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Culpa, ostracismo e volta por cima: Servílio relembra luta que venceu há 50 anos, mas que o fez perder a visão direita para sempre

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Servílio de Oliveira relembra vitória que o fez sonhar com o título mundial, mas que representou o fim da própria carreira (9:40)

Na luta contra Tony Moreno, há 50 anos, Servílio recebeu uma cabeçada involuntária no olho direito e acabou perdendo a visão da vista após um diagnóstico de descolamento de retina (9:40)

Há 50 anos, Servílio de Oliveira sofreu o descolamento de retina do olho direito ao vencer a luta mais importante da carreira como profissional e foi obrigado a abandonar os ringues


Foi aos 23 anos que Servílio de Oliveira conheceu o revés mais dolorido no boxe. Não dentro dos ringues. Do lado de fora, foi proibido de prosseguir a carreira ao perder a visão do olho direito.

A história remete há 50 anos, quando ele derrotou o americano Tony Moreno, no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, em 3 de dezembro de 1971, e ficou em condições de desafiar o dono do título mundial dos moscas.

Moreno representava naquele momento o maior desafio para o pugilista paulistano. Quase dois anos mais jovem, ele tinha seis lutas a mais e duas tentativas fracassadas de ser campeão mundial.

“As manchetes diziam que esse cidadão seria o mais difícil adversário que eu iria enfrentar como boxeador profissional, e foi mesmo”, disse Servílio à reportagem.

Foram dez rounds “de cacete”, com “um toma lá, dá cá frenético”, segundo ele. O brasileiro, único pugilista nacional medalhista olímpico até então, venceu por pontos, em decisão unânime dos três juízes: 98x96, 98x95 e 97x96.

“Antonio Carollo, meu técnico, que Deus o tenha, um segundo pai pra mim, me disse: ‘Procure boxear. Não encare. Não vá para frente’. Mas se eu tentasse boxear, Moreno ia me nocautear. Aí resolvi trabalhar na curta e média distância para diminuir o impacto da mão do meu adversário", relembrou Servílio.

“Tive que desobedecer meu treinador. Afinal, quem vai levar os golpes sou eu. Quem sabe da minha vida sou eu. Eu fui pra cima e consegui sair do ringue com o braço erguido”, disse Servílio.

O problema é que a vitória teve um preço alto. No oitavo round, de forma involuntária, Moreno acertou uma cabeçada no olho direito de Servilio. O impacto foi forte.

“Só sei dizer que minha vista ficou muito inchada e ele, Tony Moreno, tinha mais altura do que eu, tinha uma envergadura melhor. Então, procurou trabalhar em cima da minha vista. O uppercut é o golpe mais duro no boxe. É o golpe que mais machuca. E ele me aplicou vários golpes visando a vista, visando a ponta do queixo”, relembrou.

No dia seguinte ao confronto, Moreno chegou a reclamar dos juízes. Alegou que a luta deveria ter sido encerrada no oitavo assalto por causa do supercílio aberto de Servílio. O brasileiro lutou até o último round com o olho direito inchado e totalmente fechado.

“Quando terminou a luta, eu fui cumprimentá-lo e, com a minha humildade, disse: ‘Se der empate, está bom’. Mas já revi essa luta umas 300 vezes, se não foi mais, e sei que venci. Sou um cara que tenho autocrítica. Eu fui bem, e a vitória foi real”, disse.

Nos dias seguintes, Servílio mal pode festejar a vitória ou imaginar o duelo com o japonês Masao Oba, detentor do título mundial naquele momento, porque o problema piorou.

Contrariado, ele teve de consultar os médicos. Foi quando descobriu que a cabeçada de Moreno havia provocado um descolamento de retina no olho direito.

“Quando fui para a cirurgia, eu estava enxergando. Quando disseram que tinha tido descolamento, eu estranhei. Aí fui operado no Instituto Penido Burnier, em Campinas, e a cirurgia foi decente, boa, o médico ficou feliz”, relembrou Servílio.

“Mas depois a vista foi inflamando, inchando mais… Aí disseram que não havia mais possibilidade de fazer outra cirurgia. Disseram que era inoperável. Esse foi o termo. Depois a vista foi baixando, baixando. Ficou só metade, baixando, baixando e fechou de vez”.

A constatação de que havia perdido para sempre a visão do olho direito foi acompanhada de um sentimento de culpa consigo mesmo, algo que carrega até hoje.

“Tive grande parte de culpa por não ter me recuperado. Eu não segui à risca as orientações do médico. Eu acho que tive culpa. Coisas como ficar deitado de um lado só, não fazer certas coisas. Acabei não obedecendo e sofri. E estou tendo que segurar as consequências até hoje”, disse.

Foi em fevereiro de 1972 que ele soube que aos 23 anos, com 15 lutas e 15 vitórias como profissional, além de uma medalha de bronze olímpica como amador, não poderia mais lutar.

