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Fight in Rio vive momentos de glória apoiado no esforço e suor da comunidade

Dark foi quem venceu no Street Fighter V Marcos Oliveiras

Poder falar sobre o Fight in Rio é algo que tem um peso especial. Após estar no evento por três anos seguidos - seja como narrador, espectador ou criador de conteúdo -, faltava cobrir o evento de uma maneira apropriada. A verdade é que mesmo sendo um torneio pouco conhecido fora do cenário de jogos de luta, as histórias que o Fight in Rio criou ao longo dos anos tem nuances e detalhes que se refletem nos corredores espelhados da Zion Niterói.

Contar todas as histórias de uma comunidade de muitas particularidades e contrastes seria impossível, mas não é o objetivo: o objetivo é mostrar a riqueza que essa comunidade possui, para que, assim como cada membro fiel da FGC já teve, você também queira descobrir tudo por conta própria.

O caminho até a Zion Niterói, com uma localização fácil e perto do comércio local, já era conhecido. Estando a poucos minutos das barcas e da rodoviária de Niterói, a instituição de ensino de entretenimento é uma das apoiadoras mais importantes do Fight in Rio, dando suporte ao torneio desde 2017 - tanto o major quanto o circuito local, que aconteceu entre 2017 e 2018 e foi documentado no longa independente “Fighters in Rio”.

E é ao passar pelo corredor principal que se percebe o quanto a parceria entre Zion e FiR é acertada: as muitas luzes e action figures que permeiam o espaço contrastam com a miríade de jogadores presentes. Jogadores de Smash, de Tekken, de Street Fighter, de Samurai Shodown e até de 3rd Strike coabitam as salas e espaços, dividindo setups para jogatina casual e para os campeonatos. O mais divertido é poder dizer que "jogadores" inclui pessoas de absolutamente todos os níveis e histórias. Ex-comentarista da NFL? Tinha. Desenvolvedor indie? Tinha. Fotógrafo? Tinha. E tudo isso no mesmo metro quadrado, unidos pela paixão aos fighting games.

UM EVENTO CONSTRUÍDO COM SUOR E POUCOS RECURSOS

Entre altos e baixos, o Fight in Rio é um torneio que historicamente se caracteriza por compensar as dificuldades com suor e trabalho. Com 259 inscrições (aumento de cerca de 40% em relação a 2018, que teve 184 inscrições) e a necessidade de se fazer várias partidas ao mesmo tempo, o principal problema da vez foi o atraso. Uma das limitações do espaço utilizado é a ausência de uma área única para executar os torneios, que ficaram divididos entre as salas da escola. Com isso, pequenos atrasos em cada um dos torneios foram se acumulando e prejudicando os posteriores, levando a um atraso de pelo menos duas horas no torneio de Street Fighter V, que começou no sábado.

Além disso, a falta de apoio de empresas que disponibilizem equipamentos adequados faz com que os próprios organizadores tenham que correr atrás disso, seja usando monitores e consoles emprestados pelos jogadores, seja usando os seus próprios equipamentos, ou ambos. Neste ano, a falta principal foi a de fones, pois havia estações que não contavam com headsets. Vale destacar que, ainda que em jogos de luta o fone nao tenha a mesma importância que em um FPS, a falta de um isolador de áudio e de uma referência para certos gatilhos sonoros prejudica o jogo em alto nível de forma significativa.

Mas o que faltava em fones e espaço, era compensado em trabalho por parte dos organizadores. Líderes de comunidade que cuidavam do andamento dos torneios não paravam por um segundo sequer, correndo de um lado para o outro para garantir a melhor experiência possível. Com poucos segundos disponíveis, um dos organizadores me confidenciou: "dormi apenas duas horas ontem".

Se nessa matéria não há nenhum depoimento da principal figura por trás do torneio, o motivo é exatamente esse. Entre cuidar das chaves, preparar estações e narrar Tekken (!), Shogun permaneceu incansável ao longo do FiR, mostrando que a estrutura pode não ser perfeita, mas basta dedicação para nadar contra a maré e manter a cena viva.

O CONFLITO DE GERAÇÕES

Algo muito comum entre todos os jogos de luta é o choque de gerações que ocorre quando uma série famosa lança uma nova iteração. Entre jogadores consagrados e novas promessas, a grande divisão é entre quem prefere o jogo anterior e quem prefere o novo. Ainda que em alguns jogos isso não ocorra - Smash Bros. Ultimate conseguiu unificar os jogadores de Smash Melee e Smash IV -, as comunidades de Street Fighter e King of Fighters são muito marcadas pelo conflito que um novo jogo provoca.

