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Há 51 anos, Manga deu camisa histórica como presente de casamento; agora, ela pode ajudá-lo na luta contra o câncer

Ídolo no Brasil e no Uruguai, Manga recebeu de volta o presente que deu nos anos 70 para brasileiro que viajou para se casar e ver o goleiro brilhar em título do Nacional


Haílton Corrêa de Arruda é conhecido como Manga, um dos maiores goleiros da história do futebol brasileiro e mundial. Reynaldo da Silva é seu compatriota, mas anônimo, aposentado da Receita Federal, um senhor que, aos 80 anos, resolveu devolver ao ex-jogador um presente histórico e raro que ganhou em 17 de outubro de 1971, no Estádio Centenário, no Uruguai. E o motivo é um dos mais nobres...

Reynaldo não viajou a Montevidéu para assistir à final que aconteceu naquele dia entre Nacional e Peñarol, mas sim para se casar com a segunda esposa, já que no Brasil não poderia entrar na igreja, como prometeu à época para os sogros.

Reynaldo e parte da família ficaram no Uruguai por 20 dias e, nesse período, ele viu que Manga, um dos mais fantásticos goleiros dos anos dourados do Botafogo, faria a final local pelo Nacional contra o rival Peñarol na capital uruguaia.

Reynaldo recorda perfeitamente do dia do jogo e da promessa que Manga tinha feito, de lhe entregar ao final da partida a camisa rara, azul escura, que usaria. O goleiro só usava uniforme preto pelos times que defendeu, mas, naquele dia, teve que evitar a cor, já que remetia ao rival Peñarol, junto com o amarelo.

Outra recordação de Reynaldo é que, naquela partida, vencida pelo Nacional por 2 a 1, o locutor da rádio local dizia que os torcedores presentes no Centenário deveriam pagar dois ingressos: um para ver aquele time multicampeão jogar e outro só para ver as defesas espetaculares do goleiro Manga. Veio então o apito final e o encontro com o ídolo após a partida, cercado pela cavalaria da polícia local. Junto com a camisa, Reynaldo recebeu também um convite para ir até a casa de Manga para ser recepcionado em um coquetel. “E a humildade dele? Ele nos recebeu na casa dele e ainda nos ofereceu o que havia de bom e melhor. Ele foi com a nossa cara, nos levou para casa e depois para o cassino. Imagina se hoje uma estrela do futebol mundial faria isso? Ele foi tão generoso e atencioso com a gente que eu fiquei até envergonhado”, recordou o dono da camisa rara.

Passaram-se 51 anos daquele mágico encontro e da camisa de Manga de presente. E muita coisa mudou na vida dos dois personagens dessa história. Reynaldo, que já tinha três filhas do primeiro casamento, teve mais uma menina no segundo. Já o goleiro acabou voltando ao Brasil, para ser campeão pelo Internacional e ainda defender Coritiba, Operário (MS), Grêmio e, no Equador, o Barcelona de Guayaquil, onde também foi bicampeão.

Foram, aliás, 42 anos no Equador, onde Manga se apaixonou por Maria Cecília. Foi ali que ele virou preparador de goleiros e seguiu até 2019, quando acabou diagnosticado com um câncer de próstata e viu o mundo ruir.

Sem tratamento adequado no Equador para Manga, Maria Cecília procurou ajuda nas embaixadas do Brasil e do Uruguai, A segunda encaminhou o pedido para um hospital e uma equipe médica que o operou em Montevidéu. Os fanáticos torcedores do Nacional formaram uma corrente solidária hospedando, alimentando e oferecendo remédios ao ídolo.

Praticamente curado, Manga e Cecília voltaram para o Equador, onde viviam com a ajuda do filho Jorge, o mais velho da esposa do ex-goleiro.

Resgatando Manga

Em março de 2020, ao lado do cinegrafista Fabio Lonardi, partimos para Quito, onde, além de contar a história de Manga, iríamos trazê-lo para o Rio de Janeiro para realizar um sonho. A pauta era levar o ex-goleiro e Cecília para assistir a um jogo do Botafogo e depois devolvê-lo para o Equador. Só que tudo mudou radicalmente quando demos de cara com o ex-jogador das mãos grandes e todos os dedos tortos.

Era 9 de março, exatamente dois dias antes de o planeta anunciar a pandemia de coronavírus. A situação era tensa, pois Manga e Cecília passavam por sérias dificuldades financeiras e conviviam com um segredo que ele só contou quando a câmera foi ligada.

“Meu sonho é voltar a viver e ter o final de vida no Brasil. Aqui as coisas estão muito difíceis... Eu não tenho dinheiro e nem médicos para continuar o tratamento, já não tem mais sentido e nem graça a gente viver aqui. Quero voltar a morar no Brasi até o dia final da minha vida”, disse chorando o ex-goleiro, já muito magro por causa da recente cirurgia que retirou sua próstata.

Ator, fã e anjo

O jogo da vida de Manga mudou quando ligamos para o Retiro dos Artistas, pedindo para que o presidente da entidade, Stepan Nercessian, estudasse a possibilidade de acolher, pela primeira vez na história da instituição, um ex-atleta de futebol.

No dia 12 de março, quando o mundo se assombrava com a pandemia, chegou via WhatsApp a mensagem salvadora de Stepan, afirmando que acolheria o casal nesse momento difícil da vida deles.

