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'Tive que esconder minha orientação sexual para conquistar espaços': a luta contra a homofobia no vôlei

Michael Santos, Douglas Souza e Tiffany já foram alvos de ataques contra comunidade LGBTQIA+ no vôlei Arte ESPN

Foram das areias do Recife e através das redes sociais que dois casos chamaram a atenção no cenário do voleibol brasileiro. Em fevereiro, a página oficial do perfil do Sesc-Flamengo curtiu um comentário transfóbico que atacava a ponteira do Osasco, Tiffany Abreu. Logo no mês seguinte, Anderson Melo disputava uma etapa do Circuito Brasileiro de vôlei de praia quando começou a ser ofendido com gritos de "bicha" e de que "usa calcinha".

"Eu demorei a perceber que estava sofrendo homofobia. Eu estava focado jogo, em vencer aquela partida. Sim, eu escutei os gritos no início, mas tentei focar no jogo, mas as ofensas começaram a crescer", disse o jogador, de 32 anos, à ESPN.

Os dois casos trouxeram aos holofotes o preconceito dentro do vôlei nacional e a forma como a saúde mental de atletas da comunidade LGBTQIA+ vem sendo atacada nos últimos anos no esporte de alto rendimento no país.

"Até hoje eu não consegui voltar (a jogar como antes). Eu não consegui voltar a treinar e estar solto dentro de quadra como antigamente", completou o atleta de vôlei de praia.

Casos de homofobia dentro das quadras brasileiras não são novidade apenas em 2024. Em 2011, o central Michael dos Santos virou símbolo de resistência na comunidade LGBTQIA+ ao sofrer um ataque homofóbico de grande parte do ginásio em uma partida contra o SADA Cruzeiro, pela semifinal da Superliga masculina.

"Eu já tinha passado por algumas situações esporádicas dentro de quadra, mas nada perto da dimensão que foi a partida contra o Cruzeiro. Dentro de quadra, eu não estava entendendo até que cheguei ao banco e me perguntaram se eu estava bem e se estava ouvindo o que estava sendo gritado", disse Michael à reportagem.

O caso mobilizou toda a comunidade do vôlei. Campanhas foram criadas pela equipe do central na época, o Vôlei Futuro, e o apoio nas redes sociais e nas ruas foi algo tão grande que nem mesmo Michael imaginava. "Eu achei que era a oportunidade de virar uma voz e mostrar o que estava acontecendo. Eu não saí do ginásio por conta de tantas entrevistas. Foi nesse momento que eu percebi a dimensão do que tinha acontecido. No início, eu fiquei com muito medo, mas também estava muito satisfeito. Muito livre", contou Michael.

O episódio de Michael virou um marco dentro do esporte. A Superliga passou a investir pesado em campanhas contra a discriminação e, em 2022, os clubes aprovaram que o torneio contaria com uma regra de perda de pontos para equipes envolvidas em atos homofóbicos ou racistas. Uma mudança, contudo, que ainda não refletiu como o esperado.

"Ainda há muitos comentários homofóbicos, machistas, transfóbicos, que vêm de dentro da comunidade do vôlei masculino, mesmo com alguma representatividade dentro de quadra. Eu sinto que as pessoas têm receio de falar algumas coisas, isso pode ser positivo, mas precisamos nos posicionar mais sobre isso", disse Douglas Pureza, líbero do SESI Bauru.

Campeão da última edição da Superliga e eleito o melhor líbero da competição, Douglas Pureza é uma das poucas vozes LGBTQIA+ dentro das quadras. Enquanto a modalidade no feminino possui mais símbolos da luta da comunidade, a dificuldade de atletas no masculino de conquistar espaço é mais dura desde a formação até o profissional.

"Eu tive que esconder a minha orientação sexual, da melhor maneira, para conquistar alguns espaços. Isso me machucava muito e traz algumas cicatrizes agora para a vida adulta", completou Douglas.

"Eu tinha a necessidade e a obrigação de sempre estar acima para nunca receber um 'não'. Eu precisava estar sempre melhor que o meu oponente para não ficar para trás. Isso foi a minha carreira inteira", disse Michael dos Santos.

Na seleção brasileira masculina, atletas LGBTQIA+ não ocupam espaços de protagonismo. Um nome importante, o ponteiro Douglas Souza, medalha de ouro com o Brasil nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, decidiu se aposentar da equipe nacional, em 2021, alegando prioridade com a saúde mental. Atualmente, apenas dois atletas da comunidade representam o país nas principais competições do mundo: o ponteiro Adriano e o líbero Maique, que não são nomes certos para Paris 2024.

"Eu espero que haja uma renovação e que mais atletas da comunidade LGBTQIA+ possam chegar à seleção, que eles possam ser escolhidos pelo que estão mostrando dentro de quadra", finalizou Douglas Pureza.