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Dardos de madeira, barreiras de canos de PVC, discos de pratos: treinador salva jovens da depressão em RR com projeto e criatividade

Petrônio Guivares ao lado dos 11 atletas do projeto social Os Filhos do Rio, em Brasília Pretônio Guivares/Arquivo Pessoal/Divulgação

Os dardos são de madeira. As barreiras, feitas de canos de PVC. Os pesos, paralelepípedos. Os discos são formados por pratos de alumínio recheados com meias cheias de areia. E a pista de atletismo é apenas um espaço de terra vermelha numa área de descanso de motoristas de carretas, em Caracaraí, uma pequena cidade de Roraima. É assim, com empenho e criatividade para driblar a falta de recursos, que o professor Petrônio da Silva Guivares faz milagres no atletismo há três anos.

Ele é o pai, o mentor e o único administrador do projeto Os Filhos do Rio, que há atende os jovens moradores da comunidade ribeirinha. São alunos de 8 anos até a adolescência, embora alguns já adultos continuem próximos de Guivares e praticando alguma modalidade. Atualmente, pelo menos 120 atletas fazem parte do projeto. Na última semana, 11 deles estiveram em Brasília, integrando a delegação de 21 jovens que representaram Roraima nos Jogos da Juventude, torneio olímpico entre os estados do Brasil e o Distrito Federal para jovens de até 17 anos.

Muitos alunos de Guivares jamais tinham saído de Caracaraí. “Quando eles chegaram, eles pediram para pisar na pista de atletismo. Eles só conheciam por foto, e queriam sentir como é uma pista profissional”.

Mais do que competir, esses jovens ganharam um propósito. Filhos de pescadores, em uma região com pouca infraestrutura e quase nenhum recurso financeiro, muitos crescem sem perspectivas.

Entre os problemas mais comuns enfrentados pela comunidade estão as drogas, os abusos, a gravidez precoce e a depressão. Guivares já testemunhou tentativas de suicídio, e conseguiu ajudar.

“Segundo o IBGE, Roraima é um dos estados com mais jovens no Brasil. Mas falta oportunidade para eles. A gente oferece um caminho por meio do esporte. Eles conseguem se desenvolver e enxergar o mundo de outra forma. É uma transformação gigantesca na vida deles”, disse Guivares.

“Temos muitas histórias de jovens que estavam em depressão, que estavam entrando no mundo das drogas ou da prostituição. E, através do projeto, mudaram a rota. Conseguimos fazer com que permanecessem na cidade, estudassem, se tornassem atletas, bons atletas, e hoje estão fazendo faculdade ou cursos de especialização”, continuou o professor.

O educador físico diz que está treinando, atualmente, a segunda geração de filhos do rio, uma vez que muitos dos alunos de hoje são filhos de ex-participantes do projeto.

“Caracaraí é um município grande, mas dividido em comunidades com 30, 40 moradores. Elas são afastadas umas das outras e vivem em função da pesca. A gente atua como olheiro nas escolas, tentando encontrar jovens. Como já somos conhecidos, muitas vezes são eles que nos procuram. Sempre lembro que nossa cidade faz parte da ‘zona vermelha’. Estamos no mapa da violência”.

O treinador carrega no dom de ajudar o próximo a própria história de vida. Natural de Caracaraí e também filho de pescadores, ele teve o primeiro contato com o esporte aos 11 anos.

“Foi para uma edição do JEB’s, os Jogos Escolares, no Maranhão. Eu conheci um mundo novo, vi vários esportes e decidi seguir com isso. Esse virou o meu mundo. Passei a minha infância, a minha adolescência e parte da minha vida adulta como atleta do JEB’s, em campeonatos de atletismo. Hoje eu sou professor especialista, formado em Educação Física, por causa disso”, disse.

A vida dura também o ensinou a não esperar nada de ninguém. Se não tivesse essa consciência não teria dado vida ao projeto Os Filhos do Rio. Até hoje, ele consegue, como se diz popularmente, “tirar leite de pedra”.

“A gente não tem um local para treinar. A gente treina em um estacionamento de carretas, que serve como local de descanso para os motoristas na rota Manais-Boa Vista. E ali também funciona uma autoescola. Tem um terrão ali. Os motoristas já estacionam as carretas na lateral, e eu sinto que é de propósito, para a gente conseguir treinar. Além disso, muitas vezes eles assistem e ajudam os meninos, oferecendo um salgado, um refrigerante, incentivando”, disse Guivares.

“Também falta material profissional para treinar. A gente usa a criatividade e os recursos que tem. Eu tenho um espaço em casa que utilizo como oficina, e os atletas colocam as mãos na massa e me ajudam. Sempre tem um dia que eu digo: ‘Moçada, hoje é dia de construir nosso material’. Aí a gente vai na floresta buscar madeiras que sejam retas ou próximas disso para construir os dardos. Fazemos os pesos com pedaços de paralelepípedos, que conseguimos quebrar ou cortar. E os discos são dois pratos de alumínios com uma meia cheia de areia dentro, para fazer peso, unidos por fita. As barreiras são canos de PVC, que cortamos, colamos e deixamos no formato das barreiras para o treino de salto”, disse.

Além do impacto positivo na vida da garotada, a criatividade tem dado resultados também esportivos. São sete medalhas em competições como Jogos Escolares, Jogos Regionais e Jogos da Juventude.

Ao relatar tudo isso, o professor Petrônio Guivares não consegue contar as lágrimas ao descrever a cena que mais mexe com ele, ao acompanhar a trajetória dos jovens que fazem parte do projeto.

“Nem tanto a prova. Nem tanto o pódio. O que eu gosto de ver, o que me faz parar o que eu estiver fazendo só para olhar, é trajeto do atleta até o pódio... [voz embargada] Aquele percurso mexe comigo. São poucos passos, mas... [chora] Você vê o impacto que causou na vida daquele menino ou daquela menina. Ele indo até o pódio para ser reconhecido por isso... [chora] E eles me procuram com os olhos durante esse percurso. Agradecem com o olhar. É isso que recompensa tudo o que eu faço”.

Petrônio Guivares tem ainda alguns sonhos para realizar. Projeta outros torneios. Imagina um dos seus pupilos representando o Brasil numa Olimpíada. Mas, hoje, o que ele mais quer é a visita do apresentador Luciano Huck, da TV Globo. Por quê?

“Já fizemos diversas campanhas nas redes sociais. Pedimos ajuda para chegar até ele. Eu acredito que, quando ele conhecer Os Filhos do Rio ele vai nos ajudar. Hoje nós não temos equipamentos profissionais nem um espaço oficial de treinos. Mesmo assim, somos a base do atletismo roraimense, no mirim, no infantil e no adulto. Precisamos de alguém que nos ajude com recursos porque, por mais que os atletas sejam pobres financeiramente, eles são ricos de vontade, em superação e na luta diária”.

Jogos da Juventude

Disputado desde 2000, quando nasceu como Jogos Escolares, em Brasília, os Jogos da Juventude são reconhecidamente os divisores de águas para os atletas que pensam em evoluir para o alto rendimento.

Vários campeões mundiais e/olímpicos já participaram da competição, como Rebeca Andrade, Arthur Zanetti, Hugo Calderano, Sarah Menezes, Etiene Medeiros e até Rodrygo, do Real Madrid, que disputou o torneio de futsal.

A edição deste ano bateu o recorde em número de participantes: 4,7 mil atletas.