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"É um sonho": Zenith conta como recebeu patrocínio para disputar EVO

Zenith (dir.) durante as finais regionais LATAM da Capcom Pro Tour 2018. Reprodução

Em fevereiro deste ano, publicamos uma matéria sobre Raphael Henrique “Zenith” da Costa Puglielli, um jogador brasileiro de Street Fighter V que estava despontando nos campeonatos regionais e internacionais com sua Menat desde 2018.

Na ocasião, Zenith contou sobre sua paixão por jogos de luta nutrida desde a infância, relatou seus primeiros passos no competitivo de SFV e revelou os planos ambiciosos para este ano: o de fazer seu nome ao competir em um torneio no exterior.

Eis que, meses depois, o sonho de Zenith vai se tornar realidade com a ajuda de ninguém mais, ninguém menos que Justin Wong, uma das lendas do competitivo de jogos de luta e que está patrocinando a viagem de jogadores promissores para a EVO 2019.

O anúncio do patrocínio foi feito na última semana por meio de um vídeo no canal de Justin Wong. Nele, o multicampeão revela que não levará apenas um jogador à EVO, como havia planejado, mas cinco. Dentre eles, três jogadores (incluindo Zenith) foram escolhidos por meio do programa EFight Pass, criado pela também competidora Sherry Nhan para ajudar jogadores de regiões menores a conseguirem um visto para os Estados Unidos.

Em uma nova conversa com Zenith, ele conta que se inscreveu no EFight Pass e foi aprovado após enviar um texto explicando porque deveria ser selecionado e apresentando materiais como entrevistas, resultados de campeonatos, e contando sua história com o jogo.

Segundo ele, Sherry o ajudou a preencher o formulário para o visto e enviou o dinheiro para o pagamento da taxa, mas que inicialmente não havia um patrocínio certo para a EVO. “Fiz a entrevista, tirei o visto, e quando ele saiu, entrei em contato e ela disse: ‘a gente não tem como pagar todos os custos da viagem, mas podemos pagar uma parte e ajudá-lo a promover sua marca. Você pode fazer produtos, camisetas, bonés para venda”, diz o jogador.

O brasileiro já estava planejando o que vender quando, um ou dois dias depois, recebeu uma ligação de Sherry afirmando que “um patrocinador secreto” iria pagar as despesas de passagem e hospedagem para a EVO. Cerca de quatro semanas depois, foi revelado que Justin Wong era o patrocinador secreto. Zenith foi à lua.

“Eu fiquei muito feliz. Ele é uma lenda no jogo, é um dos maiores jogadores do mundo, joga diversos títulos e já foi campeão em quase todos”, aponta Zenith. “Já é incrível ir pra EVO, é um sonho para qualquer pessoa que compete em um jogo de luta, e além disso estou indo patrocinado pelo Justin Wong. [O patrocínio] É importante para todo o nicho, abre precedente”.

Com pouco menos de um mês para a EVO, o brasileiro conta que já está se preparando para a competição e que “a melhor parte da história toda foi a maneira que as pessoas se empolgaram com tudo”. “Primeiro os amigos que estão no meio, depois a galera que eu nem conheço deu um puta suporte no Twitter, desejando o melhor. E quando eu falei com meus amigos sobre preparação, todos se colocaram a disposição”, comenta.

Além do que chama de “sorte” de morar em São Paulo, onde a maioria dos melhores jogadores de SFV vive, Zenith também terá a Fight in Rio no próximo final de semana para ajudar em sua preparação. “Então, acredito que minha preparação está sendo muito boa, e espero poder testar meu nível em Las Vegas antes da EVO, também”, crava.

SHERRY E O EFIGHT PASS

Jogadora e competidora de Street Fighter desde 2009, Sherry já disputou diversos torneios e até participou do reality show Eleague: The Challenger, transmitido em um canal norte-americano, mas considera sua maior conquista no meio o lançamento de sucesso do EFight Pass.

“Eu tive a ideia no final do ano passado e estava preocupada de que não iria dar certo, já que tirar um visto é um processo complicado”, contou ao ESPN Esports Brasil. “No entanto, a maioria dos jogadores teve o visto aprovado, então eu diria que minha maior conquista foi o lançamento de sucesso da iniciativa”.

