Colts de Jeff Saturday encaram os Eagles neste domingo de NFL; veja pela ESPN no Star+
Talvez poucos se lembrem, mas Jeff Saturday, hoje técnico interino do Indianapolis Colts, jogou pela franquia como center. Sua carreira por lá durou 12 anos, de 1999 a 2011, com um Super Bowl na conta, três vezes escolhido para o time da temporada e seis participações em Pro Bowl.
Aposentado, Jeff resolveu trabalhar como analista da NFL e comentarista, além de ser técnico de uma escola privada nos Estados Unidos. Ele levava uma vida de ex-jogador, com bastante conforto, até que decidiu mexer um pouco as coisas.
O técnico interino dos Colts estava fazendo tudo o que podia para estar pronto no jogo de domingo, com nada mais em sua frente além disso. Mas, quando você comanda algo como uma franquia da NFL, talvez seja impossível se dar o luxo de focar em apenas uma coisa, com tantas peças e tantas pessoas diferentes para gerir.
Com os Colts no ataque, Saturday estava ocupado com o coordenador defensivo, Gus Bradley, no fone. A ideia era entender como os Colts iriam se proteger do ataque do Las Vegas Raiders na última posse de bola da partida.
Fazer blitz ou não fazer. Esta era a questão.
“Gus estava dizendo: ‘Ei, podemos ir para cima?’”, comentou Saturday, falando sobre a necessidade de mandar blitz para cima de Derek Carr, quarterback dos Raiders. Na conjuntura total que os Colts vêm enfrentando, decisões como essa podem queimar um técnico, ainda mais um interino, com zero experiência anterior.
“Cara, tem muito mais do que você imagina”, disse Saturday: “Mas você precisa estar ciente do que pode acontecer também no ataque. É algo como: ‘o que estamos falando? Faltando dois minutos? Ou já faltam quatro?’ São cenários muito diferentes, situações e mudanças que você precisa ter capacidade de decisões rápida para fazer isso na hora certa. O que você tem então?”
Toda a experiência foi, por vezes, desconcertante para Saturday, que surpreendentemente assumiu Indianapolis na semana passada, após a demissão de Frank Reich em seu quinto ano com o time. Saturday assumiu o papel sem nenhuma experiência além da equipe de escola que ele treinou durante três temporadas, de 2017 a 2019.
Agora, tudo sobre sua função é novo: o processo de planejamento do jogo; a logística do trabalho; a amplitude das responsabilidades; e, acima de tudo, o ritmo de tomadas de decisão e gestão do jogo.
“É rapido”, comentou Saturday: “Eu olhei para cima e já era o intervalo. E depois o terceiro quarto. Foram duas campanhas e eu estava meio ‘Meu Deus’. Quero dizer, foi rápido. Como jogador você não percebe isso porque você está vivendo aquele momento. Mas para um treinador, cara, o tempo voa”.
Nove dias antes, Saturday era um analista da ESPN. Depois de quase 10 anos, quando vestiu a camisa do Green Bay Packers, em 2012, ele estava de volta em um domingo de NFL no campo, mas na lateral. Como ele chegou lá? Como ele fez isso funcionar? Para onde será que tudo isso vai?
Esta é a história da primeira semana de Saturday, em um trabalho que consome tudo e para o qual não há manual. Uma semana mágica que terminou com os Colts conseguindo uma vitória improvável na estreia do antigo center da equipe como treinador.
Os Colts eram uma equipe quebrada uma semana atrás. A derrota, por 26 a 3 para o New England Patriots, no dia 6 de novembro, foi o ponto mais baixo da temporada. O quarterback de sexta rodada do draft, Sam Ehlinger, começou o jogo depois de colocarem Matt Ryan no banco. A equipe simplesmente não conseguiu uma descida nas 14 tentativas que teve. Os Colts tinham campanha de 3-5-1 na temporada.
Saturday, que era consultor dos Colts e analista da ESPN no momento, recebeu duas ligações do dono dos Colts, Jim Irsay, naquele dia. Uma durante o jogo, perguntando sobre os problemas da linha ofensiva, e outra naquela noite perguntando se ele não gostaria de ser o técnico interino.
“Chocado seria uma maneira leve de falar”, comentou Saturday, que disse ter uma longa discussão com sua mulher, Karen, e rezou para ter clareza sobre sua decisão.
Depois de algumas questões com Saturday, Irsay ligou para Reich na manhã do dia 7 e disse que não precisava mais dos seus serviços.
