O circo do automobilismo foi montado e desmontado do dia para a noite em cima da pista de atletismo do estádio Ícaro de Castro Mello, em São Paulo, na última quarta-feira (14), após a Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo descobrir que, devido ao processo de tombamento do complexo esportivo do Ibirapuera, não pode fazer ou liberar qualquer tipo de obra dentro daquela área sem aprovação prévia do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
A descoberta levou a pasta a recuar e cancelar o contrato com a New Drift Participações, empresa que havia alugado o estádio para realizar entre 9 e 10 de março o Ultimate Drift, modalidade automobilística em que a intenção é derrapar com a traseira do veículo para um lado e as rodas dianteiras no sentido contrário da curva geralmente numa pista oval e entre dois competidores.
A ESPN apurou que durante a reunião de quarta, que durou mais de cinco horas na sede da Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo, no centro de São Paulo, a atual secretária da pasta, a coronel Helena Reis, foi informada que está em vigor o tombamento provisório do complexo esportivo Constâncio Vaz Guimarães pelo Iphan e que, portanto, nenhuma alteração ou intervenção nas estruturas feitas ali jamais poderiam ter sido feitas sem a autorização do Iphan.
Assim que ela tomou conhecimento dessa informação ela decidiu pelo cancelamento do contrato da prova de drift. Também estavam no encontro assessores e dirigentes do atletismo, assim como o CEO da Cbat (Confederação Brasileira de Atletismo), Cláudio Castilho, e o presidente da Federação Paulista de Atletismo, Joel Oliveira.
A decisão mudou a rota e causou um desgaste público. Afinal, na semana que antecedeu o carnaval a Secretaria tinha liberado a entrada de máquinas para a destruição da mais emblemática e histórica pista de atletismo do Brasil, retirando o piso de borracha, sem qualquer divulgação na mídia e aviso à comunidade esportiva.
Um vídeo divulgado nas redes sociais da Ultimate Drift (veja abaixo) acabou repercutindo e chamando a atenção, causando pressão de atletas, moradores e imprensa.
A pressão e principalmente a falta de sintonia com o Iphan determinaram o cancelamento do evento. O processo de tombamento ainda está curso, sem prazo para ser finalizado, e ele também significa um marco na história do complexo do Ibirapuera. Ocorreu em um momento chave, quando o então governador de São Paulo, João Doria, planejava privatizar o local, o que acabaria inclusive com o estádio.
A pista de atletismo do Ícaro de Castro Mello é a mais emblemática e histórica da modalidade no Brasil, mas sofria falta de manutenção e cuidados. Antes de ser retirada, ela estava com ondulações, falhas, buracos e pedaços incompletos, o que dificultava até uma simples caminhada. Era um cenário de abandono que vem há anos.
A última reforma foi em maio de 2011. De lá para cá, não recebe uma prova nacional desde o Campeonato Brasileiro sub-16 de 2015, e uma estadual desde o Campeonato Paulista de Masters de 2019. Foram as últimas provas oficiais na pista.
Ele só não foi esquecida pelos apaixonados pelo esporte, como o técnico Nélio Moura, que utilizava uma parte da pista para dar treinos de saltos semanalmente.
Segundo apurou a reportagem, a obra para refazer a pista de atletismo pode ficar entre R$ 7 milhões e R$ 12 milhões, sendo o valor mais alto o mais próximo de garantir uma qualidade compatível com eventos internacionais de atletismo.
Complexo na UTI
A morte da pista de atletismo do Ibirapuera já era uma tragédia anunciada, desde 2009 quando os canais ESPN já alertavam no especial "Atletas do Futuro" sobre o processo de sucateamento das instalações e dos equipamentos do complexo esportivo Constâncio Vaz Guimarães. À época, denunciamos que o governo estadual havia liberado a pista de atletismo, que estava em boas condições de uso, para que uma empresa privada a usasse como estacionamento para carros durante shows do cantor Roberto Carlos no ginásio.
