Pode parecer mentira, mas o Brasil subiu ao pódio mais uma vez em uma competição de elite dos esportes de inverno.
Menos de um mês após Nicole Silveira conquistar a medalha de bronze na etapa de PyeongChang, na Coreia do Sul, da Copa do Mundo de Skeleton, o país celebrou seu segundo pódio na história em uma etapa do circuito mundial de uma modalidade olímpica ‘congelante’.
No último domingo, Lucas Pinheiro Braathen foi vice-campeão da etapa de Beaver Creek da Copa do Mundo de esqui alpino. Filho de uma brasileira com um norueguês, o esquiador ficou em segundo lugar, apenas 12 centésimos atrás do líder, na prova de Slalom Gigante, disputada na pequena cidade do estado do Colorado, nos Estados Unidos.
Nascido em Oslo, capital da Noruega, Lucas escolheu defender o Brasil no último ano e já faz história para o país. A medalha de prata e o samba no pódio do esqui são apenas os primeiros passos de um grande sonho do esquiador de 24 anos, que concedeu uma entrevista exclusiva à ESPN poucos dias após a conquista.
“Foi um dia maravilhoso. É muito especial escrever essa história com a bandeira brasileira, trazê-la para um novo esporte e colocá-la em um pódio de um esporte de inverno”, contou Lucas, com um português fluente e muita simpatia.
O resultado histórico não é uma novidade para Lucas Pinheiro. O brasileiro, que na Noruega é mais conhecido pelo sobrenome Braathen, é um dos grandes fenômenos do esqui alpino, uma das modalidades mais populares do país nórdico.
“As crianças norueguesas começam a praticar muito cedo. O esqui alpino na Noruega é como o futebol no Brasil. Na Noruega, dizemos que o norueguês nasce com esquis nas pernas, mas isso não foi o meu caso. Eu não gostava nada de esqui.”
Apesar de nascer em Oslo, Lucas passou boa parte da infância no Brasil, onde cultivou sua paixão pelos esportes.
“Eu adorava futebol. Quando visitava minha família em São Paulo, estava sempre jogando bola com meus primos. No começo, achava o esqui alpino horrível. Era muito frio, e as botas de esqui machucavam minhas pernas. Meus pés estavam acostumados com chuteiras e praia.”
Torcedor do São Paulo e fã de Bossa Nova, Lucas acabou insistindo no esqui alpino por incentivo do pai, inicialmente como uma forma de recreação. Com o tempo, o filho de norueguês mostrou grande talento e logo se tornou um dos prodígios da modalidade, defendendo a bandeira da Noruega.
Título mundial e 'aposentadoria' precoce
Em 2020, aos 20 anos, Lucas venceu sua primeira etapa de Copa do Mundo e, três anos depois, tornou-se campeão geral do Slalom Gigante, consolidando-se como uma das grandes sensações do esqui alpino mundial.
Meses após a conquista do Globo de Cristal, troféu dado ao campeão do circuito mundial, Lucas surpreendeu ao anunciar sua aposentadoria, aos 23 anos, em uma coletiva emocionante. O prazer de competir e esquiar estava cada vez mais distante do brasileiro-norueguês.
No entanto, quase um ano depois, Lucas decidiu retornar ao esporte, desta vez defendendo a bandeira verde-amarela.
“Claro, foi bem difícil. Eu estava representando a Noruega quando virei campeão de Slalom na Copa do Mundo. Depois, decidi deixá-los. Tive alguns problemas com a federação norueguesa. O maior deles era a falta de liberdade para mostrar ao mundo quem eu realmente sou.”
Então, Lucas lembra de um episódio marcante: “Eu fui mal em 2021, mas melhorei no ano seguinte e estava muito feliz e orgulhoso. Após uma competição, gravei um vídeo com minha equipe, tocando samba no rádio e segurando a bandeira brasileira.”
“Fiquei muito orgulhoso de mostrar essa metade brasileira num dia tão importante para mim. Foram essas coisas que eles não gostavam. Eles (a federação norueguesa de esqui alpino) não me deixavam mostrar esse meu lado."
A relação desgastada afetou a alegria de Lucas no esporte, levando-o a um ultimato:
“Eu sou metade brasileiro e metade norueguês. Preciso mostrar ambos os lados porque sou um produto desses dois países. Então, ou me aceitam assim ou tchau.”
Após uma conversa decisiva, a federação norueguesa aceitou sua saída. “Nos despedimos como amigos”, revela Lucas.
A felicidade com as cores e o ritmo do Brasil
Agora competindo pelo Brasil, Lucas está mais leve nas montanhas e na vida, feliz com o carinho que recebe dos brasileiros e do Comitê Olímpico do Brasil (COB).
“Eles me acolheram com muito amor e apoio. Eu estava precisando disso. Esse projeto é muito exigente, então, preciso de toda a ajuda possível para conquistar mais medalhas, quem sabe até nas Olimpíadas de Milão-Cortina.”
Com liberdade para ser ele mesmo, Lucas sonha em levar a bandeira do Brasil ainda mais longe, quem sabe até um pódio inédito para o país nas Olimpíadas de Inverno em 2026. Seu sonho, porém, vai além das medalhas.
“Minha missão é levar essa bandeira ao topo em um esporte de inverno e mostrar que, para os brasileiros, tudo é possível. Não me importa se vou inspirar uma criança a se tornar um esquiador. Quero inspirar as pessoas a acreditarem que podem conquistar qualquer coisa.”
No pódio da etapa disputada no último final de semana, Lucas mostrou que a bandeira do Brasil e o samba combinam na areia da praia e também na neve dos esportes de inverno.
