra o Flamengo Riot Games Brasil

“E aí, como tá o dia pra quem não gosta do seu time?”, pergunto a Erickao, rindo, ao chegar no quartel-general da Uppercut. Faltando pouco menos de duas semanas para a série semifinal, que será disputada contra o Flamengo no sábado (24), o clima na casa era tranquilo. Em meio a alguns jogadores que me cumprimentam, o diretor executivo responde, descontraído: “Tem tudo pra ficar cada vez pior.”

O analista do time, RafaP, me aguarda na sala anexa ao local de treinos dos jogadores, ao lado do head coach Scrappydoo. Ele adere ao sorriso de Erickao, complementando a resposta.

“Se a gente conseguir achar o ponto certo entre consertar algumas coisinhas e atacar alguns pontos do Flamengo, eu acho que dá pra ganhar, sim, a série. Então a tendência é ficar ainda pior pra quem não gosta da gente”, brinca.

Rafael Pinheiro entrou para a IDM Gaming em outubro de 2018, cerca de dois meses antes do time mudar de identidade e tornar-se Uppercut. O analista assinou com o time dias depois de sua última campanha internacional — a fase de entrada do Mundial de 2018, pela Kaos Latin Gamers.

Fluminense de Itaocara, RafaP subiu três vezes ao palco sul-americano como campeão. A primeira foi em 2016, em que o time venceu os favoritos e conquistou a classificação para o International Wildcard Championship. A segunda e a terceira foram em 2018, quando a KLG dominou a região e foi a representante da CLS no Mid Season Invitational e no Mundial.

Em seu currículo, destacam-se experiências como head coach, assistente e analista, além de fluência e vivência em português, inglês e espanhol e participação em quatro torneios internacionais. Em 2019, ele tornaria-se reforço da Uppercut no CBLoL.

PRIMEIRO SPLIT

“O tratamento com relação à org foi algo que me balançou muito”, confessa. “Lógico, eu vim do melhor time da região. Claro que a gente era paparicado. Mas, mesmo assim, em transmissão… pra mim, foi bizarro. Foi um choque”, assume RafaP quanto ao cenário brasileiro.

A Uppercut iniciou a temporada 2019 no CBLoL sem muito crédito por parte da comunidade e dos participantes do torneio, sendo, inclusive, apontada como candidata a rebaixamento em algumas esferas. O julgamento, no entanto, contrariava resultados prévios da equipe — a promoção para o CBLoL no início de 2018 e a participação nas eliminatórias da segunda etapa.

“Se você pegar nosso time em relação a roster… o Fitz tinha feito um 2017 e um primeiro split muito bom. A org tinha subido de patamar em estrutura e mudado de nome. A gente trouxe o Alterna[tive], que tava clicando, Damage tava jogando bem, Lechase também, o Anyyy é o Anyyy, um dos melhores, senão o melhor. E, cara, como assim? Eu pensava: não, cara. Tá errado”, ele pausa.

“Nesse primeiro split, eu me senti mal no Brasil, mesmo”, confessa o analista, com firmeza. “Foi um split em que, eu não sei… eu tenho a minha parcela de ego”, admite o tricampeão sul-americano. “Mas eu senti que tava todo mundo andando pra mim, sabe? Tipo, não, cara.”

Na primeira semana competitiva do ano, a Uppercut venceu seus dois jogos, largando com empate no primeiro lugar da tabela. Na semana seguinte, uma vitória — segundo lugar, onde permaneceu até a sexta semana. Apenas na sétima o time caiu para a quarta posição e, em uma confusão de meio de tabela, finalizou a etapa em quinto.

“A gente começou o split bem, mas aí eu acho que a gente tentou dar um passo maior do que a perna”, analisa. “Tentamos aprender um estilo novo quando era pra a gente jogar com estilo que a gente era bom até classificar, e depois inventar. Acho que todo mundo aprendeu muito, principalmente a staff”, aponta.

“De 11 jogos, acho que a gente ganhou um. Cara, por incrível que pareça, a tabela foi boa com a gente. A gente ficou em 3º e 4º com 11 derrotas”, relembra Rafa, referindo-se às três semanas consecutivas sem vitórias no início de 2019. “Mas essas derrotas no primeiro split serviram muito, porque a gente deixou de tiltar quando perdia. A gente aprendeu a perder”, afirma.

SEGUNDO SPLIT

“O segundo split começou do mesmo jeito”, relembra o analista. “Todo mundo botando a gente pra baixo. Cara, tem uma parada que eu nunca vou esquecer”, Rafa pausa, com um sorriso de deboche no rosto.

