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Arthur Elias vê críticas acima do tom à seleção feminina em longo desabafo e pede reflexão: 'Não somos covardes'

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'Escutar críticas tão pesadas é injusto': o desabafo completo de Arthur Elias (9:45)

Treinador da seleção brasileira de futebol feminino 'soltou o verbo' em entrevista coletiva nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 (9:45)

Em entrevista coletiva nesta sexta-feira (2), prévia ao jogo contra a França, pelas quartas do torneio de futebol feminino dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, o técnico da seleção brasileira, Arthur Elias, fez um longo desabafo sobre as críticas recebidas por sua equipe.

Na visão do ex-comandante do Corinthians, os jornalistas que cobrem a modalidade têm feito comentários "acima do tom" sobre o desempenho do Brasil nas Olimpíadas, principalmente após as derrotas para Japão e Espanha e sobre a expulsão de Marta contra a Roja.

Arthur Elias também subiu o tom, ressaltou que seu time não é "covarde" e pediu "energia positiva e melhor" vinda do ambiente externo.

Veja abaixo o desabafo completo do treinador:

A minha reflexão aqui cabe primeiro para algumas informações, na verdade opiniões, de algumas jornalistas do Grupo Globo. (Primeiro) A Ana Thaís, uma pessoa que foi muito importante para o desenvolvimento do futebol feminino. O futebol de mulheres não é só dentro do campo. Precisa de jornalistas dando opinião. Mas a Ana vem em um tom bem alto nas mídias sociais. Não acompanho a transmissão, o meu vídeo é tático. Ela vem criticando bastante o desempenho e a postura da seleção na primeira fase, como se a primeira fase tivesse sido horrível, e outras palavras bastante fortes que tem usado. Eu discordo totalmente.

Se formos analisar os adversários, enfrentamos a Nigéria, que não perdia há 15 jogos, o segundo jogo franco contra o Japão, que é excelente e teve dois pênaltis a seu favor, quando a gente estava com a classificação na mão até os 90 minutos. Ocorreu estabilidade da equipe. Eu cobrei delas, o processo é de aprendizado. Todo mundo reconheceu isso. A gente fez um final de jogo contra o Japão ruim. Mas o Japão é forte. E, contra a Espanha, aconteceu um primeiro tempo de jogo com um estilo diferente. Mas um plano que funcionou o primeiro tempo inteiro, com um resultado necessário para classificar. Uma classificação que veio por mérito, não por conta da suspensão do Canadá. A competição é dura, as oito melhores passaram por pontos. Por méritos.

Depois, o segundo tempo contra a Espanha, com uma jogadora a menos, contra uma equipe de tanta qualidade. Tem coisa que passa despercebida, parece. Jogamos mais de 70 minutos contra a Espanha, melhor do mundo, com a nossa seleção renovada. Segurar a Espanha com entrega. Tive orgulho do que elas fizeram dentro de campo. Escutar esse tipo de declaração depois, sobre o comportamento ou capacidade, me parece um tanto injusto, sendo que a gente fez um jogo com capacidade de empatar o jogo com a Gabi Nunes, que teve a chance de gol já com a Antônia machucada.

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Treinador da seleção feminina concedeu entrevista coletiva nesta sexta-feira (2)

Surpreende não valorizarem o esforço da Antônia, que teve uma fratura. É impossível de detectar na hora. Foi uma fratura que não houve desfio. E ela voltou. A gente não tinha certeza da fratura, e ela jogou como jogou, segurar as zagueiras da Espanha. Ajudou ao máximo, assim como todas. Eu queria realmente fazer essa reflexão. Eu entendo o mundo de hoje, de mídias, de se posicionar e cobrar. Como a internet é muito rápida, as pessoas vão falando.

Eu queria propor essa reflexão tanto à Ana Thais Mattos, quanto à Alline Calandrini, uma pessoa que trabalhou comigo e foi jogadora. Que colocou na internet que a seleção teve uma classificação culposa, sem intenção de se classificar. É muito difícil a gente escutar isso vindo de quem já jogou, vindo de quem já esteve aqui e conhece a história de vida das atletas. O papel da comentarista é analisar também o outro time. 2 a 0 na França, 3 a 0 na Holanda. Eu não vi chamar a Holanda de covarde. E falar que a nossa classificação foi dessa maneira.

Não é passar a mão na cabeça. Vi muita gente falando bobagem. A Marta teve um erro sem intenção, todo mundo viu isso. As espanholas, a gente. A gente não passa a mão na cabeça. Nem eu, nem elas. Mas o tom também. É importante as pessoas fazerem uma reflexão. Será que sou o melhor do mundo no meu trabalho ou no que eu me propus a fazer? No que faço há 20 anos? É difícil chegar onde ela chegou e ser quem ela é.

Acho que foi um vídeo da Milly Lacombe, que é uma mulher incrível e necessária no jornalismo. Ela põe uma fala muito bonita lamentando o choro da Antônia e da seleção. Eu queria dizer para ela que a gente não saiu com esse sentimento. Foi orgulho pelo que a Antônia fez, que se entregou com a fíbula fraturada. É a postura de todas elas.

"É uma reflexão geral que eu gostaria de fazer. A seleção brasileira nunca foi covarde e nunca vai ser. Essa palavra não existe. É sempre uma equipe empoderada e encorajada, que joga de maneira agressiva. E que só mudou o seu plano de jogo em um jogo, contra uma adversário fora da curva. Era isso que eu queria colocar para todos nós. Ter uma energia melhor e positivismo melhor vindo de fora.


O Brasil enfrenta a França neste sábado (3), às 17h (de Brasília), no Stade de la Beaujoire, em Nantes.

As outras semifinais serão: Estados Unidos x Japão, às 10h; Espanha x Colômbia, às 12h; e Canadá x Alemanha, às 14h.