“Ao final da luta contra o Tony Moreno, eu já poderia desafiar o campeão do mundo, que era o japonês Masao Oba. Um boxeador alto, experiente e tal. Às vezes, vejo imagens dele... eu tinha grandes possibilidades de conquistar o título mundial. Lamentavelmente não foi possível.”

Exílio, ostracismo e ditadura

Servilio diz que a dor de ter a carreira interrompida foi assimilada com o passar do tempo. Quando bateu o vazio maior, ele já nem estava mais no Brasil.

Ele havia se mudado com a noiva, Vitória, para o Chile, país natal dela. Lá, eles se casaram e tiveram filhos. O brasileiro até arrumou um emprego para se manter.

“Quando você está em atividade e atinge um bom nível, todo mundo te bate nas costas, quer falar com você. Todo mundo quer te cumprimentar. Na hora que você entra no ostracismo, tudo muda. Alguns trocam de calçada para não encontrar com você. É lamentável. Se você não tiver estrutura, você vai pra sarjeta. Eu não fui. Tô firme aqui. Mas me machucou demais”, disse.

Servílio morou por quatro anos no Chile e por lá teria ficado não fosse o golpe militar de 1973, que colocou o general Augusto Pinochet no poder. Foi o início de uma era de repressão e medo.

“Depois do golpe militar, eu perdi meu emprego, que não tinha nada a ver com política. Mas sendo eu estrangeiro e negro.... Tinha muitos negros no Chile, a grande maioria de Cuba. Eu não tinha muita tranquilidade. Onde eu ia, me chamavam para me revistar, ver meus documentos. Isso foi me chateando. Falei pra minha mulher: ‘Vamos embora’. Peguei meus dois meninos e viemos embora de fusquinha para o Brasil, em 1975”, relembrou.

A volta aos ringues e o título mundial

A situação por aqui não andava nada fácil também. O Brasil também vivia o período do regime militar, um período de repressão e medlo, além da crise econômica.

Servílio ficou em Santo André, região metropolitana de São Paulo, e teve dificuldade para arrumar um emprego. Diante da necessidade de sustentar a família, voltou aos ringues.

Dessa vez não foi proibido pelos médicos locais, passando em todos exames e testes.

“Alguns órgãos da imprensa eram contrários a minha volta. Segundo eles, estavam preocupados com a minha outra vista. Mas quem me ajuda a pagar o aluguel? Quem me ajuda a colocar o pão na mesa para meus filhos? Tá todo mundo preocupado, mas como é que faz?”

De 1976 até 1978, Servílio disputou cinco lutas e venceu todas. Conquistou um título brasileiro e ficou em condições de desafiar o campeão sul-americano.

“Quando eu viajei para o Chile, na véspera da luta, os chilenos fizeram um exame e não me autorizaram a lutar com Martín Vargas. Eles já sabiam que seria uma luta dura para ele, optaram por me levar para lá e sabiam do meu problema. Não me autorizaram a lutar. Aí eu parei definitivamente. Isso foi em 1978”, disse Servílio, que estava com 30 anos à época.

O desapontamento foi grande, mas nunca fez o pugilista brasileiro lamentar a vista perdida. Até porque ele conquistou muito mais depois da aposentadoria forçada.

Conseguiu uma boa colocação dentro da Pirelli, virou auxiliar técnico de Carollo e, depois, treinador. Trabalhou inclusive na formação de boxeadores em São Caetano do Sul.

Desde os anos 90 é comentarista, e há 20 anos faz parte do quadro de colaboradores dos canais esportivos da Disney. Em 2014, aos 60 anos, formou-se em direito.

“Inicialmente foi difícil, mas com o passar do tempo você vai se adaptando. A vista boa vai pegando o lugar da vista ruim e você consegue se adaptar e evoluir. Nunca deixei de fazer nada. Estudar, ler, dirigir, aprender e ensinar”, disse.

Todas essas vitórias foram festejadas por ele, mas uma em especial deixou o coração do velho lutador feliz como o garoto de 23 anos. Foi ver o sonho realizado.

“Tive a oportunidade de levar dois brasileiros à disputa de título do mundo. O primeiro foi o José Arimatéia, contra o argentino Marcelo Dominguez, em 1996. Ele perdeu por nocaute técnico. Depois, em 20 de janeiro de 2006, foi a vez de Valdemir Pereira, o Sertão, e ele foi campeão. Eu não tive a honra de me sagrar campeão como lutador, mas tive a honra de fazer um boxeador treinado por mim ser campeão do mundo para o Brasil”, disse.

Hoje aos 73 anos, Servílio de Oliveira é um homem realizado e com outros sonhos para alcançar. Não admite baixar a guarda para nada que apareça pelo próprio caminho.

“A vida é cheia de vitórias e derrotas. Você não pode se abater com as derrotas. Tem de continuar lutando, buscando justiça. Quando eu estive no Chile, ouvi o Salvador Allende [presidente deposto pelo golpe militar] dizer que não basta que sejamos todos iguais a lei. O importante é que a lei seja igual a todos. Essas palavras me inspiram, e é que o espero do nosso Brasil também”.