Por um momento curto, o Minnesota Vikings respirou aliviado durante o draft de 2003 da NFL. Um grande esforço para trocar a sétima escolha parecia ter sido finalizado com um acordo no último instante. Rob Brzezinski, então vice-presidente dos Vikings, havia informado os termos da negociação a 32 segundos do fim da janela de 15 minutos. O time trocaria de lugar com o Baltimore Ravens e teria a pick 10, além de escolhas de quarta e sexta rodadas.
Brzezinski, o técnico Mike Tice e o restante dos diretores viram os Ravens fazendo sua escolha, enquanto esperavam que Kevin Williams, offensive tackle de Oklahoma State, ainda estivesse disponível. Mas, em segundos, eles perceberam algo estranho. O logo do time na transmissão da ESPN não havia mudado.
"Nós ligamos e informamos a troca, achamos que estava feito", disse Brzezinski. "Estávamos na sala de draft, vendo TV, até que as portas do inferno se abriram."
A cena se tornou uma das mais bizarras da história moderna do draft da NFL. A liga não executou a troca, por motivos nunca explicados, e o tempo dos Vikings expirou.
Durante a confusão, Jacksonville Jaguars e Carolina Panthers pularam de posição e fizeram suas escolhas enquanto os Vikings se prepararam e selecionaram Williams com a pick 9.
A gafe fez os Vikings passarem por uma vergonha nacional em tempo real. Chris Berman, âncora da ESPN, afundou o rosto entre as mãos durante a transmissão, e Dennis Green, ex-treinador e comentarista, os ridicularizou. Uma festa de draft em Eden Prairie, Minnesota, terminou com quase 5 mil pessoas vaiando Tice. Nos meses seguintes, a NFL trabalhou em silêncio para implementar mudanças de protocolo que evitariam que isso se repetisse.
Por mais engraçado que tenha sido para o público, o episódio afetou diretamente as pessoas envolvidas. 20 anos depois, eles puderam revelar mais da história. Ela envolve milhões de dólares, uma ligação não atendida e um idoso xingando um treinador de mais de 2 metros de altura.

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O então dono Red McCombs culpou a direção dos Vikings por um processo de draft desorganizado. Mas em entrevistas, Brzezinski e Tice revelaram um fato crucial: McCombs havia exigido uma troca antes do draft começar, aumentando ainda mais a pressão. Brzezinski se negou a especular sobre os motivos. Tice, que se aposentou em 2018, disse que o motivo era claro para todos que sabiam da situação financeira do time na época.
"Nos deixaram tendo que assumir o óbvio", disse Tice. "Que era a diferença do valor do contrato (com uma escolha mais baixa de draft)."
McCombs faleceu em fevereiro, aos 95 anos. Tice disse que não quis mais conversar com o ex-dono, e Brzezinski enfatizou "que isso não os absolveria da responsabilidade e nem serviria de desculpa". Mas ficou claro que, sem a ordem, os Vikings selecionariam Williams com a pick 7, em vez de precisarem achar uma troca ruim. O bônus de Williams ao assinar o contrato era 3 milhões de dólares menor se fosse selecionado em 9º, em vez de 7º.
"No fim, o Red conseguiu o que queria", disse um funcionário dos Vikings daquela época. "Ele conseguiu Kevin Williams por um preço menor, mas nós todos passamos vergonha."
UMA DAS CONFUSÕES mais comuns do draft da NFL é de que os Vikings perderam suas escolhas por dois anos seguidos. Na verdade, foi o Dallas Cowboys que viu o tempo expirar em 2002, na sexta escolha. O erro dos Vikings naquele ano foi não agir rápido o bastante para passar na frente de Dallas.
Naquele ano, Tice admitiu publicamente que os Vikings queriam selecionar o defensor Ryam Sims. O Kansas City Chiefs também queria o jogador e tentava fechar uma troca com os Cowboys pela pick 6 quando o tempo acabou.
A NFL fazia seus drafts em cidades como Nova York. Os times selecionavam jogadores pedindo para um representante presencial escrever o nome em uma carta e entregar para o oficial da NFL que ficava perto do palco. Quando perceberam que o tempo dos Cowboys iria expirar, os Vikings tentaram fazer o cartão chegar ao palco antes, mas o representante dos Chiefs foi mais rápido.
Os Vikings acabaram ficando com o left tackle Bryant McKinnie. Depois do draft, McCombs reorganizou a direção do time, com Brzezinski e Scott Studwell no comando do draft, à frente do vice-presidente Frank Gilliam.
Em 2003, Minnesota queria manter seus planos em segredo. Depois da atuação dominante de Williams no Senior Bowl, os líderes dos Vikings concordaram que ele seria o alvo na pick 7. Depois, eles se esforçaram para minimizar as chances de 2002 se repetir.
"Eu não conversei nada com os Vikings", disse Williams, recentemente. "Eu estava pensando que seria o 15º draftado, mas não sabia para onde."