O gerente geral da franquia, Chris Ballard, foi até os jogadores para informá-los da decisão. A notícia deixou alguns jogadores bagunçados. Reich foi um dos poucos técnicos que aquele time de jovens conheceu na carreira. Ele sempre teve uma característica de estar próximo, ser torcedor e defendê-los, mas, agora, ele se foi.
O guard Quenton Nelson disse que se sentia parcialmente responsável pela demissão de Reich, por conta de seu desempenho inconsistente nesta temporada. As emoções vieram à tona, mas Ryan insistiu em olhar para uma outra direção. O veterano de 15 anos na liga apareceu e começou a chamar a responsabilidade no vestiário.
Matt Ryan contou à ESPN que isso “seria a coisa mais normal de se fazer”, mesmo com tudo que estava acontecendo. Ele olhou os companheiros nos olhos, sem falar de sua posição, de seu momento e conversou com todos como amigo: “Eu disse: ‘Caras, eu não tenho interesse em falar agora. Sou apenas eu.’ E eu simplesmente disse: ‘Nós somos o que nós temos aqui.’”
Este era o ambiente em que Saturday seria inserido, depois de algumas horas, com o anúncio da franquia. Foi uma contratação que seguiu de um debate “espirituoso”, segundo Ballard, entre ele e Irsay.
Se há uma coisa que as 14 temporadas Saturday na NFL lhe ensinaram, foi como ler um vestiário. Essa perspicácia lhe serviu bem em um momento crítico.
“Foi uma semana muito difícil para estes jogadores. Perder a relação que tinham com Frank é complicada em qualquer uma das circunstâncias”, comentou Saturday: “O cansaço ainda deve estar insano. Principalmente o emocional e físico neste momento da temporada. Tudo isso é complicado.”
Saturday tratou a situação com o toque delicado que deveria ser feito. Faz parte do motivo pelo qual os jogadores lhe deram uma chance, mesmo com o choque da equipe contratando alguém sem experiência e que não era técnico até o meio da temporada. Sua contratação também foi recebida com ceticismo por alguns administradores da equipe que, sem surpresa, ficaram paralizados com a surpresa. Um deles descreveu a franquia como um "show de palhaços" após a mudança.
Já havia algumas frustrações com Irsay dentro da organização desde junho, segundo algumas fontes. Tudo começou quando, publicamente, ele sinalizou querer que Carson Wentz estivesse fora da equipe.
Mais recentemente, as frustrações aumentaram quando Irsay influenciou na decisão de colocar Ryan no banco e chegaram ao pico quando ele contratou Saturday. Mas a maneira que o técnico interino chegou e deu conta do recado, com bastante humildade, pagou os dividendos que tinha com a franquia.
“Ele fez um grande trabalho no começo da semana mostrando do que se tratava a situação. Entendeu a maioria das questões que estavam ali sem problema algum, foi algo único. Além disso, sempre foi claro sobre o que gostaria de tentar e como faríamos isso”, comentou Matt Ryan.
Como o running back Jonathan Taylor explicou: “Não é apenas sobre ele chegar e ganhar várias vezes. Não é sobre quem está ali conosco. Ele só quer ver... os Colts melhorarem.”
Irsay insistiu que Saturday era o candidato perfeito para o trabalho, mesmo depois das observações feitas sobre outros treinadores. Bill Cowher, antigo técnico dos Steelers, e Joe Thomas, antigo e premiado linha ofensiva dos Cleveland Browns, estavam entre esta lista. Porém, um técnico inexperiente passou a frente e deixou todos os candidatos com a mesma distância que estavam para a franquia.
O presidente dos Colts deu várias explicações para a contratação de Saturday durante a coletiva de apresentação na semana passada, antes de ficar preso ao falar no que impulsionou sua decisão. Irsay citou uma qualidade específica: a liderança.
Ele não necessariamente sugeriu que o Reich fosse um mal líder. Apenas deixou claro que a abordagem de Saturday para ter liderança na equipe seria diferente. Onde Reich era conhecido por ajudar a construir uma confiança dos jogadores através de um reforço positivo, Saturday tem seu próprio jeito.
A convicção de Irsay, entretanto, não se baseou em nenhum dos critérios habituais pelos quais os treinadores principais são avaliados. Foi, na verdade, um instinto.
