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O 1º Ronaldinho: a história do fenômeno brasileiro que virou recordista mundial e acabou esquecido

Ronaldinho é um daqueles fenômenos do esporte que nasce de 100 em 100 anos. A frase é do escritor mineiro Nei Medina, um cidadão da Zona da Mata mineira que luta como poucos pela memória do esporte da região. Poderia ser sobre dois craques que o futebol brasileiro produziu, mas é, na verdade, sobre Ronaldo da Costa.

Um corredor negro, dono de feitos que merecem ser reconhecidos muito mais longe do que apenas as cidades de Descoberto, São João Nepomuceno e adjacências... Que saiu de um município de pouco mais de 3 mil habitantes, sofreu com preconceito e falta de oportunidades e, ainda assim, fez história no esporte.

Mas quem realmente lembra hoje de Ronaldinho? Quem sabe que esse “craque” das maratonas saiu de uma olaria, onde amassava barro com os pés para vencer o mundo quebrando recordes do outro lado do Oceano Atlântico?

Quem viu Ronaldinho ganhar dinheiro, comprar uma mansão, carrões e, num piscar de olhos, perder tudo e virar servente de pedreiro em Brasília?

Quem viu Ronaldinho ganhar a primeira corrida da vida descalço no meio de ruas de pedras e estradas de terras com espinhos, que insistiam em perfurar seus pés?

São essas e outras histórias que foram registradas no documentário especial dos canais ESPN, que estreia neste sábado às 22h (horário de Brasília) e já está disponível no Star+.

Os bastidores de uma rápida passagem por Descoberto

Não é de hoje que os canais ESPN seguem os passos da trajetória do maratonista Ronaldo da Costa. Desde 1998, quando ele quebrou o inimaginável recorde mundial em Berlim, com o tempo de 2 horas, 6 minutos e 5 segundos, os repórteres Roberto Salim e Ronaldo Kotscho já desvendavam os segredos de Descoberto, cidade colada a São João Nepomuceno, onde Ronaldinho nasceu, descobriu o atletismo e se criou.

A dupla esteve por lá duas vezes. Na segunda, em 2004, já acompanhavam uma certa decadência, tanto na carreira esportiva, quanto na vida financeira do atleta. Ele já começava a cair no esquecimento pelo mercado do atletismo, patrocinadores e por todos que o acompanhavam enquanto ele rendia com resultados e ganhava dinheiro.

O tempo passou e, em 2013, mais uma vez encontrei, pelo saudoso Histórias do Esporte, Ronaldo já em outra situação. Estava aposentado do alto rendimento, morando em Ceilândia, mas estudando educação física, incentivado pelo medalhista olímpico Joaquim Cruz, que lhe deu duas oportunidades, a de entrar na universidade e de estagiar em seu projeto social de atletismo, hoje extinto, em Brasília.

Ali encontramos Ronaldinho retomando a vida. Feliz com o terceiro casamento, mas recomeçando praticamente a vida financeira do zero, pois tudo que havia conquistado nas maratonas – e olha que não foi pouco – havia perdido para as ex-mulheres e investimentos malsucedidos.

Ronaldinho ressurgia mais uma vez como um herói, pois vencer de novo depois de uma infância tão sacrificante, não era fácil. Se bem que, por outro lado, vencer obstáculos virou fichinha para ele...

Parecia que tudo ia bem, com ele prestes a concluir, aos 40 anos, a tão sonhada universidade, mas não foi exatamente isso que aconteceu. Novos espinhos, como nos tempos em que Ronaldinho corria descalço, apareceram no caminho. Com o fim do projeto do amigo Joaquim Cruz, Ronaldinho se viu mais uma vez em dificuldade, mas não se entregou... Foi trabalhar como servente de pedreiro.

E aí que seu caminho quase se desviou para sempre. Até que um certo dia, mais ou menos há um ano e meio, o presidente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), Wlamir Motta Campos, o encontrou, em Brasília, trabalhando num canteiro de obras. Para variar, ali ninguém sabia que Ronaldinho era um fenômeno do atletismo brasileiro, que chegou a ser ovacionado na Alemanha por seu recorde quebrado em 98.

Para variar também, Ronaldinho, ali com uma camiseta vermelha amarrada na cabeça, para não ser castigado pelo sol, também não fazia questão de falar para ninguém de seus enormes feitos. Agia como mais um, distribuindo simpatia e humildade, marcas que sempre foram peculiares.

Wlamir o convidou para fazer parte do restrito hall de ídolos eternos da entidade, no qual fazem parte apenas medalhistas olímpicos. Para o dirigente, Ronaldinho é tão grande como um vencedor dos Jogos por que seu feito em Berlim jamais foi batido por um outro brasileiro.

Assim, Ronaldo recebe hoje um auxílio de cerca de quatro salários mínimos, como um dos embaixadores da CBAt, ato que não só mudou radicalmente a vida do ex-atleta, como provavelmente o tirou de um caminho sem volta...

O resgate providencial fez Ronaldo retomar a vida como professor de educação física e hoje ele também ministra aulas de hidroginástica no Centro Olímpico Rei Pelé, em Samambaia, também no Distrito Federal.

Num rápido período em férias, Ronaldo foi visitar a família em Descoberto. E, por lá, nos encontramos com ele pela quarta vez. Mais velho, aos 52 anos, mas não menos disposto e brincalhão, Ronaldinho mobilizou amigos da velha e nova guarda para nos receber com uma corrida-treino de 14 quilômetros pelas suas raízes e origens.

São muitos depoimentos emocionantes do maratonista, dos amigos de infância e daqueles que sempre estenderam a mão para que o Ronaldinho se tornasse o maior ídolo, o maior nome do esporte daquela cidade que leva o nome de Descoberto...

Quer saber o motivo? Aí será preciso assistir ao documentário já disponível no Star+ ou neste sábado na ESPN, às 22h...