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Jogadores da extinta equipe de vôlei do Corinthians repudiam publicamente o atraso de salários, e clube se exime

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Ex-jogador do extinto Corinthians-Guarulhos, Sidão relembra redução de salários por falta de patrocinadores (2:31)

Atleta demonstrou também incômodo com inscrição de Montes Claros na Superliga de vôlei (2:31)

Dois anos, um sexto e um nono lugares e muitos salários atrasados. Este é o saldo final do já extinto Corinthians-Guarulhos, time de vôlei masculino profissional que vestiu as cores e o escudo do Alvinegro nas Superligas 2017-18 e 2018-19.

Na segunda-feira, 12 de agosto, alguns jogadores que integraram a parceria publicaram um manifesto com quatro alvos: o Corinthians, que licenciou sua marca à equipe, foi o primeiro.

O segundo foi o AIG (Associação Social Esportiva Índios Guaru), que comandou a parte esportiva do consórcio. O clube era administrado pelo gestor Anderson Marsili, que é quem fazia a ponte entre os atletas, o Corinthians, a prefeitura de Guarulhos e os patrocinadores da equipe.

A Associação Montes Claros, dona da vaga pelo qual o Corinthians-Guarulhos disputou a Superliga 2018-19, foi o terceiro alvo. E o quarto foi a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei).

(Vale o registro: no torneio de 2017-18, o clube jogou com a vaga do São Bernardo).

De acordo com o manifesto, que pode ser lido no perfil de Instagram do meio de rede Sidão, casado com a ex-levantadora da seleção Dani Lins, os atletas da equipe disputaram a última edição da Superliga sem receber alguns de seus salários e outros vencimentos.

A revolta, e o consequente manifesto, se deu por conta da permissão, por parte da CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), da inscrição do Montes Claros para a disputa da próxima edição do torneio.

Segundo Sidão, a permissão da inscrição fere a regra de ouro do Fair Play, prevista no regulamento da competição.

Também por meio de seu perfil no Instagram, o líbero Serginho, bicampeão olímpico e mundial pela seleção e idealizador do time de vôlei do Corinthians, confirmou as dívidas do consórcio com os jogadores. E declarou ainda que ajudou pagando aluguéis e salários. Mas isentou o Corinthians, a quem fez agradecimento.

30% A MENOS

A questão é que os salários atrasados são apenas parte do problema, segundos os jogadores Riad e Sidão disseram ao ESPN.com.br.

"No primeiro dia da parceria, na apresentação do time, o Anderson nos informou que teríamos uma redução de 30% do salário combinado", contou Riad.

"Já era julho, todas as equipes estavam formadas, onde é que iríamos jogar àquela altura? Não tivemos para onde correr", completa Sidão.

Os dois jogadores relatam que Anderson, o diretor, e Serginho explicaram a situação, dando conta de que um dos patrocinadores havia tido um problema.

"Ele (Anderson) nos garantiu que, depois, todos seriam ressarcidos", afirma Riad. "A redução era para manter a parceria até o fim do ano, mas que eles teriam recursos depois", completa Sidão.

Os jogadores então se entreolharam e decidiram seguir juntos, uns pelos outros. A partir de novembro, porém, os salários pararam de ser honrados.

"Ele nos disse que, em 20 de janeiro, pagaria novembro e dezembro conjuntamente", conta Riad. Em janeiro, porém, ele nos disse que uma briga política entre o principal patrocinador e a prefeitura de Guarulhos impediria o acerto", completa.

Os salários de janeiro e fevereiro acabaram sendo pagos, após um tempo. Mas, dali para frente, já não houve pagamentos.

Segundo Sidão, nem mesmo os advogados escalados pelos jogadores para defender os interesses dos atletas conseguem respostas precisas.

"O advogado fala um mês com os nossos advogados e some por outro", diz Sidão.

"Somado os 30% que foram cortados dos salários logo no começo da parceria, mais os atrasos, eu recebi apenas 40% do que me era devido", afirma Riad.

OUTROS LADOS

O ESPN.com.br fez contato com as partes envolvidas na questão.

Por meio de nota, o Corinthians informou que jamais foi responsável pela parte financeira da parceria. Segundo o clube, houve apenas um licenciamento da marca, e que tal arranjo era de conhecimento de todos os envolvidos, inclusive os patrocinadores.

O comunicado diz ainda que o Corinthians, por "liberalidade e compromisso social com o esporte", chegou a contribuir financeiramente em momentos de crise, mas que todo e qualquer vínculo se encerrou em 6 de maio último, "devido à falta de capacidade de investimento prevista em contrato e não demonstrada pelo parceiro na prática".

Já a AIG, também por meio de nota, reconhece só ter pagado os salários dos jogadores e comissão técnica até fevereiro deste ano, tendo assim ficado devendo março, abril e maio.

O clube de Guarulho explica, porém, o Corinthians solicitou o “distrato” do contrato em abril deste ano, um ano e dois meses antes do fim previsto da parceria.

"O motivo alegado foi a intenção de seguir com uma equipe própria do clube. Isso fez com que interrompêssemos todo o processo de captação de patrocinadores, pois não tínhamos mais o “produto” Corinthians-Guarulhos", diz o documento.

Em 3 de Julho de 2019, o AIG afirma ter assinado confissão de dívida para selar os últimos pagamentos pendentes. Dos 16 atletas, três estavam com os vencimentos quitados: Serginho (líbero), Anderson (central), Vitão (central) e Cesinha (levantador). Além desses, assinaram o acordo: Matheus, Luan e o preparador físico Hermison (preparador físico).

"No dia 10 de Julho, o procurador Rogério Teruo, da Hansports, representante de seis jogadores (Sidão, Riad, Rivaldo, Fábio, Gabriel e Yago) respondeu o acordo questionando o valor de um dos atletas, e apresentando uma contraproposta de condições do acordo. Nosso advogado continuou em tratativas de consenso. No mesmo dia 3 de Julho, foram enviadas propostas para todos os jogadores e integrantes da comissão técnica, e por isso nos causou tamanha surpresa a nota dos atletas", afirma o AIG.

Já a CBV, em nota, afirma que, "quando existe alguma disputa na justiça, ainda tramitando, a entidade deve acatar a inscrição da equipe até a resolução do processo em curso". Este é o caso da equipe de Montes Claros.