Em Street Fighter V, isso não foi diferente e persiste até hoje. Jogadores como Ludo e ChuChu, que defenderam Pain e CNB na época de Street Fighter IV, reconhecem esse conflito. Chuchu, que defendeu os Blumers entre 2010 e 2015 e foi o primeiro brasileiro na Capcom Cup, admite um avanço: “Na época da Street IV, tinha muita gente jogando, e com o Street V também tem - só que não foi uma união do IV com o V, meio que saiu uma galera do IV e chegou uma galera do V. Então eu diria que está meio equilibrado, mas com um pouco mais de gente agora e um pouco mais de exposição da cena. Em Street IV, nunca teve transmissão na TV, matéria na ESPN. Street V, em questão de mídia, está mais exposto do que Street IV era.”

Já Ludo, campeão do Revox 2013 e ex-Pain, é mais reticente com relação às mudanças. “Eu sinto que a comunidade tinha tudo para crescer e se manter unida depois de Street Fighter IV, porque o jogo foi lançado despretensiosamente, e a Capcom mirou no que viu e acertou no que não viu - no fim da IV, o jogo já estava sendo visto como um esport. O Street V deveria ter vindo nessa pegada, mas acho que eles acabaram pecando muito por não fazer um jogo que agradasse 100% nem o público casual e nem o público hardcore - ficou meio para um lado, meio para o outro e não agradou nenhum público especificamente... E a comunidade desanima, né? A única coisa que prende a gente é a competitividade e o interesse pelo jogo, e até isso tá faltando agora”.

Sobre a presença de jogadores novos, Ludo também trouxe sua reflexão: “Talvez eles estejam se mantendo no Street Fighter V porque não tiveram o parâmetro que é Street Fighter IV, que é o que a gente teve. Então talvez por só conhecer o cenário atualmente, eles não vejam o quão diferente era a época no IV”.

Mas o Fight in Rio também contou com a presença de jogadores novos, como Arthuro-Ray e Griffon Mask. Arthuro-Ray, segunda colocação nas edições do ano passado do Fight in Rio e do JAM Festival, comentou a resistência que sofria anteriormente e como a comunidade mudou a visão sobre ele: “Foi a partir do campeonato que eu fiquei em segundo, aqui no Rio. A galera mudou totalmente de postura com relação a mim - alguns, né, porque tem muita gente que ainda fala que eu fui carregado pelo meu boneco, então ainda tem bastante resistência. Eu acho que só falta oportunidade para os jogadores daqui irem lá para fora e se provarem. Todo mundo aqui tem o nível muito alto, mas não tem oportunidade de jogar fora”.

Sobre a vontade de seguir como referência e - quem sabe? - ser o melhor do Brasil, Arthuro mantém os pés no chão: “Eu quero, cara, obviamente que eu quero, mas tem muita gente que eu ainda não consigo ganhar com 100% de certeza. Mas vou continuar lutando para isso.”

Griffon Mask é um caso à parte. Em um cenário onde a regra não dita é que o offline é mais importante que o online, ele se firmou como um “online warrior” que alia a alta performance à diversão. Sendo o primeiro jogador da América Latina a alcançar o ranking de Warlord (correspondente a 300.000 Pontos de Liga), ele conta que seu Blanka tem sido visto com mais respeito: “As pessoas hoje elogiam o meu Blanka. Eu faço na medida do possível, o boneco tem limitações como todos, e a gente tenta explorar o boneco da melhor forma possível”.

Em relação a divertir e jogar em alto nível, ele é categórico: “A partir do momento que você vai treinando tanto casual quanto online, offline, todas as coisas contribuem para o seu crescimento. Hoje a gente investe, amadurece no jogo, mas acho que o foco não é só ser bom e melhor, mas nunca perder o bom humor. Porque a partir do momento que você não coloca uma diversão, um humor em uma certa parte, acho que a pessoa acaba se perdendo, perdendo o foco principal. Eu só jogo para me divertir . Me desafiar, superar meus limites e me divertir”.

RIO, SÃO PAULO, E OS CENÁRIOS OFFLINE

Mas não daria para falar da cena carioca sem citar Dark. O jogador, que mora em São João de Meriti e já viajou por toda a América Latina para competir, tem sido a principal referência do cenário de Street Fighter no Rio de Janeiro desde a aposentadoria de Brolynho.

