Após 16 anos, a seleção brasileira feminina de futebol está de volta à final das Olimpíadas. O adversário será os Estados Unidos, maior vencedor do torneio, com quatro títulos, e maior algoz do Brasil em decisões na história.
Na atual edição dos Jogos de Paris, a seleção enfrentou uma fase de grupos complicada, mas cresceu no mata-mata da competição. A equipe comandada por Arthur Elias venceu a França nas quartas de final, por 1 a 0, e atropelou a Espanha, atual campeã do mundo, por 4 a 2, na semi.
Com a vaga conquista com um verdadeiro show, esta será a terceira final entre Brasil e Estados Unidos na história dos Jogos Olímpicos. Em Atenas 2004 e Pequim 2008, a seleção norte-americana ficou com a medalha de ouro. Para as brasileiras, as duas decisões ficaram marcadas por reclamações de supostos erros de arbitragem que interromperam, em cada ano, o sonho da inédita conquista.
Cristiane, sobre 2004: 'Meteram a mão na gente'
A primeira delas, a mais famosa, aconteceu em 2004. Na ocasião, o jogo estava empatado em 1 a 1, quando algo inusitado aconteceu. A árbitra foi trocada, alegando uma contusão no tornozelo.
Em um jogo muito equilibrado, a bronca veio no início da prorrogação. Daniela Alves chutou, mas a zagueira Fawcett tirou com a mão. De imediato, as brasileiras alegaram um pênalti, algo que não foi marcado em campo. O balde de água fria veio logo depois. Aos seis minutos do segundo tempo, Abby Wambach, de cabeça, fez o gol do título para as americanas. Apesar de histórica, a prata ficou com gosto amargo.
"De entrega para gente, eu não acredito que tenha faltado nada, porque se você for analisar as duas finais, elas foram muito pau a pau. Em 2004, meteram a mão na gente e eu vou falar isso sempre. Foi muito no pau a pau com uma seleção que tinham o que nós não tínhamos: os campeonatos, nós também não tínhamos patrocínio, não tínhamos visibilidade, nós não fazíamos jogos internacionais como elas faziam. Faltou ter o que elas tinham", disse à ESPN.
Formiga, outra histórica jogadora, desabafa sobre as condições da época
Uma das referências da equipe, a histórica meio-campista relembrou todo os problemas que as meninas do Brasil passavam pela falta de condições. Inclusive, não podiam trocar camisa com o adversário, pois os uniformes eram contados.
Em entrevista à ESPN, Formiga detalhou todo o respeito que a histórica geração do Brasil precisou criar em um esporte que o investimento era precário. Agora, 20 anos depois, o Brasil pode, enfim, subir no lugar mais alto do pódio.
"A realidade mudou após a primeira prata, mas que, ainda assim, tivemos que buscar outra para consolidar de vez o respeito. Se mudou o respeito após conquistar uma medalha, porque nem o direito de trocar uma camisa G que chegava a gente tinha. Olho com muito orgulho para as medalhas de prata que conquistamos."
Prata amarga em 2008 e 'desabafo' de Maurine: 'Não faltou nada'
Quatro anos depois, o Brasil foi novamente comandado por Cristiane, Formiga e Marta à segunda final consecutiva. Dentro de campo, mais uma vez, a seleção encantava com um futebol bonito. A campanha invicta, de quatro vitórias e um empate, e a goleada por 4 a 1 sobre a Alemanha, na semifinal, indicavam que o resultado poderia ser diferente.
No entanto, novamente na prorrogação, as americanas venceram a seleção brasileira por 1 a 0. Lloyd fez o gol da partida e concretizou o ouro para os Estados Unidos. E para a lateral Maurine, convocada na época, o resultado não foi justo, já que elas deixaram tudo em campo.
A gente sabia o que estava fazendo, a gente tinha treinado muito e era o jogo da nossa vida. Não faltou nada. Você olha pra trás e pergunta: 'O que faltou?' Porque as vezes acaba faltando alguma coisa, mas não faltou nada.' E uma "peça" fez escorregar o nosso sonho. Infelizmente a gente não conseguiu, é triste, mas agora é torcer para dar certo."
