Ela é sorridente, otimista e simpática. E foi com o sorriso no rosto que Ashley Eliane Terra cruzou a linha de chegada na prova de 400 metros rasos nos Jogos da Juventude, em Brasília no último sábado. Aos 16 anos, ela tem uma história que poderia muito bem ser adaptada para o cinema ou transformada pela literatura. Natural de Porto Alegre, ela é um dos destaques do atletismo gaúcho nas categorias de base, com medalhas e conquistas consecutivas. Foi descoberta ao se revelar um fenômeno nas pistas no primeiro contato com o esporte e carrega nos ombros a dor pela perda mãe há cinco anos.
“Foi o atletismo que me descobriu. Eu tinha 13 anos, estudava numa escola no bairro Sarandi e participei de um campeonato de atletismo promovido pela Sogipa. Ganhei medalhas em todas as modalidades. Eles me observaram durante a competição e [ao final] me entregaram um papelzinho me convidando para treinar no clube", contou Ashley, à ESPN.
Junto com o convite, veio a promessa de uma bolsa para ajudar nas despesas e na rotina de treinos. Mais, inicialmente, não foi esse o rumo que as coisas tomaram.
“Uma pessoa ficou de nos ligar, mas essa ligação acabou não acontecendo e eu parei de pensar no atletismo. No ano seguinte, teve outro campeonato na Sogipa, e eu ganhei todas as medalhas de novo. Aí o (técnico Haroldo) Arataca me chamou para treinar na Sogipa, me ajudou, e eu aceitei. Era a realização de um sonho”, disse, com lágrimas nos olhos, ao relembrar os detalhes.
“Comecei a treinar e participei de um campeonato sub-16 na Paraíba. Corri a prova de 200 metros rasos e fiquei em segundo lugar. O Arataca confirmou que eu tinha potencial e hoje estou aqui”.
A jovem não sabe explicar de onde vem seu potencial no atletismo, embora carregue, em sua curta trajetória de vida, um passado poliesportivo. Já jogou futebol, handebol, basquete e vôlei.
Ela também carrega um desejo de vencer imensurável.
“O esporte mudou muito minha vida... [chora] Eu perdi minha mãe [Marislane dos Santos Terra]... Eu morava com minha tia, tinha 11 anos, e hoje quero vencer por ela, pela minha família, que tem muito orgulho de mim”, disse.
Sem entrar em detalhes sobre essa perda, a garota valoriza muito quem está ao seu lado. Uma das pessoas que mais elogia é o técnico Haroldo Arataca, que a “adotou” como uma filha. Ele a acolheu, dá conselhos, a escuta e a ajuda a tentar entender os processos – nada fáceis – da vida.
Neste ano, vivenciou uma experiência bastante incomum. O susto foi grande. “Eu corri muitas provas no mesmo dia, na Sogipa. Queria fazer tudo. Corri os 100 metros rasos, os 200 metros rasos... E naquele dia, eu quase morri, quase tive um ataque cardíaco. Passei mal, desmaiei, e eles conseguiram me socorrer. Ficou tudo bem. [Fora o susto?] E aí meu treinador decidiu que eu teria que dar um tempo, e descobrimos os 400 m. Fui muito bem e desde então me dedico aos 400 m”.
Ao relatar sua trajetória de vida, a jovem alternou sorrisos e lágrimas. Ela é sincera, tem sentimentos fortes em relação à própria história e muita gratidão.
“Arataca realmente é como um pai pra mim. Ele é um ótimo treinador. Ele é incrível”.
Ashley também já definiu uma meta: chegar ao alto rendimento para disputar as Olimpíadas. Seu espelho é Almir Júnior, representante do Brasil nos dois últimos Jogos (Tóquio-2020 e Paris-2024) no salto triplo. Ele tem uma medalha de prata no Mundial Indoor de 2018 e também treina pelo Sogipa.
“Os técnicos me dizem que eu devo seguir em frente, que sou boa atleta, que toda conquista é na base do esforço e que lá na frente tem algo muito especial guardado para mim”, finalizou.
Jogos da Juventude
Disputado desde 2000, quando nasceu como Jogos Escolares, em Brasília, os Jogos da Juventude são reconhecidamente os divisores de águas para os atletas que pensam em evoluir para o alto rendimento.
Vários campeões mundiais e/olímpicos já participaram da competição, como Rebeca Andrade, Arthur Zanetti, Hugo Calderano, Sarah Menezes, Etiene Medeiros e até Rodrygo, do Real Madrid, que disputou o torneio de futsal.
A edição deste ano bateu o recorde em número de participantes: 4.700 atletas.
