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Primeira brasileira a disputar Olimpíadas e Paralimpíadas no mesmo ano sonha com ouro e aponta meta até maior que medalha

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Conheça Bruna Alexandre: a primeira pessoa brasileira a participar do jogos olímpicos e paralímpicos no mesmo ciclo (3:44)

Bruna Alexandre participará da disputa por equipes femininas com Giulia Takahashi (3:44)

A participação do Brasil nas Olimpíadas de Paris reúne histórias que vão além das medalhas – e que valem tanto, ou mais, que um cobiçado lugar no pódio. Bruna Alexandre é personagem principal de uma dessas lições que o esporte proporciona.

Aos 29 anos, a catarinense de Criciúma vai disputar pela quarta vez os Jogos Paralímpicos no tênis de mesa. Mas a edição de Paris é mais especial, pois marcará também sua estreia na modalidade também nos Jogos Olímpicos, algo que nenhum atleta brasileiro fez no mesmo ano.

Experiente em Paralimpíadas – que disputa desde Londres 2012, quando tinha 17 anos, e ostenta quatro medalhas ganhas no Rio 2016 e em Tóquio 2020 –, Bruna competirá nas Olimpíadas de Paris por equipes. O Brasil enfrenta a Coreia do Sul, nas oitavas de final do torneio, a partir das 15h (de Brasília) desta segunda-feira (5).

"Acredito que os Jogos Olímpicos vão me ajudar muito na minha preparação para a Paralimpíada", falou a mesatenista, que fez toda a preparação para os dois ciclos e está em Paris com um objetivo firme. "Tenho o sonho de conquistar a medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos. E eu acredito muito que a Olimpíada pode me ajudar cada vez mais: sentir o ginásio, de estar lá focada. Eu nem vou voltar para o Brasil porque não vale a pena”.

História no esporte

O tênis de mesa não foi a primeira opção da atleta que fará história para o Brasil na capital francesa. Na infância, Bruna praticava skate, futsal e ciclismo, sempre na companhia do irmão.

O primeiro contato com a modalidade que a consagrou foi por meio de um projeto da Prefeitura Municipal de Esportes, que buscava jovens talentos. Alexandre Guise, hoje técnico da seleção paralímpica, trabalhava no projeto e foi o responsável por identificar o talento da catarinense.

“Eu pensei: 'olha, acho que vai ser difícil jogar esse negócio aí na mesa, mas vou aceitar esse desafio'. No começo foi muito difícil jogar tênis de mesa, principalmente para jogar com um braço só, sacar com um braço só. Mas o skate me ajudou muito com o equilíbrio do corpo”, contou Bruna, que perdeu o braço com três meses por causa de uma vacina BCG mal aplicada.

“Quando tomei a injeção, o braço ficou preto muito rápido", disse a atleta, sem lembrança do momento, mas da história que ouviu. "Então, eles ligaram para a minha família e disseram que tinha que amputar o braço rapidamente, senão ia espalhar pelo corpo. Foi autorizada a amputação, que nunca me impediu de fazer algo”.

“Sempre consegui fazer tudo sozinha; e meus irmãos, minha irmã, meu pai e minha mãe são todos canhotos. Eu jogo futebol e sou canhota também. Talvez era para ser canhota mesmo (risos)”.

O começo no Olímpico

Depois que Bruna Alexandre começou a treinar com o irmão, ela foi evoluindo no esporte. Dos sete aos 12 anos, enfrentou crianças sem deficiência em competições; depois de ganhar dois estaduais catarinenses, a atleta também passou a jogar na categoria paralímpica.

Já sem a companhia do irmão em torneio oficiais, Bruna entrou na seleção infantil olímpica e depois passou para a juvenil. “Comecei a ganhar de adversárias bem fortes. Entrei no ranking brasileiro e me tornei número cinco. Isso me rendeu a convocação para os Jogos Paralímpicos de Londres 2012”.

A partir deste ponto, uma virada na vida da atleta: com 17 anos, morar em São Paulo sem o suporte da família, mas com o auxílio do Comitê e Confederação Olímpico, e treinar com os atletas de mais alto nível do esporte brasileiro, como a Bruna Takahashi e Hugo Calderano.

A aposta surtiu efeito. Nas Paralimpíadas do Rio, Bruna foi bronze no individual e também por duplas. Cinco anos depois, em Tóquio, alcançou a prata no individual e repetiu o bronze por equipes, quando teve a chance de dar um salto.

A convocação para disputar as Olimpíadas

Desde o último ciclo de Jogos Olímpicos, em 2021, Bruna decidiu que tentaria fazer parte das duas seleções. Líder do ranking brasileiro paralímpico e número 3 do mundo na classe 10 (para andantes), Bruna já havia recebido o convite para disputar os Jogos Pan-Americanos do técnico da seleção olímpica, Jorge Luiz Fanck.

O primeiro resultado saiu nas duplas com Giulia Takahashi, quando o Brasil ficou com a medalha de bronze em Santiago. A subida no ranking foi imediata, ao sair da posição 600 e ir até a 150.

Bruna recebeu a notícia que estaria com ambas as competições do próprio técnico da seleção olímpica. “Quando o técnico mandou mensagem, falou ‘quero falar com você, mas quero ligar por vídeo’; eu falei ‘nossa, é uma bomba, né? Eu acho que eu fiz alguma coisa’", contou a atleta.

“Ele me ligou e disse que gostaria de oficializar a minha ida para os Jogos Olímpicos. No outro dia saiu no site da Confederação. Para falar a verdade, não caiu minha ficha ainda”.

Nas Olimpíadas, Bruna participará da disputa por equipes, que acontece em melhor de cinco jogos: passa de fase o time que alcançar as primeiras três vitórias no confronto.

Nos Jogos Paralímpicos, por sua vez, ela competirá na chave individual, em duplas ao lado da Danielle Rauen e também duplas mistas jogando com Paulo Salmin – equipe que é a atual campeã mundial.

Inspiração para as próximas gerações

Quando perguntada o que diria à Bruna antes da carreira começar, a resposta foi categórica: “Eu falaria para ela não desistir”.

Mais do que a luta por uma medalha, a brasileira declarou o maior objetivo dentro dos Jogos: inspirar outras pessoas. Bruna citou Natalia Partyka, atleta polonesa paralímpica de tênis de mesa, como grande fonte de inspiração. Ela, como Bruna, também fará parte da seleção que jogará as Olimpíadas.

“A medalha é muito importante, mas acho que pensando também na vida, mostrando para as pessoas que a deficiência não é nada, a gente consegue fazer tudo”.

“Se você confia no trabalho, você vai conseguir jogar alegre, se divertir muito. Então vai ser muito prazeroso treinar e principalmente jogar. E depois você vê a sua medalha. Então não desista dos seus sonhos”, finalizou Bruna.