Mas instinto não coloca pontos no placar. Seria trabalho de Saturday descobrir como poderia impactar positivamente os Colts, mesmo não tendo todas as habilidades necessárias, principalmente por sua experiência, para fazer o trabalho para o qual ele foi contratado.
A solução, ele imaginou, era simples. Saturday deixou que seus assistentes técnicos se concentrassem em suas tarefas específicas e tentou não ser um impedimento, servindo como um recurso quando possível.
Mas um de seus desafios mais imediatos foi resolver as ausências técnicas dos Colts, criadas pela partida de Reich e do coordenador ofensivo Marcus Brady, que foi demitido há duas semanas. Isso significava delegar tarefas a treinadores que ele não conhecia bem. E isso exigiu que encontrasse alguém que escolhesse as jogadas ofensivas, que eram anteriormente feitas por Reich.
Os Colts primeiro se aproximaram do treinador de quarterbacks, Scott Milanovich, para assumir o comando da partida, mas não houve ajuste de salário ou mudança de título, de acordo com fontes. Milanovich, então, declinou. Os Colts então passaram para o treinador assistente de quarterbacks Parks Frazier.
Frazier abraçou a responsabilidade, mas havia um problema: ele nunca tinha feito isso na vida.
Outra grande decisão envolvia quem seria o quarterback titular. Saturday viu Ehlinger participar em todos os snaps do time titular no treino de quarta-feira, antes de Matt Ryan voltar na quinta-feira, por causa de um problema de ombro, e Saturday ficou impressionado com seu controle no ataque.
“Eu preciso sentir este bom comando em um huddle”, comentou Saturday a Ryan.
Quando a sexta-feira chegou, Saturday já tinha pensado em algo.
Ryan e os Colts responderam com seu segundo maior total de pontos da temporada, na vitória por 25 a 20. Frazier teve um desempenho impressionante contra os Raiders, de acordo com Saturday e os jogadores.
“Eu estou orgulhoso por Parks [Frazier] e eu achei que ele fez um grande trabalho”, comentou Ryan.
Saturday contribuiu na última semana motivando os jogadores e trazendo muita energia, principalmente nos treinamentos.
“Ele trouxe um nível diferente de confiança para o time”, comentou o wide receiver Parris Campbell: “Até nos dias de jogo, trazendo aqueles clipes de quando estava com Peyton Manning. Esse é o tipo de cara que ele é. Ele traz essa atitude feroz para os encontros que temos. E ele não tem medo de dizer quando você está errado. Ele não tem medo de dizer que você está mal ou faltam palavras para se expressar... Ele tem essa personalidade.”
O envolvimento de Saturday foi claro desde o primeiro instante, de acordo com o veterano da linha defensiva, DeForest Buckner.
“Quero dizer, ele me afetou”, comentou Buckner: “Ele não precisou vir com falsas pretensões para cima de mim, do tipo ‘Eu vou fazer isso, vou fazer aquilo’. Ele falou algo do tipo: ‘Olha, eu vou trabalhar duro e colocar tudo que posso em risco. Eu espero isso de vocês também.’”
Como cornerback dos Colts, Stephon Gilmore conseguiu parar o passe para Davante Adams na end zone faltando 52 segundos no domingo, vencendo a partida para Indianapolis.
Na lateral do campo, a felicidade simplesmente tomou Saturday. Ele foi abraçado pelo assistente de linha ofensiva, Kevin Mawae, cumprimentado pelos companheiros de time e tudo mais.
Enquanto a carreira de Saturday continuar, se será um sucesso ou não, só poderemos testemunhar. Mas, por enquanto, ele tem um recorde perfeito.
“É apenas uma vitória”, comentou Saturday após o jogo: “Mas, caramba, cara, elas são difíceis de serem conquistadas na NFL.”
A dificuldade de conseguir vitórias nesta liga está prestes a ser reforçada para Saturday e os Colts, que enfrentarão o Philadelphia Eagles no domingo. Depois, terão Dallas Cowboys, Minnesota Vikings e Los Angeles Chargers nas próximas semanas. Quando tudo tiver terminado, a novela da contratação de Saturday provavelmente já terá se esgotado e o foco será outro.
Outro ponto é se os Colts estão desafiando a sabedoria convencional, contratando um treinador inexperiente, pois isso dará às outras equipes algo a se pensar. Nesse sentido, os Colts são algo parecido como um teste, em que a NFL pode ver uma mudança lenta.
Mas, por enquanto, Saturday é um treinador que está descobrindo isso enquanto faz seu trabalho dia após dia.