Se tudo desse certo, o plano dos Vikings os deixaria com a promessa que eles mais queriam, Depois, na manhã da primeira rodada, uma batida na porta da sala do draft mudou tudo.
MCCOMBS HAVIA COMPRADO os Vikings em 1998 por 206 milhões de dólares. Três anos depois, ele se frustrou com o valor limitado de revendas locais em jogos no Metrodome, que tinha poucos camarotes e espaços luxuosos. Mas oficiais do governo estadual deixaram claro que não ajudariam em uma mudança antes do fim do contrato, em 2011.
Em uma entrevista de 2001 para o Star Tribune de Minneapolis, McCombs disse que havia ajudado a cobrir a baixa revenda por duas temporadas, mas que não continuaria. Perguntado se isso impactaria o orçamento do time, ele disse: "Acho que estamos neste modo agora. E é óbvio que impactaria."
Sinais no corte de orçamento estava claros em 2002, quando McCombs demitiu Green e o substituiu com Tice, então treinador da linha ofensiva, que se tornou o técnico com o menor salário da NFL. McCombs não contratou um novo general manager depois da saída de Green e, antes do final do ano, ele pediu para representantes do banco buscarem ofertas de compra da franquia.
Este era o cenário por trás do erro de 2003. Como Tice se lembra, o presidente dos Vikings Gary Woods chamou os líderes da direção dos Vikings para a sala do draft para informá-los da ordem de McCombs. Ninguém se surpreendeu.
"Entendemos que estava de acordo com o curso das coisas", comentou Tice. "Naquela manhã, sabíamos que tínhamos que trocar aquela escolha."
Brzezinski começou a fazer ligações e recebeu um interesse leve pela sétima escolha. Na época, a ESPN noticiou conversas com Jaguars e Patriots, mas os Ravens eram o alvo mais claro, já que eles tinham interesse no quarterback Byron Leftwich, consideram o segundo melhor da classe - atrás apenas de Carson Palmer. Brzezinski intensificou as conversas, mas a melhor oferta dos Ravens - escolhas de quarta e sexta rodadas - era considerada ruim pelos especialistas da época.
O preço para correr o risco de perder um jogador desejado deveria ser muito maior. Mas, no fim, os Vikings não tiveram escolha. Eles reportaram a troca por telefone para Joel Bussert, vice-presidente da NFL, e foram informados de que os Ravens estavam fazendo o mesmo.
E eles nunca fizeram. De acordo com os Ravens, a ligação para Bussert não foi atendida.
"A troca não foi consumada", comentou o general manager Ozzie Newsome. "Uma troca não é uma troca até eu falar com Joel Bussert, e eu nunca falei com Joel Bussert."
Newsome repetiu a explicação para Brzezinski em uma ligação de telefone.
"Ozzie disse que não conseguiu falar por telefone", disse Brzezinski. Newsome, que deixou o cargo em 2018 e se tornou o vice-presidente dos Ravens, não quis comentar.
Perguntado se acredita na versão dos Ravens, Tice comentou: "Provavelmente não confio 100%. Mas é o que é. Se é o que nos falaram, como vou dizer que é besteira? Nós seguimos em frente."
Bussert, que se aposentou em 2015, não quis comentar.
"Nunca havia acontecido", seguiu Brzezinski. "Mas pode ter sido um problema no processo da liga.
Enquanto isso, os Jaguars e os Panthers entraram em ação.
Uma das funções do representante do time no local era observar o relógio do draft, que não era visível aos escritórios de todas as esquipes. Mike Perkings, diretor de vídeo dos Jaguars, estava em Nova York e começou a alertar quando os Vikings tinham apenas 20 segundos sobrando.
"A mesa de Minnesota ficava à minha esquerda, a menos de 2 metros de mim", disse Perkins, hoje diretor sênior de tecnologia dos Jaguars. "Eu estava olhando e eles ainda não tinham preenchido o cartão."
Perkins pediu para os superiores em Jacksonville mandarem um nome que ele pudesse enviar caso o tempo dos Vikings expirasse.
"Ok", eles, falaram. "Preencha com: Byron Leftwich."
Jackie Miles, então gerente de equipamentos dos Panthers, estava de olho no relógio e em Bussert.
"Quando faltavam dois minutos, eu estava avisando nossos representantes na sala de draft. Eles perguntaram se havia alguma atividade na mesa da NFL. Eu estava de olho no telefone de trocas... E eles não atendiam. Minnesota não estava fazendo nada. Nenhuma atividade. Eu falei, 'Pessoal, deixem algo pronto para mim.'"
Segundo depois dos Jaguars selecionarem Leftwich, os Panthers entregaram o cartão com o nome do offensive tackle Jordan Gross. Enquanto isso, os Vikings urgentemente falaram para Leo Lewis, diretor de desenvolvimento de jogadores, correr com o cartão com o nome de Williams. Eles selecionaram Williams com a pick 9, logo antes dos Ravens escolherem o linebacker Terrell Suggs.