Dias antes do início da segunda etapa, parte da imprensa especializada elaborou “power rankings” a fim de palpitar sobre a força das equipes para o torneio. Na época, as análises apontavam possíveis resultados ruins para a Uppercut na etapa — o que irritou Erickao e RafaP.

“A Team One não mudou o time, e era um time que tava ‘vindo com a base consolidada’”, narra, citando uma das opiniões sobre seu time antes do início da etapa. “A gente também não mudou o time, ficamos empatado em quarto, e nossa base não é consolidada”, ele sobe o tom.

“A gente não tinha… qual é a palavra, Erickao”, ele vira-se para o diretor, que acompanha a conversa também aos risos. “Sinergia”, ele completa. “SINERGIA”, RafaP repete. “A gente não tinha sinergia”, debocha.

Alguns dos critérios avaliados foram ‘sinergia’ e ‘comissão técnica’ — pontos difíceis de serem compreendidos por quem não faz parte do cotidiano de uma equipe. “Tinha uma staff que era alguém sozinho. E ficou com a mesma nota que a gente”, zomba Erickao. “Mexeu muito com a gente, isso”, diz Rafa.

“Eu acho que durante o campeonato, a gente ficou mordido, também. A gente ficou em terceiro. E falavam: ‘Se a Uppercut tá em terceiro, isso já diz muito sobre o campeonato.’ O Melao [analista do CBLoL] falou isso. Não, pode botar isso aí”, ele sugere, erguendo o rosto. “Botam a gente pra baixo o tempo inteiro, e não adianta. Vai mexer com o nosso brio”, crava.

“E, cara, tudo se usa”, Rafa finca. “Tudo. Cê acha que a gente não fala assim ‘olha, os caras falam que a gente é ruim. Que vai ser 3 a 0 pro FLA.’ Ah, é? Vamo ver se vai. Vamo ver”, diz.

“Eu lembro da semana contra a paiN”, cita o analista, fitando o teto sem tirar o sorriso do rosto. “Inesquecível. Eu abri o client: paiN. Fui jogar um ARAM e já tava lá. Abri o Twitter: matéria da paiN. Na terça-feira, isso. Quarta e quinta: Djoko falando que a paiN tá voando. E eu pensando: ‘meu Deus, a gente tem que ganhar desses caras’”, relata, com uma risada alta.

“A gente tem que ganhar desses caras de qualquer jeito. E o jogo foi mais ou menos isso: a gente ganhou na raiva. A gente foi fazer o Drake [Dragão], os caras [da paiN] apareceram, a gente foi na raiva pra cima deles e acabou o jogo”, relata.

“Eu acho que é mais isso. Falta o pessoal dar uma respeitada”, sugere.

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

“Acho que a gente bateu muito no CBLoL esse split. Em caster, em como a coisa foi conduzida. Porque doeu muito, né”, expõe Erickão. “No primeiro split, eu não abri a boca. Só que a gente vê o tratamento de outros times, e não é o mesmo peso. Se batessem em todos como batem na gente, tudo bem. Ou como conotam a gente. Porque é muito fácil colocar como se a gente fosse o pior time do CBLoL”, afirma.

A comissão técnica afirma que os discursos referentes à Uppercut são frequentemente irreais. “O pai do Rafa ligou perguntando se ele vai cair”, conta Erickao. Rafa levanta as sobrancelhas ao se lembrar: “É, meu pai me ligou, na quinta-feira. A gente tava em terceiro”, ajeita-se na cadeira.

“Ele falou ‘pô, Rafa, seu irmão botou o programa pra assistir aqui. Meu pai não liga um computador, mas meu irmão tem 14 anos, pluga o HDMI na TV. A primeira pergunta dele foi: ‘pô, tu saiu de um time bom pra caramba lá do Chile pra entrar em um time ruim? Tá lutando pra não cair?’, narra, o sorriso constante.

“E eu ‘não, pai, eu tô em terceiro’”, Rafa descreve, e eu não consigo segurar o riso. “‘Tu não viu a tabela não?’, ‘Não, pô, teu irmão botou num programa aqui e eles tão descendo o sarrafo em vocês.’ Meu pai falou exatamente com essas palavras: descendo o sarrafo. E eu fiquei pensando: ‘não faz sentido’”, ele nega com a cabeça.

Ao longo da conversa, Erickao e Rafa citam alguns discursos que marcaram o time. “Disseram que a Team One era muito melhor que a gente. A gente em terceiro e eles em último”, relembra Erickao. “Já ouvi que ‘a Uppercut tem dois junglers que não formam um’. O Lechase estava top 1 na soloq, o Hy0ga como top 2. Eles não podem falar isso, sabe?”, expressa.

