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Damiris Dantas: a brasileira que é símbolo de luta e representatividade dentro e fora de quadra na WNBA

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Damiris não esconde alegria e manda recado após grande atuação e classificação do Lynx na WNBA (0:24)

Brasileira brilhou na vitória sobre o Mercury nos playoffs | via @damirisdantas (0:24)

'O ano tem sido histórico.'

Foi assim que Damiris Dantas, brasileira do Minnesota Lynx, resumiu os acontecimentos e protestos que marcaram a WNBA e a NBA nos últimos meses.

A história citada por Damiris está sendo escrita pelas próprias atletas, que se uniram no combate ao racismo, principalmente depois dos casos de Breonna Taylor, George Floyd e Jacob Blake - o estopim das manifestações, quando partidas das duas ligas foram boicotadas por jogadoras e jogadores.

"São muitos atletas de nome, muitas ligas se posicionando. Ainda não estamos colhendo tanto os frutos, mas temos que continuar lutando. Talvez demore um pouco, mas as gerações futuras vão colher esses frutos", seguiu Damiris, em entrevista coletiva nesta terça-feira, dia em que os playoffs da WNBA começam.

No dia 26 de agosto, enquanto o Milwaukee Bucks decidia por boicotar o jogo contra o Orlando Magic pelos playoffs da NBA, as líderes da WNBA faziam o mesmo.

"A conversa começou um dia antes", relembra a brasileira. "A Comissão de Atletas entrou em reunião, e nós estávamos recebendo notícias. Fomos para a quadra prontas para jogar. Chegando, encontramos as jogadoras de Washington, Atlanta e começamos a conversar", seguiu Damiris, que defenderia o Lynx contra o Los Angeles Sparks.

"O que foi falado: a liga está se dedicando à campanha desde o começo, mas as coisas não estão mudando. Precisamos dar um passo maior para as pessoas ouvirem e prestarem atenção. Foi quando surgiu a ideia de todas as jogadoras de não jogar", explicou.

"Não estamos sendo ouvidas e precisamos aproveitar a nossa plataforma para fazer isso."

Nas horas seguintes, os protestos cresceram e, na WNBA, aconteceram dentro de quadra, com depoimentos fortes de algumas das atletas - casos de Ariel Atkins, do Washington Mystics, e Elizabeth Williams, do Atlanta Dream.

"Por que não somos reconhecidas?", questionou Damiris ao ser perguntada sobre o reconhecimento das brasileiras negras que fizeram - e fazem - história na WNBA.

"Será que é é mais um caso de racismo? A Janeth é a melhor jogadora de basquete do Brasil e nunca teve o reconhecimento merecido. Por ser negra? Acho que sim. Ela ganhou tudo que tinha para ganhar aqui e no mundo", seguiu.

"O movimento não pode parar. Temos que nos posicionar e nos unir cada vez mais. No Brasil, precisamos de mais apoio dos clubes e dos patrocinadores. Aqui nós temos respaldo da liga, do time, falta isso no Brasil. Os atletas têm medo do que pode acontece, como o caso do Ângelo", comentou Damiris, se referindo ao ginasta Ângelo Assumpção, que denunciou supostos casos de racismo e perdeu seu emprego no clube Pinheiros.

"Esse é o nosso medo. Temos que dar as mãos, nos posicionar e lutar contra as injustiças que acontecem o tempo inteiro."

"Coloquem jogos de esportes femininos na TV", dizia a camisa que Damiris usou durante a videoconferência. Mais uma das lutas que a brasileira defende.

"É o que precisamos. Iguldade de gênero, queremos ver mulheres na TV. Aconteceu a campanha do 'Levante a Bola' que foi muito legal. Quero ver jogos de mulheres, seja futebol, basquete, handebol, é o que eu quero, que as mídias coloquem as mulheres na TV. É a nossa luta."


Em quadra, Damiris assumiu o papel de pivô do Lynx depois da lesão de Sylvia Fowles, uma das estrelas do time, em 13 de agosto. De lá para cá, a brasileira tem médias de 14.7 pontos e 6.6 rebotes.

"Até tomei um susto quando vi as pessoas falando bastante da Damiris. Isso não acontecia antes. Estou muito ativa na minha luta contra o racismo, tento noção da representatividade que tenho para muita gente. Fico feliz por inspirar e motivar crianças e mulheres, na vida delas em todos os sentidos."

A nova função e o crescimento renderam um novo contrato para a camisa 12.

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Damiris não esconde alegria e manda recado após grande atuação e classificação do Lynx na WNBA

Brasileira brilhou na vitória sobre o Mercury nos playoffs | via @damirisdantas

"Era um dos meus objetivos nessa temporada. Me sinto em casa no Lynx, é onde eu queria ficar. Foi uma surpresa, esperava que acontecesse só depois da temporada. Mas não tive muito o que pensar. Tira um pouco do peso das costas. Agora só me preocupo em jogar e terminar a temporada bem."

Depois de eliminar o Mercury, o Lynx de Damiris vai enfrentar o Seattle Storm nas semifinais da WNBA - com transmissão do jogo 1 nesta terça, às 22h (de Brasília), na ESPN e no ESPN App.

"Escolher adversário não é a minha praia. Não tem jogo fácil na W, ainda mais nos playoffs. Estou ansiosa para saber e prefiro esse novo esquema de mata-mata, mais rápido, sem essa pressão toda" disse Damiris

Na pós-temporada de 2020 da WNBA, as duas primeiras rodadas foram resolvidas em apenas um jogo, e as semifinais e finais são decididas em séries de cinco jogo.

"Estar na bolha é estressante. Ter que jogar, ganhar, ser cobrada e lutar por nossas causas. É estressante, conversamos sobre isso com a Associação (de Atletas) e os times. Temos que nos posicionar, mas também focar em treinar e jogar", completou.

Um ano histórico. Para o basquete, para a WNBA e para a luta contra a injustiça social. E não há dúvidas de que Damiris ajuda a escrever este novo capítulo.