<
>

Para Sherry Jenix, "todos os esports são bem diferentes da comunidade de jogos de luta"

Sherry Jenix, competidora de jogos de luta e criadora do EFight Pass. Reprodução

Um dos grandes destaques do Fight in Rio foi a presença de Sherry Jenix. Representante ativa da comunidade norte-americana de jogos de luta, a jogadora tem sido determinante para a profissionalização da FGC ao redor do planeta. Com o programa sem fins lucrativos EFight Pass, Jenix auxilia jogadores de outros continentes a conseguir o visto necessário para viajar e competir nos EUA.

Ao explicar a gênese da ideia, Sherry cita o encontro com o mexicano ElTigre. “Quando eu tive a ideia, não era exatamente um programa. Foi uma ideia que eu tive após enfrentar ElTigre no Thunderstruck. Ele jogava muito bem, e eu perguntei ‘você é do México, não é tão longe dos EUA, por que não viaja para competir nos nossos torneios?’, e ele me explicou que o visto para os Estados Unidos é bastante caro e difícil de conseguir, e isso me deu a ideia de que talvez eu devesse ajudá-lo a viajar”.

A jogadora também cita o emblemático caso do jogador dominicano Crossover: “Depois surgiu a situação do Crossover, que não pôde jogar a Capcom Cup por ter seu visto rejeitado, e isso me fez pensar que, na verdade, muitos jogadores precisam de ajuda. Porém, eu não tenho como achar todos eles, então eu percebi que seria melhor criar um programa, dando à comunidade uma forma de doar, comigo ajudando os jogadores a conseguir os vistos a partir das doações. Eu formulei a ideia em novembro do ano passado, e fui trabalhando nela até o lançamento em fevereiro, março desse ano”.

O EFIGHT PASS E OS GRANDES JOGADORES AO REDOR DO MUNDO

Quando perguntada sobre os jogadores já auxiliados pelo programa, Sherry explicou que dividiu os jogadores em ondas. “Os jogadores oficialmente apoiados pelo programa são cinco, com um último jogador ainda em processo de conseguir o visto. O trabalho foi dividido em ondas. Na primeira onda foi ElTigre, que foi algo como o ‘teste beta’ do programa, e a segunda onda foi com outros cinco jogadores, diminuindo para quatro após HKDash infelizmente se aposentar. Dos quatro, três já foram aprovados e falta apenas o último jogador, que é da África” conta.

Ela também explica que a ajuda não se limitou aos jogadores contemplados pelo programa, mas também a aconselhamentos diversos. “Eu também falo com outros jogadores, converso com alguns do Paquistão, e quando Arslan (um dos jogadores contemplados) conseguiu a aprovação do visto, isso se tornou viral, e o EFight Pass acabou conseguindo uma atenção maior, com muitas pessoas entrando em contato online em busca de orientação, então eu também já ajudei pessoas por email e Twitter”, diz orgulhosa.

Sherry destaca que a grande importância do programa é mostrar para o mundo que existem grandes jogadores fora do conhecido eixo EUA-Japão. “A coisa mais comum, que toda comunidade tem, é um punhado de jogadores que são realmente muito bons, mas não tão conhecidos”, explica. “Felizmente, neste ano o torneio Game Over, na República Dominicana, se tornou um Evento Premier, e fez mais jogadores famosos irem à República Dominicana para jogar… Eu estava falando com BrianF, e ele estava me dizendo que há tantos bons jogadores lá que ninguém conhece porque eles não podem viajar, e eu notei que isso é algo bem comum em todas as comunidades com as quais já conversei. Aqui no Brasil, tem vários jogadores que são realmente muito bons e a maioria da cena, pelo menos nos Estados Unidos, não conhece”.

Quanto ao processo para se conseguir o visto, ela destaca que ele é similar entre os países, mas há particularidades. “Na verdade, a maior parte do processo é parecido. Você precisa preencher o formulário DS 160 online e enviá-lo, e alguns países têm exigências diferentes. Arslan, no Paquistão, precisou tirar sua própria foto 2x2 para enviar no formulário. No México isso não é necessário, mas na República Dominicana é. Mas, no geral, o processo é bem parecido: preencher o formulário online, fazer o requerimento na embaixada e então pagar a taxa de serviço do visto, para a partir daí agendar a entrevista”.

OS JOGOS DE LUTA E OS ESPORTS

Algo que poucos sabem é que Sherry Jenix já competiu em outra modalidade fora dos jogos de luta. “Sim... Eu jogava League of Legends competitivamente há alguns anos atrás, quando ainda não era tão grande quanto é hoje, entre 2013 e 2014, e inclusive assisti à primeira LCS na época”, conta.

Ela explicita as grandes diferenças entre os jogos de luta e os outros esports, e a forma como seus grandes jogadores se relacionam com a comunidade em si. “Eu acredito que todos os esports são bem diferentes da comunidade de jogos de luta, como por exemplo com relação aos veteranos: qualquer um que já foi bom em jogos de luta pode continuar relevante nesse jogo, diferente de jogos como League of Legends, onde os jogadores são substituídos imediatamente, e não tem como você substituir um jogador de jogos de luta. Sako, Daigo, Tokido, todos esses jogadores são fortes em Street Fighter V, e já se passaram quase duas décadas para eles na FGC, e você ainda tem novos jogadores, como NuckleDu, Punk, Mena, que também são relevantes”, diz.

