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Filho de pescador, jovem de Roraima troca o futsal pelo dardo e vira promessa nacional

O atleta Jhemeson Lopes da Silva, 17, do lançamento de dardo de Roraima Rafael Valente/ESPN

Jhemeson Lopes da Silva tem 17 anos, cursa o ensino médio e assim como muitos jovens de Caracaraí, cidade de pouco mais de 20 mil habitantes em Roraima, gostava de passar o tempo jogando futsal. Isso quando não passava uma semana inteira em um barco de pesca com o pai. Hoje, ele é atleta do lançamento de dardo da seleção roraimense e muitos o veem com futuro no esporte.

O jovem começou no atletismo após conhecer o professor de Educação Física, Petrônio Guivares, que até hoje mantém o hábito de visitar as escolas municipais para apresentar as modalidades e recrutar jovens.

Jhemeson nem se via como um atleta. Tinha tudo para seguir os passos da família e repetir o que fizeram o avô e até o pai: sair para pescar e depois vender os peixes para sustentar a casa.

“A gente enchia as caixas de gelo. Depois descia o rio e passava quatro, cinco dias ou até uma semana pescando. Retornava, às vezes, com 600 quilos ou mais de peixes. Aí, vendia tudo”, disse.

Muitas famílias por lá fazem o mesmo e aproveitam a riqueza da bacia Amazônica, às margens do Rio Branco, de onde tiram espécies como tambaqui, pirarucu, filhote, entre outras.

Das modalidades que Pretônio Guivares apresentou, Jhemeson, sem qualquer explicação racional, se empolgou com o lançamento de dardo. E, já no primeiro teste, mostrou talento.

“Não sei dizer se é um dom que ele já tem, não sei dizer se é pelo tipo físico ou até se é pela vivência ajudando o pai a pescar pirarucu. Precisa ter muita força para fazer isso. O fato é que ele encontrou a modalidade certa para ele e, arrisco dizer, está entre os três melhores do Brasil nessa categoria”, disse.

Nesta semana, o garoto encarou mais de dez horas de viagem – entre o trajeto até Boa Vista, capital de Roraima, o voo para São Paulo e, por fim, a chegada a Brasília, onde acontecem os Jogos da Juventude. A competição de esportes olímpicos reúne jovens de até 17 anos, representando cada um dos Estados do Brasil, além de uma seleção representando o Distrito Federal.

Para ele, que vinha se destacando em competições regiões e que teve como grande experiência um torneio sub-18 em Aracaju no ano passado, os Jogos da Juventude representam um grande passo.

No primeiro dia de competições, ficou assistindo outras modalidades, planejando e imaginando quando chegasse a sua vez. Avesso a entrevistas por conta da timidez, só topou conversar com a reportagem após um empurrãozinho de Guivares. Em menos de 15 minutos de bate papo, admitiu que, para quem nunca imaginou se tornar atleta profissional, já tem dois sonhos relacionados à carreira.

“Eu quero representar o Brasil numa Olimpíada, e quero mudar a vida da minha mãe e do meu avô”, disse o jovem.

Ele também alimenta outro sonho. Como a irmã também faz parte do projeto “Filhos do rio” e está nos Jogos da Juventude – ela compete nas provas de arremesso de peso e lançamento de disco –, o desejo de Jhemeson é se classificar para os Jogos Olímpicos ao lado dela.

“Seria um sonho incrível”.

A estreia dele na competição será na tarde desta quinta-feira (12), no estádio de atletismo da Universidade Nacional de Brasília (UNB). A expectativa dele? Ele não fala. Mas o técnico sim.

“Esse garoto é muito especial, muito dedicado e ele vai surpreender. Pra mim, é top 3”, disse Guivares.

Jogos da Juventude

Disputado desde 2000, quando nasceu como Jogos Escolares, em Brasília, os Jogos da Juventude são reconhecidamente os divisores de águas para os atletas que pensam em evoluir para o alto rendimento.

Vários campeões mundiais e/olímpicos já participaram da competição, como Rebeca Andrade, Arthur Zanetti, Hugo Calderano, Sarah Menezes, Etiene Medeiros e até Rodrygo, do Real Madrid, que disputou o torneio de futsal.

A edição deste ano bateu o recorde em número de participantes: 4.700 atletas.