Pela primeira vez em algum tempo, o técnico Scrappydoo se afasta da mesa para entrar na discussão. “Eles não aceitam que um time que trabalhe tão duro esteja nos playoffs”, opina, em inglês. “Eles não entendem que, se você trabalha, você vence. Você não precisa de fama para ganhar. Você precisa ser profissional”, crava.

RIVALIDADE

No próximo sábado (24), a Uppercut enfrentará o Flamengo pela primeira vaga na grande final do CBLoL. O rubro-negro entra na série como favorito absoluto — assim como vinha na final da primeira etapa do Circuito Desafiante 2018, em que os rivais, ainda chamados de Ilha da Macacada, conquistaram a vitória por 3 a 1.

“Menos na fase de grupos, a gente não ganha”, brinca Anyyy, mid laner do time, que integra a conversa ao ponto em que a sala de treinamento recebe mais membros da Uppercut. “A gente entrega muito jogo contra eles”, conta, arrancando risadas. “Eles nunca ganham porque fizeram algo, é sempre a gente fazendo merda”, diz o jogador.

“Vão tirar o mérito dos caras, igual fazem com a gente?”, corta RafaP.

Anyyy prossegue narrando jogos da fase de grupos. “Parece que eles jogam tiltados contra a gente. E a gente trolla em dobro”, brinca.

Sem pensar muito, Erickao nega que exista uma rivalidade agressiva entre os dois times. “Se a gente for ver, são duas organizações que se dão bem”, afirma. “Eu acho que isso ficou muito consolidado no episódio da morte do André, que eles fizeram uma homenagem, e depois no incêndio no Ninho do Urubu, que a gente retribuiu”, cita.

Apesar da rivalidade, a Uppercut é clara sobre existir muito respeito entre os clubes. “E tem uma rivalidade legal de resultados, também”, Erickao cita. “Tiramos o título deles do CD, teve um campeonatinho na CCXP que tiramos eles nas semis, também. Sempre que foi decisão, nós ganhamos, mas em fase de grupos, eles ganharam da gente”, cita, descontraído.

UPPERCUT VS FLAMENGO

A semifinal será uma série melhor de cinco sediada nos estúdios da Riot Games, em São Paulo. RafaP define a eliminatória como “momento em que o campeonato reseta”.

“É importante você ter um controle muito bom em relação à sua cabeça, porque é uma série pesada. Preparação física, também, porque pode ser uma série longa. Pode se arrastar por 7 horas, pode durar duas e meia. Tá muito na minha mão e na do Scrappy, estarmos bem preparados ou não”, asserte.

“Se a gente estiver mal preparado, é 3 a 0 pros caras”, crava. “Se a gente estiver bem preparado, é série dura. Muito dura”, repete. “Eles não sabem o quanto pode ser duro pra eles. Acho que eles ainda tão nessa de que pode ser fácil, e não têm ideia”, profere, sem sorrisos.

“Na última semana, eu não consegui trabalhar e os caras [da Uppercut] carregaram. Eu tô devendo essa pra eles”, manifesta o analista. “Não fiz nada essa semana, na semifinal eu quero carregar. Até agora [terça-feira, 13/08], eu já assisti uns 10 jogos do Flamengo, por baixo. Eu tô confiante que posso ajudar os guris”, diz.

PRA QUEM NÃO GOSTA DO MEU TIME

Reunidos na sala da comissão técnica, a Uppercut comenta, descontraída, as possibilidades de desbancarem os favoritos e alcançarem o título do CBLoL — com base nas opiniões sobre a INTZ, última equipe a passar por esse trajeto.

“Se a gente ganhar, a gente tem o caminho livre pra bullshitar todo mundo”, brinca Fitz. Erickao prossegue: “Vão ter que tirar o meu teclado de mim”. Rafa acrescenta: “Vocês sabem que o primeiro comentário vai ser ‘0-4 certo, devia ser Flamengo ou KaBuM’, né?”. O time asserte, aos risos.

Sobre a frase publicada por Erickao no momento de classificação para os playoffs, o diretor executivo comenta, descontraído. “Pode ser um fim de semana ruim pra quem não gosta da gente, sim”, brinca. “Eu não me importo muito com os caras, apesar de cutucar bastante. Não me afeta, é mais pra ver espumar de raiva”, assume, rindo.

Viro para Rafa. “Mas o Rafa liga, né?”

O analista ergue a postura e não ri.

“Ah, eu ligo. Odeio que falem mal do meu time”, finaliza.