E o descaso com o espaço sagrado para o desenvolvimento da base do esporte, com o extinto Projeto Futuro, de onde saíram atletas como Maurren Maggi, Thiago Camilo, Jadel Gregório, entre outros tantos medalhistas olímpicos, pan-americanos e sul-americanos, continuou com a extinção dos projetos esportivos e com as piscinas, pistas, quadras e tatames para treinamentos para os esportes de alto rendimento.
Mesmo assim, o governo continuou colocando dinheiro em reformas nas piscinas e nas quadras de tênis que acabaram sem utilização, nem para o alto rendimento, muito menos para a recreação da população paulistana local.
A verdade é que nos últimos anos o esporte de São Paulo, assim como nos governos municipais, federal e de outros estados, tem sido usado para alianças políticas entre partidos, sem a indicação de pessoas comprovadamente capacitadas e comprometidas com o desenvolvimento do esporte na base, no alto rendimento e, principalmente, como ferramenta fundamental na transformação e educação de milhares de jovens.
O que dizem os lados?
A reportagem encaminhou questionamentos aos entes responsáveis sobre o acontecimento dos últimos dias e a pista de atletismo.
Em nota, a Secretaria Estadual de Esportes disse:
"A Secretaria de Esportes cancelou o contrato de locação do estádio Ícaro de Castro Mello para o evento automobilístico previsto para 9 de março. A pasta reitera seu compromisso com a reforma do Complexo Esportivo Constâncio Vaz Guimarães e destaca que as tratativas para este fim com o Iphan e demais órgãos estaduais estão em andamento. A revitalização da pista de atletismo é prioridade desse projeto, vez que a modalidade é e continuará sendo protagonista desse equipamento público."
"Após reunião realizada nesta quarta-feira (14), a Secretaria convidou a Confederação Brasileira de Atletismo (Cbat) e a Federação Paulista de Atletismo (FPA) para integrar o grupo de trabalho responsável pelo projeto de reforma do complexo.", diz a Secretaria.
Já a Cbat disse:
"A Cbat recebeu com perplexidade a notícia, veiculada pelas redes sociais, e lamenta profundamente a utilização da pista de atletismo do estádio Ícaro de Castro Mello, o Ibirapuera, localizado no complexo esportivo Constâncio Vaz Guimarães, para a realização de etapa da Ultimate Drift, anunciada para 9 e 10 de março."
"Há o temor pelo comprometimento também da estrutura da pista, além da deterioração da borracha. O piso do estádio não foi projetado e construído para receber provas de automobilismo."
"Não existe prova de automobilismo em pista de atletismo. É inaceitável. Nada contra o Drift ou o automobilismo. Mas provas de automobilismo são realizadas em autódromos", diz a confederação.
Em nota, a New Drift Participações explicou o projeto e a autorização para executar a obra e como isso traria, segundo a empresa, retorno futuro ao Ibirapuera.
"A Ultimate Drift respeita e acredita que todos os esportes são importantes e geram impacto sócio culturais, e não enxerga motivos para que mais de um esporte não possa ser praticado no mesmo local.
"Por suas próprias custas a Ultimate Drift está arcando com a retirada do piso de borracha que se encontrava inapropriado para uso e também com o nivelamento do piso de baixo, sendo que suas obras economizarão recursos do poder público e encurtarão o caminho caso decidam realizar a implantação futura de pista de atletismo profissional."
"Diante disso fomos pegos de surpresa com os posicionamentos contra o evento, uma vez que em nossa visão estávamos ajudando na melhoria do espaço sem condições para receber eventos esportivos, sendo o Drift o primeiro esporte a de fato fazer parte da reforma necessária."
"Dito isto a Ultimate em conjunto com a Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo está buscando uma realocação do evento e mais informações para poder posicionar a todos.", diz a empresa.
Até a publicação deste texto não tivemos resposta da Secretária coronel Helena Reis.
