De Anitta a 'não é Fashion Week': por que uniforme do Brasil na cerimônia de abertura já roubou cena nas Olimpíadas

play
Uniforme do Brasil para a abertura das Olimpíadas de Paris divide opiniões; trajes da Mongólia se destacam (2:05)

A participação do Brasil na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Paris nem começou e já deu o que falar. O motivo estará visível a partir das 14h30 (de Brasília) desta sexta-feira (26), quando o evento começa oficialmente: o uniforme que será usado pela delegação brasileira.

O look tem circulado nas redes sociais há algum tempo e recebido críticas de alguns internautas. A roupa, considerada feia por parte dos torcedores, é frequentemente comparada com uniformes de outras delegações.

Até Anitta endossou as críticas. Em publicação no Instagram, a cantora não escondeu sua insatisfação com o design das peças.

"Acho que o look representa exatamente como o atleta é tratado no país. Sem estrutura, sem oportunidades, desvalorizado. O atleta no Brasil é um grande vencedor só por resistir na decisão de ser atleta", disse.

"Acho que o olhar veio para reafirmar exatamente isso, como que o atleta precisa ser guerreiro e passar por poucas e boas pra seguir seu sonho", completou.

COB rebateu críticas: 'Não é Paris Fashion Week'

O Comitê Olímpico Brasileiro não ficou calado diante das críticas. O uniforme foi desenvolvido pela Riachuelo e será usado nas cerimônias de abertura e encerramento, mas, vale destacar, não vestirá o Brasil durante os Jogos Olímpicos como um todo. Existem designs especiais para viagem, pódio, além de algumas modalidades terem vestimentas com patrocinadores exclusivos.

"Não é Paris Fashion Week, são os Jogos Olímpicos. Então nosso foco está nisso. A gente sempre tem comentários excelentes, basta ver os vídeos dos próprios atletas nas redes sociais", declarou Paulo Wanderley, presidente do COB.

O diretor de marketing da entidade, Gustavo Herbetta, foi na mesma linha.

"A gente, obviamente, participou de todo o processo de escolha desse uniforme e aprovou com muito orgulho. Se precisasse a gente aprovaria esse uniforme de novo. Traz sustentabilidade no material, e elementos da moda parisiense, que algumas pessoas gostam mais, e outras pessoas gostam menos. Eu me recordo que quando a gente lançou o uniforme foi um sucesso absoluto, principalmente nas redes sociais", disse.

Os atletas vão usar uma roupa com detalhes bordados a mão por mulheres do semiárido do Rio Grande do Norte, com imagens de araras, tucanos e onças em jaquetas jeans.

Estilistas opinam sobre uniformes do Brasil à ESPN

Se a polêmica já é imensa, o que os especialistas em moda pensam sobre os uniformes que serão usados pela delegação brasileira em Paris? A resposta de reprovação é quase unânime.

"Como gostar daquilo?", brincou Ronaldo Fraga, apontado como um dos sete profissionais da área mais inovadores do mundo em 2010 e 2014. "O uniforme não é simplesmente um uniforme. Ele comunica, ele fala, ele decodifica, para o mundo, os códigos do país atual. E perdemos a oportunidade de falar de outro Brasil".

"O cuidado do uniforme de outros países, como Mongólia, França e Japão, mostra muito da identidade, da alma destes países. Ela está representada na identidade destes uniformes. O Brasil perdeu. Já entrou em campo na Olimpíada perdendo a oportunidade de ter mostrado uma coisa mais criativa. Sendo que nós somos um povo criativo", completou.

Na visão de Paulo Borges, apresentar-se com esses uniformes em Paris, justamente a capital da moda, é um erro gigante do planejamento brasileiro.

"Não entendi o resultado. Fica nítida a falta de atenção estética e estratégica. Todos sabiam que, numa Olímpiada na capital do mundo da moda e arte, esse quesito seria muito importante, mais até que nas Olimpíadas anteriores", opinou o idealizador e diretor criativo do São Paulo Fashion Week.

Quem corrobora a opinião é Rodrigo Ribeiro, fundador e atual consultor da Foxton.

"Por ser tratar de uma Olimpíada que está sendo realizada na capital, referência de moda no mundo, faltou um olhar mais sofisticado para as modelagens, para os materiais, principalmente pelo fato de ser em Paris. Precisava ter sido um pouco mais bem cuidado o processo como um todo, da concepção até a execução final dessa produção", falou o profissional nascido no Rio de Janeiro.

Airon Martin, que ganhou destaque no meio ao criar uma marca de bolsas compradas por Oprah Winfrey em viagem ao Brasil, lamentou a perda de oportunidade do Brasil ao se apresentar para um evento dessa magnitude com tais vestimentas.

"É vergonhoso. Entendo a importância da Riachuelo quando se trata do volume e da geração de empregos. Mas eles não são uma empresa de moda. É uma empresa que vende roupa. Moda é uma coisa. Roupa é outra", falou o estilista.

"Perdemos a oportunidade de mostrar um Brasil que poderia nos orgulhar como imagem. Não nos falta riqueza cultural e muito menos designers aptos a entregarem um uniforme decente. Faltou projeto, estratégia e direção criativa".