Para Sherry, inclusive, o fato da interação ser diferente faz com que a própria comunidade possa crescer e evoluir muito mais próxima de suas figuras centrais. “Todo mundo socializa com todo mundo - você pode conhecer o Mena, um campeão da Capcom Cup, e conversar com ele, enquanto em torneios de League of Legends e etc., os jogadores são mantidos afastados dos espectadores, sendo tratados como celebridades. Eu acho que isso remove algo muito importante da comunidade, que é você aprender com os grandes jogadores, enfrentando eles ou apenas conversando com eles”, reflete.

Sobre o lado de mercado dos jogos de luta, a jogadora também aponta que as particularidades do gênero possibilitam estratégias de mercado diferentes e ainda pouco exploradas. “Jogos de luta são o único gênero em que todos os torneios são abertos presencialmente e não online, como em todas as outras comunidades, e por serem abertos isso atrai a atenção de hotéis e até mesmo companhias aéreas. Jebailey, organizador do CEO (Community Effort Orlando), inclusive negociou com a American Airlines para conseguir descontos para os jogadores. Eu acredito que se essas empresas dessem maior atenção aos jogos de luta, seria uma boa oportunidade para elas”, crava.

O APOIO DAS DESENVOLVEDORAS E O CRESCIMENTO MUNDIAL DOS JOGOS DE LUTA

Quando questionada sobre a importância de ter o apoio das desenvolvedoras dos jogos, ela é categórica: “Jogos de luta pertencem a um gênero tão ‘raiz’, que a princípio a gente não recebia nenhuma ajuda, tudo era feito pela própria comunidade. Mas com o crescimento dos esports, atualmente os CEOs das empresas nos notam”.

Ao falar sobre o apoio das empresas e como elas interagem com comunidades fora do eixo EUA-Japão, Sherry reconhece uma evolução recente. “Inicialmente, eu diria que era difícil para eles não focarem apenas nos EUA e Japão porque as comunidades desses países são enormes. Mas agora, com o crescimento de empresas como Capcom, outros países podem aparecer e outras regiões podem ser reconhecidas, como o Game Over se tornando um Evento Premier, e isso é uma mudança total - não é só Japão, não é só EUA”, afirma.

Ela continua: “Sim, eu acredito que foi como todos nós começamos. Antes de ter a Capcom Cup, antes de ter uma liga, só havia os torneios organizados pelos líderes de comunidade. E sim, quando a Capcom Pro Tour surgiu, eles apenas reconheceram Japão e EUA, mas eu acredito que com o trabalho dos organizadores, eventualmente eles serão reconhecidos”.

FIGHT IN RIO — COMO SOLUCIONAR OS PROBLEMAS

A jogadora também falou sobre o Fight in Rio. Ela apontou problemas que percebeu durante o evento, refletindo sobre os possíveis motivos e qual a melhor forma para resolvê-los.

“Em termos de organização eu senti que é bastante frenético, com oito salas diferentes para os torneios e jogos espalhados entre todas as salas, o que é um pouco confuso. As pools começaram com um atraso de duas horas e meia, e havia muito caos e confusão no ambiente, e quando um torneio acontece dessa maneira, é bem difícil que alguém não acabe sendo prejudicado”, aponta.

“Eu falei com um jogador, e ele disse que foi desqualificado no torneio de Tekken por não ter ouvido o nome dele, mesmo estando na sala do torneio. Isso é um problema comum em torneios menores, onde você não tem o apoio necessário para executá-lo, e achar um espaço adequado para o torneio é muito difícil, talvez um dos problemas mais difíceis. Eu acredito que se vocês conseguirem um espaço melhor para os torneios, como hotéis ou arenas de esport, isso vá melhorar”, sugere ela.

Quando perguntada se é possível mesclar os interesses da comunidade de jogos de luta com o de organizações de esport que não vieram da comunidade, ela explicou que um meio termo é possível de ser alcançado. “Eu consigo entender essa situação, porque é onde os EUA estavam há anos atrás. Mas quando você consegue encontrar um líder que consiga representar a comunidade - como Alex Valle em SoCal -, que consiga negociar os termos e fazer as coisas funcionarem da melhor maneira… Porque eu tenho certeza que todos já passamos por esse mesmo problema”, conta.

A jogadora continua trazendo como principal exemplo o caso de Alex Valle e o Wednesday Night Fights: “Tem muitas pessoas que não fazem parte da comunidade de fighting games, e quando queremos rodar torneios no espaço deles, eles querem determinar a forma como o torneio vai rodar. Mas quando você consegue defender seu ponto e alcançar um meio termo, e construir a relação… Eu acredito que foi como WNF começou e chegou onde está agora. Ele não começou bem-sucedido - começou pequeno e foi crescendo, crescendo, crescendo. No início as pessoas não gostavam da Esports Arena (local onde acontece o WNF), mas Valle foi lutando por nós e eventualmente chegamos em um ponto em que está tudo OK. É necessário ter um ou um time de indivíduos bastante dedicados para lutar pelo que a comunidade quer, e eventualmente se chega lá”.