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Como mãe-treinadora impulsionou e inspirou Caio Bonfim na conquista da medalha inédita: 'Sou a extensão da carreira dela'

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É prata na marcha atlética! Caio Bonfim conquista medalha inédita para o Brasil nas Olimpíadas de Paris; VEJA (1:42)

Brasileiro terminou a prova em 2º lugar com o tempo de 1:19:09, e conquistou a primeira medalha do Brasil na modalidade (1:42)

Caio Bonfim conquistou a medalha de prata na marcha atlética nas Olimpíadas de Paris no dia 1º de agosto, mas seu começo no esporte foi há mais de quatro décadas.

Dono da primeira medalha da modalidade no país, o brasileiro de 33 anos finalmente sobe ao pódio na sua quarta edição de Jogos Olímpicos e diz que a corrida, ou melhor marcha, até aqui não foi nos últimos 17 anos de carreira, mas muito mesmo antes de nascer.

“Minha mãe fez índice para Atlanta-1996, mas mudaram alguns critérios e ela não pode ir. Em Londres-2012, minha primeira Olimpíada, eu falei para ela e disse que você é uma atleta olímpica. Eu sou uma extensão da carreira dela. A prova não foi difícil, difícil foi todo dia desde que eu comecei a marchar. Hoje eu cheguei aqui e é um trabalho de uma vida.”

Quando Caio encontrou a mãe Gianetti, que também é sua treinadora, não segurou a emoção e contou o que disse a ela em meio às lágrimas. "Nós estamos na 4ª Olimpíada. Nós somos medalhistas olímpicos."

O pai do vice-campeão olímpico, João Sena, também é treinador e foi destacado por Caio na entrevista após a conquista.

“Ele começou a dar aula em uma escola e disse que ia ter atletismo. Depois veio minha mãe, se apaixonou e se casou com ele. Então, eu sou a extensão de um trabalho de um cara que começou nos anos 1980. Eu acredito muito no treino dele.”

A mãe de Caio é Gianetti Bonfim, que também foi atleta de atletismo, formada em direito, e conquistou 8 vezes o título brasileiro na marcha atlética. A hoje treinadora, corria provas de longa distância, como 1500m, mas após engravidar do medalhista olímpico, acabou experimentando a marcha atlética.

“Ele tinha muito problema de saúde, não podia treinar porque a minha vida era viver no hospital com o Caio. Toda semana era meningite, pneumonia. Tinha uma prova e não tinha ninguém para participar, perguntaram se eu queria. Eu fui, ganhei, me apaixonei, e nunca mais saí. Tava escrito para a gente conhecer a marcha atlética.”

Caio Bonfim passou por diversas problemas de saúde quando nasceu, além das citadas pela mãe, uma intolerância à lactose fez com que seus ossos se fragilizassem por conta da falta de cálcio. Tudo isso não impediu que Gianetti sonhasse que seu filho seguisse seus passos de atleta.

“Quando ele começou a andar, que as perninhas dele começaram a entortar, levava no pediatra e falava 'doutor, como eu vou fazer se meu filho quiser ser atleta? Ele falava que talvez não daria para ser atleta com essas pernas.” em entrevista exclusiva para a ESPN depois da prova.

A mãe-treinadora garante que cobra quando precisa cobrar, mas também não abre mão de “mimar” o filho com atitudes bem maternas.

“Separar mãe de treinadora é praticamente impossível. A gente treina, mas a mãe está sempre ali, então eu faço coisas que uma treinadora não faria, tipo, mãe esqueci o elástico no quarto, eu vou lá e pego. Se fosse outro atleta, seria problema é seu. No almoço, eu faço o meu prato e o dele para ele não ficar esperando na fila.”

A abordagem do treino pode ter toques paternais, mas a ciência e o investimento também foram envolvidos na formação do medalhista olímpico, que é moldado nos detalhes.

“Tivemos paciência para conhecer o corpo do Caio, saber como ele reage a cada treino. Fomos para a biomecânica. Eu falei 'se a gente não sair do nosso mundinho, a gente não vai ter espaço'. No começo a gente pagava passagem em 12 vezes para competir na Europa."

Em Paris, Caio fechou a prova de 20km em 1:19:09 seu melhor tempo em Olimpíada, e logo após a conquista da prata, enalteceu o trabalho da mãe e do seu pai, que são seus treinadores e fundadores do Centro de Atletismo de Sobradinho (CASO) na cidade-satélite de Brasília.

“Eles foram os meus maiores incentivadores. Na minha primeira Olímpiada, em Londres-2012, viajei na base do paitrocínio. Quem é o pai que pega o filho no colo e fala esse é o meu marchador.”

“Minha mãe foi a inspiração de eu estar treinando todo dia, faça chuva ou faça sol. A nossa varanda tem 32 m², nos dias de chuva e ela pedia para eu ficar pegando água para ela ficar marchando na varanda. Ela rodou 30 ou 40 minutos naquela varanda.”, disse o vice-campeão olímpico olhando para sua treinadora e mãe.

A inspiração dos pais fez com que Caio começasse no esporte, e o medalhista também já constrói a sua família, que vive a vida de atleta junto com ele.

“Todos os dias do camping de treinamento, minha esposa me mandou uma foto do pódio e da medalha. Meus filhos foram meus pilares da minha carreira. Essa conquista é especial porque esses dois moleques vendo, eles são minhas medalhas de ouro.”

Se os pais, Gianette e João incentivaram Caio, o medalhista também já inspira outro “familiar” que marchou junto na Olimpíada de Paris.

“Ele é meu padrinho de casamento. É uma honra dividir a pista com ele. Eu aprendo muito com ele. O Caio já estava abrindo muitas portas para a marcha atlética mesmo antes da medalha. Ele já chamava muita atenção da modalidade. Era questão de tempo e esse tempo chegou.” Disse Max Batista dos Santos, em entrevista exclusiva para a ESPN, após competir em sua primeira participação olímpica.