Sobre o evento, Dark foi objetivo: “A estrutura do Fight in Rio cresceu bastante - acho que deu menos pessoas (no Street Fighter) do que deveria, mas talvez no Treta dê a mesma coisa ou um pouco mais. Mas, no geral mesmo, a estrutura está bem melhor”.

“Hoje em dia você tem um lugar bonito, um lugar onde você pode trazer sua família para assistir o campeonato e dá pra ver que jogar não é mais brincadeira. Infelizmente quem não veio está perdendo, ” cravou.

Apesar de saber dos problemas estruturais que impedem um crescimento mais rápido, Dark entende que a falta de apoio é determinante para a cena ainda estar onde está. “Vendo bem, é até covardia... Olhando para o Japão e para os EUA, o Brasil está bem atrás, não só em games, mas em qualquer tipo de estrutura que a gente for analisar. O Brasil eu acho que precisa de um apoio ou algo mais. Vamos dar o exemplo da República Dominicana, que na semana passada fez um campeonato premier (Game Over) e foi um espetáculo, com jogadores de alto nível como Tokido, Mago, e foi lindo. Ali teve alguma ajuda para estruturar, algumas empresas que apoiaram e abraçaram o Game Over, não sei se foi pelo apoio do Mena ou a grana que ele ganhou na Capcom Cup... Eu acho que, no Brasil, se a gente tivesse um apoio, algumas empresas, teria tudo para ficar pelo menos no nível da República Dominicana”.

Dark tem sido o fomentador da comunidade carioca de Street Fighter em 2019 com o Traning Stage Dojo, circuito criado aos moldes do Circuito FIR e que, paralelamente ao Fight Lagos, mantém a comunidade viva.

“Uma das coisas pelas quais eu estou montando isso é porque eu quero treinar. Parece que se eu não fizesse isso, talvez ninguém no RJ iria fazer... E a gente planejou uma coisa legal. Foram nove etapas, e como se trata em etapas com pontos corridos, chega num determinado ponto que você não consegue mais alcançar os primeiros colocados, e como você faz para que os outros jogadores continuem indo? Tem a premiação do primeiro e segundo colocado, e do terceiro ao décimo forma-se um Top 8 em que os jogadores disputam a premiação do terceiro lugar. Então, eu consegui que até a última rodada todos fossem participando e evoluindo. Esse Top 8 vai acontecer depois do Fight in Rio, e creio que todos que estão aí evoluíram por conta do circuito. Vou continuar tocando para que a cena do Rio não pare”, finalizou.

Outro que também tem trabalhado bastante para manter o Street Fighter competitivo em voga é Roma. Conhecido por seu trabalho junto à comunidade de São Paulo, ele ressaltou como o Rio se mantém relevante em termos nacionais. “O nível aqui é muito forte. A galera do Rio tá mandando muito bem, e eu acho que isso é reflexo direto dos circuitos offline que tem acontecido aqui no Rio. Você tem o Training Stage Dojo, o Fight Lagos, e a galera sem dúvida está treinando e está surtindo bastante efeito”, afirma.

Ele continua: “É impressionante como lá em São Paulo a gente consegue ver mais de perto como o nível da galera subiu muito. A experiência offline é muito legal porque você tem o feedback direto de um cara monstro. Você vai jogar numa quarta-feira, você vai ter contato com Chuchu, com Zenith, com Keoma, e o que todo mundo quer ali é que a cena toda cresça”.

Como não poderia deixar de ser, perguntei o que ele achava de um confronto Rio contra São Paulo. Rindo, Roma contou: “Quase pintou, né?! Isso eu acho muito saudável. O próprio Dark foi para São Paulo e a gente zoou demais, mas é muito na brincadeira, e se você perguntar para ele, ele vai confirmar que foi super bem recebido. Sendo feito com respeito - como sempre é feito - eu acho muito legal. Se um dia a gente conseguisse organizar um 5x5 seria fantástico”.

Curiosamente, o 5x5 não rolou, mas o esperado embate entre Rio e São Paulo aconteceu. A principal figura da cena paulista, Zenith, superou os cariocas Pauloweb e Brolynho durante o Top 8 e encarou Dark na grande final. Em uma partida acirradíssima e que foi levada para o último confronto, a tradição se manteve, e pelo quarto ano seguido o título foi de um carioca. Depois do bicampeonato de Brolynho em 2016 e 2017 e o título de Pauloweb em 2018, chegou a vez de Dark levantar o troféu, mostrando que grandes histórias se fazem com grandes jogadores, e não com grandes patrocínios.