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Por que jogador que encantou Mandela e foi interpretado por Matt Damon hoje fica triste ao lembrar conquista de Copa do Mundo

François Pienaar cumprimenta Nelson Mandela após título da África do Sul Ross Kinnaird - PA Images via Getty Images

Neste domingo (10), a África do Sul inicia sua defesa de título na Copa do Mundo de rugby contra a Escócia, às 12h45 (de Brasília), com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.

No Mundial da França, os Springboks tentam se tornar a primeira seleção a ser Tetra no torneio, superando a também tricampeã Nova Zelândia.

O 1º título dos sul-africanos aconteceu em 1995 e foi histórico por diversos motivos.

Quando a Copa do Mundo de rugby começou a ser disputada, o país foi proibido de participar das duas primeiras edições (1987 e 1991) por causa do Apartheid, a política de segregação racial que foi regra vigente na nação entre 1948 e 1994.

Após o fim do Apartheid e a vitória de Nelson Mandela na 1ª eleição democrática da história do país, o 1º presidente negro da história da África do Sul fez uma promessa: criaria uma "nação arco-íris", onde todos vivessem em harmonia, independentemente da cor, religião, língua ou origem.

Com a nação africana tendo sido escolhida como sede do Mundial de rugby de 1995, Mandela viu no torneio uma chance de unir o país em torno dos Springboks, equipe que sempre foi formada majoritariamente por atletas brancos e era visto como um dos grandes símbolos da segregação racial.

Para dar o "empurrão" de confiança que faltava à seleção sul-africana, o presidente se aproximou e fez amizade com o flanker François Pienaar, capitão da equipe, inclusive recebendo o jogador na sede do Governo para falar sobre a importância da conquista da Copa do Mundo.

A estratégia deu certo, e a África do Sul, quebrando todas as bancas de apostas possíveis, superou os adversários um a um até bater a "favoritaça" Nova Zelândia do astro Jonah Lomu na final, em um jogo que ecoa pela eternidade.

A história foi retratada e no livro "Playing the enemy: Nelson Mandela and the game that made a nation", do jornalista inglês John Carlin, e depois se tornou filme.

Em 2009, foi lançado "Invictus", dirigido por Clint Eastwood, que contou com Morgan Freeman como Mandela e Matt Damon como Pienaar. Ambos foram indicados ao Oscar por seus papéis.

A tristeza de Pienaar

Aposentado do rugby desde 2000, quando pendurou as chuteiras pelo Saracens, da Inglaterra, Pienaar ainda leva a conquista da Copa do Mundo de 1995 como maior orgulho de sua vida.

No entanto, ele hoje diz que fica triste quando se lembra da primeira grande conquista coletiva do esporte sul-africano.

De acordo com o ex-atleta, o Mundial de 1995 tinha o poder de transformar e mudar totalmente a história da África do Sul, que atualmente ainda convive com vários problemas do passado.

Atualmente, a nação possui uma das maiores taxas de desemprego do mundo (42%) e sobre com índices altíssimos de pobreza e criminalidade.

Além disso, o país vive momento gravíssimo de crise em seus serviços essenciais, com constantes faltas de abastacimento de água e eletricidade, além de inúmeros problemas nas ferrovias e no transporte metropolitano e intermunicipal.

Por fim, a corrupção segue sendo endêmica na África do Sul. No momento, o ex-presidente Jacob Zuma, que ficou no poder entre 2009 e 2018, está sendo investigado por uma CPI, com o político e vários de seus principais aliados sendo acusados de crimes como desvio de verbas públicas, lavagem de dinheiro, participação em esquemas de propinas e superfaturamento de obras públicas, entre outros delitos.

"Eu estou desapontado com a situação da África do Sul no momento. A esperança que a gente tinha (de evolução no país depois da Copa de 1995) nunca chegou para a maioria das pessoas", lamentou Pienaar, em recente entrevista à BBC.

"No momento, os mais pobres e vulneráveis de todo o país estão sofrendo. Eles estão recebendo oportunidade de conseguir emprego? Não, não estão. Os índices de desemprenho na África do Sul são assustadores", seguiu.

"Além disso, temos que lidar diariamente com apagões (de energia elétrica), e a CPI a cada dia descobre os casos mais inacreditáveis de corrupção. São coisas que não dá nem para imaginar", ressaltou.

"Infelizmente, vai levar muito tempo para tentar solucionar todos esses problemas", complementou o ex-capitão dos Springboks.

Uma vitória da seleção sul-africana na Copa do Mundo de rugby, neste domingo, pode ajudar a levar algum alívio ao país.

"Em 1995, a gente calculava que de 4 a 5 milhões de pessoas gostavam de rugby na África do Sul. Hoje, 60 milhões de pessoas amam esse esporte", finalizou.

Onde assistir a África do Sul x Escócia, pela Copa do Mundo de rugby?

África do Sul x Escócia, neste domingo (10), às 12h45 (de Brasília), pela Copa do Mundo de rugby, tem transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.