De acordo com o Sherry, a ideia para o projeto surgiu durante viagens que fez para competir em torneios no México e na República Dominicana. Em sua ida ao México, ela conheceu El Tigre, um exímio jogador de Laura, e perguntou o porquê de nunca tê-lo visto em competições nos EUA. O jogador respondeu que tirar um visto era muito caro e há muito risco envolvido, já que o pedido pode ser negado e o dinheiro não é devolvido.

A história se provou verdade com Crossover, um jogador da República Dominicana que se classificou para representar a América Latina na Capcom Cup de 2018, mas foi obrigado a abrir mão do torneio por ter o visto negado mesmo com uma carta oficial da desenvolvedora. Foi então que o EFight Pass surgiu.

O programa foi lançado em fevereiro deste ano e teve como primeiro escolhido o próprio El Tigre, que conseguiu seu visto e já competiu na DreamHack Dallas e no Combo Breaker com a ajuda de doações do público. Em maio, a iniciativa anunciou que os brasileiros Zenith e HKDash, o africano HSN, a mexicana Anya e o paquistanês Arslan seriam os próximos a receber ajuda para tirar o visto norte-americano. Dentre eles, Zenith e Anya tiveram o visto aprovado e foram escolhidos, ao lado de El Tigre, para ir à EVO patrocinados por Justin Wong. Nesta semana, Arslan também teve seu visto aprovado.

Sherry explica que sua parceria com Justin Wong veio de uma conversa casual. “Por ser um dos meus amigos mais próximos, sempre conversamos sobre projetos futuros. Ele falou sobre os jogadores que queria patrocinar para a EVO e eu dei a ideia de serem os jogadores do EFight Pass”, diz. “Todo o suporte está vindo diretamente do Justin e do EFight Pass. Justin providenciou as passagens, e as doações para o programa cobriram os custos de hospedagem”.

Sobre as expectativas sobre o desempenho dos jogadores escolhidos pelo programa na EVO, Sherry é categórica: “Os jogadores que escolhi para o meu programa são muito habilidosos, então espero que todos vão bem na EVO. Arslan, um dos nossos jogadores do EFight Pass do Paquistão, é um dos favoritos para vencer a EVO [de Tekken]”.

A fundadora também afirma que os próximos passos do programa é continuar alcançando e ajudando jogadores internacionais. “Conforme o tempo for passando, novos jogadores vão chamar a atenção, e farei o meu melhor para que eles consigam um visto para os EUA”, garante. “Por ser um programa de caridade, doações ajudam muito. Todas as doações vão diretamente para um fundo para os vistos ou para gastos de viagens. Mesmo se as pessoas não puderem doar, é possível ajudar ao divulgar a existência do EFight Pass. Quanto maior a atenção, maior o suporte que podemos receber”.

DO MÉXICO: EL TIGRE E TANYA

Primeiro participante do EFight Pass, Sebastian “El Tigre” Aguilera é um jogador de 31 anos do México que ficou famoso por sua Laura. Ao ESPN Esports Brasil, ele conta que é fã de jogos de luta desde criança, quando jogava King of Fighter 94 na loja da esquina de sua casa. “Joguei de KOF 94 à série da Marvel. Eu não tinha um console, então ia na loja todos os dias para gastar minhas moedas”, lembra.

Apesar de ser considerado um dos nomes mais promissores da América Latina e estar em 1º lugar no ranking regional na Capcom Pro Tour, El Tigre diz que não se sente um jogador profissional ainda por não viver de competir. Ele comenta que tem dificuldades de treinar por gastar 1h30 no trajeto entre casa e trabalho, e que só agora, com a ajuda da comunidade e do EFight Pass, conseguiu ir a mais torneios presenciais para adquirir experiência.

“O EFight Pass é um empurrão para o nosso sonho de competir com os melhores do mundo. É um grande passo para a comunidade e para as pessoas que treinam duro no jogo”, descreve o mexicano. “Jogadores da África e da América Latina não têm uma chance fácil de jogar nos EUA, e a iniciativa nos ajuda nesse processo. Apesar de não ser uma garantia de que vamos conseguir o visto, o programa nos ajuda a preencher os documentos da forma certa e a conseguir suporte para viajar.”