O golaço não foi anunciado, pois nossa preocupação era sair do Equador, já que, naquela data, Quito já era praticamente uma cidade fantasma, assim como o próprio aeroporto. De lá até o Panamá, onde fizemos escala, a aeronave tinha, de além de nós quatro, outros cinco passageiros no máximo.

No voo para o Brasil, o avião já estava lotado com turistas retornando dos Estados Unidos. Preocupação com a COVID-19 à parte, nossa certeza era de que o sonho de Manga e Cecília seria realizado, como foi.

Manga viajou com a nossa reportagem com apenas 10 dólares no bolso e foi logo abraçado por Stepan e a direção dos canais ESPN, que bancou hospedagem, remédios e alimentação por dois meses, até que a casa no Retiro fosse reformada e mobiliada com a ajuda de uma vaquinha feita por jornalistas e torcedores do Botafogo

Devolvendo o presente

Manga e Cecília vivem no Retiro dos Artistas há dois anos e meio, junto com outros 40 morados. Nesse tempo, outros “anjos da guarda” assumiram a responsabilidade de cuidar do casal, pois o ex-goleiro já está com 85 anos, e a esposa, 77.

A vida podia ser tocada até sem grandes dificuldades financeiras, já que Manga recebe um salário mínimo e não tem gasto nenhum com comida e saúde, já que o Retiro dos Artistas oferece seis refeições por dia, água, luz, médico, enfermeiro, psicólogo, além de um belo plano de saúde, tudo de graça. O ex-goleiro também conseguiu arrecadar dinheiro com a venda de suas camisas retrô junto ao Botafogo.

Tudo ia bem até que o câncer deu as caras novamente. Na mesma região onde Manga havia operado recentemente no Uruguai. Por causa da idade e doença avançadas, o ex-goleiro não passará por tratamentos como quimioterapia ou radio terapia. Será tratado apenas com remédios, de alto custo, para amenizar as fortes dores que sente na lombar e costas.

E é aí que a camisa do começo dessa história, o uniforme da amizade, ou da gratidão, entra em cena. Reynaldo ficou sabendo da situação atual de Manga e, na mesma hora, decidiu tirar da gaveta a relíquia e devolvê-la ao ídolo de tantos anos.

“Na hora pensei, ‘pô, essa camisa tem um valor inestimável, mas, se ele leiloar, acredito que pode render um dinheiro para ajudá-lo nesse momento difícil’. Aí decidi vir para o Rio de Janeiro de carro com o meu genro e entregar a camisa histórica para ele. Além disso, trouxe também uma bola que comprei no Centenário. Não é a bola do jogo, mas é oficial da época. Com o autógrafo dele, acredito que pode render uma renda a mais. Isso que estou fazendo não é nada perto do que ele fez para mim, da alegria que eu senti de ganhar a camisa e encontrá-lo”, contou emocionado Reynaldo.

Anjos existem

Nesses últimos dois anos e meio vivendo no Brasil, Manga e Cecília se depararam com muitos fãs, mas, amigos mesmo, só quatro que literalmente abraçaram o casal.s jovens advogados Rafael Sá Bastos (40) e seu sócio João Paulo Silva da Rocha (26) têm feito ações transformadoras na vida dos dois idosos.

Ambos pagaram todos os custos do casamento, em cartório, de Manga e Cecília, além de cuidar de toda a papelada e burocracia para garantir uma aposentadoria a amada esposa do ex-goleiro da seleção brasileira da Copa de 1966.

Os dois advogados também negociam com os times onde Manga jogou um contrato para que sejam feitas camisas do ex-atleta, para que parte das vendas sejam revertidas para o casal e para o Retiro dos Artistas, que também passa por dificuldade financeiras (saiba mais aqui).

Além dessas ações, Rafael e João também organizam rifas com camisas assinadas por Manga para arrecadar fundos para o tratamento difícil pelo qual passa por causa do câncer.

Outra dupla que vem fazendo a diferença na vida de Manga e Cecília é o casal Kelly Marcella Ramos e Ícaro Moreira da Rosa. Ambos são os responsáveis por levar Manga às consultas e exames médicos. Eles são torcedores do Botafogo, jovens que se apaixonaram por Manga e a esposa e o tratam como parte da família.

No portal “Planeta Botafogo”, Ícaro mobiliza torcedores apaixonados como ele numa corrente solidária e humana para amenizar a dor do ídolo alvinegro.

“A gente está aqui por amor a um ídolo. Aliás, peço pra quem está lendo essa reportagem, e que tenha alguma peça rara, camisa, calção, enfim, alguma lembrança do goleiro Manga que nos procure, pois se outras pessoas fizerem como o senhor Reynaldo, a gente consegue fazer outras ações para ajudar o Manga e a Cecília”, finalizou o advogado Rafael Bastos.

Peça rara no museu

A negociação para a venda da camisa histórica de Manga já têm dois interessados. Rafael, hoje representante do ex-goleiro, recebeu a oferta de um colecionador particular do Uruguai, de 2 mil dólares (pouco mais de R$ 10 mil na cotação atual), mas o pedido inicial é de US$ 3 mil (quase R$ 16 mil) pela camisa rara vestido no título do Nacional em 1971.

O museu oficial do clube uruguaio também está no páreo e estuda a possibilidade de adquiria a “camisa da amizade”.

Que a peça rara ajude a dar sobrevida ao goleiro espetacular que nunca usou luvas.