Willians não sabia da sequência de eventos. Ele estava em um jantar em Arkansas, esperando seu telefone tocar, quando a namorada do irmão viu seu nome aparecer na transmissão. Foi o primeiro sinal de um problema.
"Normalmente eles ligam antes da escolha ser anunciada", disse Williams. "Mais tarde eu descobri que tinha sido uma bagunça, honestamente. Nunca perguntei para ninguém sobre isso. Não importava para mim. Se eu fosse o 7º ou o 9º escolhido, chame como quiser, eu só queria fazer meu trabalho. Eu achava que era bom o bastante e queria mostrar isso com o Minnesota Vikings."
Quando tudo acabou, Tice disse que a sala de draft dos Vikings explodiu em comemoração.
"Nosso maior medo era perder Kevin Williams. Ele era o nosso cara. Estávamos comemorando quando conseguimos, acredite", contou Tice.
Depois, ele saiu da sala do draft. Entrou nas instalações da franquia para falar com o que achou que seria uma torcida amigável, que se juntaria à comemoração.
Ele estava errado.
A FESTA ERA feita por dois membros do time de rádio dos Vikings, o narrador Paul Allen e o analista Mike Morris. Sem saber do interesse dos Vikings em Williams, Allen liderava gritos por Suggs nas horas antes da escolha.
"Acho que foi por causa de tudo com o Suggs", relembrou Allen. "E também por muitas pessoas estarem confusas, algumas tinham bebido e não sabiam o que tinha acontecido, só vaiaram muito a situação. Depois, Mike Tice chegou para ser entrevistado."
Quando Tice entrou, com seus 2,03m e um terno listrado, uma mulher se aproximou dele no palco.
"Ela estava na minha frente me chamando de filho da p***, cara. Eu estava xingado por uma vovó."
Tentando acalmá-la, Tice disse: "Ok, ok. Fique calma." E a KFAN-100.3 FM, rádio dos Vikings ainda usa o trecho do áudio como parte de seus programas.
"É engraçado... agora", admitiu Tice. Mas Allen lembra que ele estava profundamente triste no momento.
"Não tenho como confirmar, mas conhecendo o Mike, ele realmente se importava com a opinião pública. Acredito que aquelas vaias e aquela senhora xingando ficaram na cabeça dele por muito tempo."
Como evidência: em seus últimos dois drafts como técnico, Tice chamou Allen para o escritório.
"Ele falava que não queria mais gritos de Suggs, então mostrava quem eram os principais alvos e pedia para não contar para ninguém", contou Allen. "Nós sabíamos quem os Vikings queriam, e isso nos ajudava a cuidar do ambiente durante as festas."
"Eu carreguei aquilo comigo", revelou Williams. "Algo que eu usei como motivação. Queria me provar como um dos melhores do draft, mas aquilo me motivou ainda mais."
SUGGS SE TORNOU um provável futuro membro do Hall da Fama, com 139 sacks em 16 temporadas. Mas Williams se juntou à ele na lista de melhores jogadores da classe de 2003. Ele somou 10.5 sacks como calouro e foi para a seleção de All-Pro cinco vezes, além de ser seis vezes chamado para o Pro Bowl e ter garantido seu lugar no Ring Of Honor dos Vikings em 2021.
"Acho que, no fim das contas, Minnesota ainda se deu bem", disse Williams. "Se eu não tivesse me tornado um bom jogador, todos ainda estariam falando disso."
"Aposto que ninguém está reclamando da escolha agora", afirmou Tice.
Os Vikings também reforçam o fato de que Williams e McKinnie, escolha de 2002, eram titulares na última vez que o time jogou a final da NFC, em 2009. Apesar do fiasco na primeira rodada, a classe de 2003 foi a melhor da década dos Vikings. Todos os sete jogadores atuaram como calouros. EJ Henderson, selecionado na segunda rodada, foi titular em 105 jogos durante nove temporadas como linebacker. O recebedor escolhido na terceira rodada, Nate Burleson, teve uma temporada de mil jardas em 2004 e atuou por 11 anos na NFL.
Minnesota buscou, mas nunca teve uma resposta compreensiva da NFL, contou Brzezinski. Mas Bussert confirmou que, no começo de 2004, a liga adicionou várias linhas de telefone à mesa de operações do draft, algo que reforçou a explicação dos Ravens. Hoje em dia, os times enviam as escolhas digitalmente, através de um programa.
Existe alguma coisa que pode mudar a controvérsia?
"Foi uma vergonha, mas acho que o mais importante foi conseguir o cara que queríamos", comentou Brzezinski. "Tenho orgulho de nossos olheiros e treinadores por terem identificado o Kevin. Ele foi um jogador com potencial de Hall da Fama, e acabamos alcançando o que queríamos alcançar. Mas se poderíamos ter feito isso sem todo o circo e vergonha? Claro."