Em 2018, o jogador terminou em 3º lugar no Thunderstruck VI, evento no México que recorda com o maior carinho. “O momento mais especial para mim foi no ano passado, no Thunderstruck, quando eu estava jogando contra o Punk e todos estavam torcendo para mim. Foi incrível”, garante.

Desde que conseguiu o visto para os EUA, ele já disputou o Combo Breaker e o DreamHack Dallas, terminando no Top 16 no último. Na América Latina, El Tigre também já disputou o The Fight 2019, que vale ponto no CPT, e terminou na 5ª colocação.

Sobre a EVO, o mexicano se diz realista: “Meu desejo para todo torneio é vencer, mas sendo realista, por agora, estou buscando um Top 32 na EVO. Quero vencer no Thunderstruck VII e no Furia Tica, então espero chegar nas finais em Porto Rico e conseguir uma vaga na Capcom Cup. Eu sei que isso é apenas um sonho para um cara da América Latina, porque não podemos viver de jogar, mas não me arrependo de nada. Eu amo o jogo e a comunidade”.

Além de Zenith e El Tigre, há uma terceira jogadora que irá para a EVO patrocinada por Justin Wong e o EFight Pass: Ana “Anya” Riojas, jogadora de Tekken.

Segundo a mexicana, sua paixão por games começou bem cedo, aos dois anos de idade, com Tekken 2 para o PlayStation. “Continuei a jogar todos os jogos de Tekken durante minha vida, mas foi somente em 2013 que descobri a comunidade existente em meu país e que era possível competir e jogar presencialmente”, lembra. “Meu primeiro torneio foi o Marvelmania 2013 em Acapulco, México”.

A escolha de Anya para o programa não foi por acaso. A jogadora venceu por as duas últimas edições do Thunderstruck (2017 e 2018) em Tekken e é uma das grandes promessas do competitivo. No entanto, a jogadora não se diz um “talento natural”. “Percebi que não sou naturalmente boa em jogos de luta, e me custa muito entender e desempenhar algumas coisas que muitas pessoas acham simples de aprender ou se adaptar”, diz ao ESPN Esports Brasil. “Tekken significa muito para mim, e coloquei muito esforço e tempo da minha vida em aprender o jogo”.

A mexicana cita dois momentos em sua vida como jogadora de Tekken que foram marcantes: “o primeiro torneio que fui em 2013, quando percebi que não sabia jogar direito. Foi muito difícil para mim, mas sem isso eu não teria adquirido a habilidade que eu tenho hoje. E o segundo foi competindo na Mexico Cup em 2017. Esse foi o momento que percebi que minha habilidade já era o suficiente para que eu fosse bem na competição, e que era apenas minha mentalidade que estava bloqueando meu caminho. Graças a isso, fiz alguns ajustes e finalmente consegui vencer o Thunderstruck no mesmo ano”.

Assim como El Tigre, Anya considera o EFight Pass um “programa incrível” para jogadores excepcionais de regiões menores. “É uma causa muito nobre, e acho que é algo incrível, porque sem o EFight Pass e a Sherry, não poderíamos ver esses jogadores excelentes competirem e ‘levar hype’ para alguns dos torneios mais importantes do mundo”, pontua.

Para a EVO, a jogadora espera “avançar das pools e deixar meus amigos, família, meu time (Lady Zaibatsu) e a comunidade do México orgulhosos”. “Estou dando o melhor para terminar em uma colocação maior a cada vez que disputo um torneio e para aperfeiçoar minha habilidade, minha memória muscular e minhas reações dia após dia. Eu realmente quero me tornar uma jogadora profissional! É o meu sonho”, finaliza.

A EVO 2019 acontece de 2 a 4 de agosto em Las Vegas, Estados Unidos. O evento contará com competições de Street Fighter V, Tekken 7, BlazBlue: CTB, Dragon Ball FighterZ, Mortal Kombat 11, Soulcalibur VI, Under Night in-Birth, Samurai Shodown e Super Smash Bros. Ultimate.