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Mês do Orgulho LGBTQIAP+: Izzy Cerullo, do rugby, à ESPN: 'É importante romper o silêncio porque ele só protege quem está dentro das normas'

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Mês do Orgulho LGBTQIA+ - Izzy Cerullo, do rugby, detalha como revelou aos pais que é lésbica: 'Tive que encontrar coragem para me expor ao mundo' (1:25)

Jogadora, pedida em casamento na Olimpíada do Rio, em 2016, deu entrevista exclusiva à ESPN Brasil; SportsCenter terá série especial nos dias 28, 29 e 30 de junho (1:25)

Jogadora da seleção brasileira feminina de rugby que é lésbica contou com exclusividade à ESPN como age para diminuir o preconceito


Em 8 de agosto de 2016, Isadora Cerullo, a Izzy, jogadora de rugby, virou notícia mundial após ser pedida em casamento durante as Olimpíadas no Estádio de Deodoro, no Rio de Janeiro, por sua até então namorada, Marjorie Enya, após a vitória das Yaras (como é conhecida a seleção brasileira feminina da modalidade). Foi neste dia que a atleta percebeu que, entrevista após entrevista, um caminho novo se abria: a oportunidade de expor sua luta pela comunidade LGBTQIAP+.

“Eu sei que, dentro dessa esfera, fiz e faço esforço para levantar o assunto, de colocar na mesa e iluminar um pouco. Porque, infelizmente, o silêncio só protege quem está dentro das ‘normas’ ou dentro da tradição. É importante romper o silêncio”, afirmou a atleta de 31 anos em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.

Apesar do momento de felicidade, ela explicou que, à época, foi difícil assimilar toda a repercussão e visibilidade do pedido feito em público. “Agora, eu dou risada, mas, de repente, todo mundo queria uma opinião sobre atletas LGBTQIAP+. A gente percebeu que tinha plataforma para falar sobre isso e que estava adquirindo muita atenção internacional.”

Em 2021, também em junho, que é o Mês do Orgulho LGBTQIAP+, Izzy já revelara à ESPN como foi contar aos pais que é lésbica – clique aqui e veja a entrevista completa. As causas LGBTQIAP+ têm sido cada vez mais abordadas mesmo, mas o preconceito ainda é muito presente no cotidiano da população, que ouve comentários e enfrenta atitudes desrespeitosas e ofensivas. Izzy ressalta que, por ser mulher, o julgamento ocorre em dobro.

O preconceito anda de mãos dadas com o machismo, no sentido de afirmarem que se você joga um esporte como o rugby é porque você quer ser homem, e tem esse pré-julgamento sobre o que é ser mulher, de ser contra a nossa natureza. Esse esporte coloca isso em contraste e fala: ‘sim, mulheres jogam rugby e isso não tem nada a ver com a sua sexualidade’”, afirmou. Para enfrentar atitudes homofóbicas, a jogadora acredita que o diálogo e o apoio de aliados de fora da comunidade LGBTQIAP+ são fundamentais. “É tomar consciência dessas pequenas ações que vão se somando. É esse trabalho cotidiano e individual que vai levando a uma mudança maior. E não depender que isso sempre parta de pessoas marginalizadas, as pessoas que mais sofrem os preconceitos, precisa vir da maioria para que o silêncio seja rompido e a gente comece a fazer essa desconstrução”, defendeu.

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A construção da representatividade no esporte

Filha de pais brasileiros, Izzy nasceu nos Estados Unidos e sempre esteve ligada ao futebol. Mas aos 19 anos de idade, já na faculdade, a atleta entrou em contato com o rugby e encontrou na modalidade um ambiente completamente diferente do que conhecia.

"Dentro desse esporte conheci um grupo de mulheres incríveis e diversas que estavam vivendo suas verdades e suas identidades. Para mim, o futebol foi um ambiente muito heteronormativo [termo usado para situações em que orientações sexuais diferentes da heterossexual são marginalizadas ou perseguidas], e eu senti uma pressão de me encaixar dentro de alguns padrões, e o rugby foi esse primeiro contato com outras possibilidades”, contou.

Izzy conta que sempre buscou ser fiel à sua verdadeira identidade, mas que passou por um longo processo para entender quem realmente era e como ela se encaixava no mundo. “Sempre me identifiquei como LGBTQIAP+ no esporte, ou antes disso. É um pouco difícil dizer, porque eu sempre fui eu. Eu sempre fui LGBTQIAP+, desde que nasci, mas podemos falar sobre o processo de tomar consciência da minha identidade. Pra mim, o rugby foi muito importante nesse sentido”, detalhou. Com o início e a construção de sua história no esporte, a jogadora foi se identificando e aprendendo com as diferentes mulheres que cruzaram seu caminho no rugby, se sentindo acolhida e pertencente ao ambiente. “Encontrei pessoas diferentes e cada vez mais me senti confortável sendo eu mesma. Não só na vida, mas no esporte também, ao invés de tentar sempre me encaixar nos padrões que não eram para mim.”

Apesar do sucesso profissional e pessoal, Izzy explica que a luta para viver sem precisar se encaixar em um padrão é diária, e o caminho a ser percorrido pelas novas gerações é extenso. “Espero que eu possa ser um exemplo de como fazer o que você gosta ou correr atrás do que você quer. A importância da visibilidade é ter repertório para saber o que é possível”, almeja.

A atleta relata a ausência de representatividade na mídia quando começou a conhecer melhor a si mesma, faltando exemplos de mulheres que não se enquadravam nos padrões da sociedade. “Se eu penso na Izzy de 13 anos e ela tivesse visto alguma coisa assim, teria mudado minha vida, seria um universo paralelo de possibilidades, talvez com menos sofrimento em todo o processo de me aceitar”, afirmou.

Hoje, Izzy olha para o passado e manda um recado para a jovem que começou no esporte ainda cercada por muitas incertezas: “Diria para ela não só que vai ficar tudo bem, mas também que vai melhorar, que eu não vou só sobreviver, mas que vou conseguir florescer e nutrir algo dentro de mim para crescer e ser eu mesma e isso vai ser muito lindo. Acredite, vai dar tudo certo.”