Que Dunga levantou a Copa do Mundo em 17 de julho de 1994, em Los Angeles, EUA, quase todo mundo sabe. Mas pouquíssimas pessoas tem conhecimento de que, nove dias depois, o capitão do tetra levantou uma outra taça: o Troféu "Bailarina Flor", no 12º Festival de Dança de Joinville.
"Eu me lembro de ter apertado a mão dele, logo que ele subiu ao palco. Ele já veio com a mão estendida, sorrindo, muito simpático, e com um agasalho da seleção. Foi um transtorno para ele chegar até lá, seguranças tiveram que abrir caminho, foi uma loucura", lembra-se bem Léo Saballa, apresentador do Festival naquele ano.
"Ele foi muito aplaudido, teve o nome gritado por todo mundo, causou uma comoção enorme", diz ele."Não tinha selfie na época, então ele tinha que parar para dar autógrafos. Havia cerca de 5 mil pessoas no Ginásio gritando o nome dele".
"A passagem dele foi meio relâmpago", recorda-se Simone Gehrke, da equipe de comunicação do evento na época. "Se não me engano, ele ainda assistiu a algumas apresentações antes de ir embora", completa Saballa.
Não, Dunga não ganhou troféu por sua performance como bailarino. Mas entregar a ele um exemplar da taça concedida aos vencedores do festival foi a maneira que a cidade catarinense encontrou para homenagear a seleção brasileira, na figura do seu capitão.
Se no Rose Bowl coube ao vice-presidente Al Gore entregar a Copa, no Ginásio Deputado Ivan Ferreira, quem agraciou o camisa 8 foi o então prefeito da cidade Wittich Freitag, morto em 1998.
Mas como Dunga foi parar no Festival de Dança de Joinville?
"Se não me engano, ele ia passar pela cidade por algum motivo e decidiram levá-lo ao ginásio. Ou tinha alguém conhecido dele na prefeitura, algo assim", especula o apresentador Saballa.
Rosana Ritta, assessora de imprensa do festival na época, também não se lembra do motivo da presença dele, mas recordou-se, com a ajuda do filho, que tinha dez anos em 1994, de que Dunga foi para uma espécie de camarote, quando entrou no recinto.
"Era do lado contrário ao do palco, e todo mundo virava a cabeça para vê-lo", disse ela.
Além da presença do ex-jogador, a edição de 1994 do festival marcou as homenagens a dois grandes nomes da dança: Tatiana Leskova e Carlos Leite. Também foi o ano de estreia de Carlinhos de Jesus e sua companhia em Joinville.
Por conta da pandemia de COVID-19, a 38ª edição do Festival, prevista para começar em 31 de julho e seguir até 1º de agosto, não será realizada em 2020. O evento de Joinville é o maior do País em seu gênero.
Afiliada da Globo
Na verdade, Dunga esteve na cidade, em 1994 a convite do grupo de comunicaão RBS, afiliada da Rede Globo em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que comemorava seu 15º aniversário e era uma das parceiras do tradicional festival
O jornal A Notícia de 27 de julho de 1994, dia seguinte à participação de Dunga no evento, relatou que a chegada de Dunga, descrito como "simpático e simples", causou frisson na cidade inteira..
"No aeroporto, além das autoridades, centenas de pessoas vibraram mostrando as cores verde e amarelo. Depois, acompanharam o capitão da seleção brasileira até o Ginásio Ivan Rodrigues, formando uma enorme carreata", diz o texto do jornalista Fabrício Corrêa.
O texto segue: "Dunga é amante da arte e disse estar contente em poder visitar Joinville e prestigiar o festival com a alegria do tetra: 'Isto é maravilhoso e sinto-me feliz por proporcionar tal alegria', disse emocionado", descreve a reportagem.
Na ocasião, Dunga também comentou dois pontos importantes. Primeiro, defendeu que o então coordenador-técnico Zagallo fosse alçado ao posto de treinador da seleção com a saída de Carlos Alberto Parreira - como veio a acontecer. Parreira assumiu o Valencia após a Copa.
Mas o capitão também não fugiu de comentar o que ficou conhecido como "Voo da Alegria". Ao pousar no Rio com nada menos que 17 toneladas de compras, alguns jogadores, membros da comissão técnica, convidados e dirigentes, na figura do então presidente da CBF Ricardo Teixeira, se recusaram a desembarcar na cidade se a Polícia Federal revistasse a bagagem da delegação.
"Eles não queriam revistar a bagagem naquela noite, queriam que tudo ficasse lá por três dias, o que não concordamos. Claro que vamos agir de acordo com a lei e pagar tudo que for necessário", publicou a reportagem, dando aspas ao ex-jogador.
(Nota: Posteriormente, porém, não houve revista das bagagens, liberadas sem inspeção).
A reportagem conversou com a organização do festival para tentar obter imagens da partcipação de Dunga no evento. Curiosamente, a despeito do bom acervo online da organização, não há registros fotográficos digitalizados da edição de 1994.
As imagens existem, mas segundo Ely Diniz, presidente do Instituto Festival de Dança de Joinville, apenas no Arquivo Histórico do Município.
Segundo o A Notícia, Dunga partiu de Joinville primeiro para Florianópolis, onde o avião em que viajava foi abastecido, Mais tarde, desembarcou em Porto Alegre como campeão mundial de futebol e vencedor, ainda que sem arriscar um mísero passo de dança, de um troféu Bailarina Flor.
