A NFL começou a realmente se popularizar no Brasil ainda nesta década. Com isso, a maior parte do público não pode acompanhar o crescimento e, principalmente, o surgimento de uma estrela na posição de quarterback.
Poder ver alguém sair do nada e chegar a 50 touchdowns passados numa temporada? Bem, ainda não tinha acontecido. O amadurecimento de Pat Mahomes é uma das coisas mais inacreditáveis que pudemos testemunhar na temporada 2018 e, certamente, uma de suas melhores histórias.
A grande analogia para explicar o quão legal é essa história é a de um super-herói que, aos poucos, vai descobrindo seus poderes. Ele não foi primeira escolha geral do draft, cercado de expectativas. Ainda, Mahomes não foi jogado na “fogueira” de imediato: houve um plano desenhado de maneira quase sem precedentes pelo Kansas City Chiefs.
Tudo começa na percepção do problema. Embora não seja um quarterback ruim, Alex Smith tem teto limitado de produção. Os Chiefs, na figura do técnico Andy Reid, logo perceberam isso e sabiam que precisavam de um passador mais ousado ao mesmo tempo que os turnovers não aparecessem a todo momento. Assim, uniram o útil ao agradável e fizeram trocas no draft de 2017, subindo e abrindo mão de escolhas intermediárias no recrutamento. Com a escolha adquirida, pegaram Pat Mahomes.
A história, contudo, começa bem antes
“O arremessador de alívio Pat Mahomes deixou o time no último domingo para ficar com sua namorada no Texas. Ela acabou de dar à luz para seu filho, um menino. Mahomes retornará para o time hoje em Kansas City”. Assim o Minneapolis Star-Tribune, jornal de Minnesota, reportava a ausência de Pat. Não o que você conhece pela NFL, mas o pai.
Parte do sucesso de Mahomes, o filho, se dá por conta de seu DNA. Um tanto quanto simplório dizer isso, mas ajuda a explicar. Um arremessador de alívio (reliever) no beisebol, dentre outras virtudes, precisa ter um braço absurdamente forte e esse era o caso do Pat Pai. O Pat Filho herdou isso, mas mostra o talento no futebol americano.
Isso não quer dizer que a influência da carreira do pai não tenha ajudado Mahomes de alguma forma: pelo contrário. Em sua juventude, ele jogou o esporte do pai e muitos dos lançamentos que realiza dentro de campo têm um quê de beisebol: principalmente os lançamentos sem muita base de apoio que, por conta da necessidade de serem realizados rapidamente, chegam no alvo por meio do trabalho do braço e sua força.
Como jogador de beisebol, Mahomes foi arremessador como seu pai e chegou a lançar um no-hitter – jogo no qual o arremessador não cede nenhuma rebatida, feito raro em qualquer nível do esporte. Além de arremessador, Pat jogou no campo externo e essa experiência também se mostra na NFL: lançamentos sem base que são ajudados pela força no braço e pela mecânica são comuns para atletas da posição.
Contexto: é realmente muito difícil que um quarterback lance desequilibrado. Esse costuma ser um dos principais motivos para que interceptações aconteçam, vide que sem essa base a memória muscular se perde e o alvo, idem. Por conta da carreira no beisebol e do braço digno de super-herói, Mahomes não sofre com isso. O resultado? Alguns dos lances abaixo. Quem assiste à temporada da MLB já viu muitos deles. Só não tinha visto com uma bola oval e com um jogador de capacete realizando os lançamentos.
Melhores Momentos de Matt Mahomes na temporada. Realmente absurdo. (via @thecheckdown)pic.twitter.com/ejeKMYNynK
— Antony Curti (@CurtiAntony) 15 de janeiro de 2019
Lapidando o diamante
Patrick teve uma carreira mais do que interessante em Texas Tech. Seu head coach foi Kliff Kingsbury, agora técnico do Arizona Cardinals. O livro de jogadas? Extremamente simples. As defesas enfrentadas por Mahomes em sua conferência? Muitas das piores do college football.
O grande exemplo disso foi o jogo entre Patrick Mahomes e Baker Mayfield enquanto os dois ainda estavam no nível universitário. Os ataques de Texas Tech e Oklahoma combinaram para 1279 jardas aéreas. Mahomes passou e correu para 819 jardas e anotou sete touchdowns.
O problema? A tradução desse talento bruto para a NFL. É mais ou menos como um cavalo selvagem precisando ser domado. Mahomes poderia ser uma gigantesca máquina de interceptações no nível profissional. O livro de jogadas de Texas Tech era basicamente vertical e carecia de muitos conceitos de rotas que aparecem na NFL – os quais são necessários para vencer defesas mais complexas e atléticas.
Para a sorte do potencial MVP da temporada 2018, a melhor situação possível foi a que ele encontrou no Draft. Ao ser escolhido por Kansas City, teria em Andy Reid e Matt Nagy – respectivamente técnico principal e coordenador ofensivo – duas das melhores mentes ofensivas da liga. Elas seriam as responsáveis pela lapidação. Ainda, Mahomes pôde aprender com Alex Smith: discutivelmente um dos melhores quarterbacks da liga quando o assunto é “evitar turnovers”. Para completar a bem-sucedida fórmula, Mahomes não foi jogado na fogueira e o time não correu o risco de ver sua confiança ser dinamitada ao enfrentar defesas anos-luz mais complexas que aquelas do college football.
Em seu segundo ano, Mahomes era considerado calouro por muitos fãs. Como ficou no banco por praticamente todas as partidas menos uma em 2017, poucos perceberam que ele estava ali, sendo lapidado de forma paciente. A paciência, dizem, é uma árvore amarga de frutos doces. Para o torcedor dos Chiefs e para quem gosta de ver um grande quarterback, não poderia haver fruto melhor.
Pat tomou a liga de assalto na temporada 2018. Depois de dois training camps sendo lapidado por Andy Reid e tendo a sua disposição um ataque explosivo, a tempestade perfeita foi formada. Os Chiefs terminaram a temporada com o melhor ataque da NFL em pontos por jogo, Mahomes fez lançamentos impressionantes e contra os quais eu teria jogado o videogame se acontecessem no Madden. Ainda, tivemos a marca de 50 touchdowns – alcançada anteriormente apenas por Tom Brady e Peyton Manning.
Agora, o melhor quarterback da temporada e potencial MVP enfrenta o “Poderoso Chefão”, melhor quarterback da temporada passada e MVP de 2017: Tom Brady. Ele já estava como quarterback no ensino médio quando o pai de Mahomes voltou ao Texas para ficar com sua esposa e o recém- nascido. Ele tem cinco títulos de Super Bowl. Múltiplas aparições seguidas na final da Conferência Americana. Para ser considerado o melhor, você tem que vencer o melhor.
Para realmente apreciar o que teremos em campo na noite de domingo, é preciso ver como demorou para que Mahomes chegasse aqui. De filho de um jogador de beisebol a diamante cru no Draft para ser um dos mais completos e empolgantes quarerbacks da NFL. Desafiante contra campeão – não poderia ser melhor.
Neste domingo, às 21h30 (de Brasília), Kansas City Chiefs e New England Patriots decidem quem é o melhor time da Conferência Americana e vai para o Super Bowl LIII. A partida terá transmissão exclusiva da ESPN e do WatchESPN.
