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Da luta contra o racismo às diferenças entre astros e 'jogadores comuns': o retorno da NBA é mais complexo do que parecia

Houston, we have a problem. Ou melhor dizendo: Orlando, a NBA tem um problema!

Dias atrás, quando os donos dos times aprovaram o plano de retorno da temporada, fãs ao redor do mundo comemoraram a notícia. O formato, tão inusitado quanto a pandemia de coronavírus, leva a uma bolha na Disney 22 times competindo por uma vaga nos playoffs em mais oito jogos regulares. Pareceu a solução possível diante da imprevisibilidade do atual cenário.

Só faltou acordar com os protagonistas da liga: os jogadores. Por mais que o apoio ao retorno tenha sido maciço, há um impasse: um número significativo de atletas tem ressalvas quanto ao planejamento.

Em uma videoconferência da qual participaram mais de 80 atletas da NBA, alguns expressaram preocupações relacionadas à saúde e até avaliaram que o momento não é propício para pensar em esportes - com os Estados Unidos em meio à agitação nacional decorrente da morte de George Floyd em ação policial.

TUDO POR UMA CAUSA

A voz mais expressiva defendendo essa bandeira é a do armador do Brooklyn Nets, Kyrie Irving.

Ele é vice-presidente da NBPA, a associação dos jogadores da NBA, e usou a chamada para dizer claramente que é contrário ao retorno do campeonato.

“Eu não apoio a ida a Orlando. Eu não estou com o racismo sistemático e as besteiras... Quer você admita ou não, nós - como homens negros - somos alvos todos os dias em que acordamos”, diz o astro, que está fora da temporada após realizar uma cirurgia no ombro em março.

A ideia de deixar o basquete por uma causa tem precedentes dentro do próprio universo recente do basquete.

A bicampeã olímpica e tetracampeã com o Minnesota Lynx, Maya Moore, fez exatamente isso. Ela interrompeu o auge da carreira no basquete no início do ano passado para ajudar a libertar um homem negro que acreditava ter sido preso injustamente.

Jonathan Irons foi condenado ainda adolescente a 50 anos de prisão por um suposto assalto com uso de arma de fogo. Não houve testemunhas, impressões digitais ou traços de DNA que corroborassem com o envolvimento de Irons no crime. A esportista ajudou a pagar o advogado de defesa e até compareceu a audiências do caso. Após cumprir quase metade da pena, três meses atrás, a justiça anulou a sentença.

Embora o racismo estrutural seja parte intrínseca do caso, Maya Moore escolheu o ostracismo para se dedicar a uma causa pontual e muito diferente da árdua tarefa de extinguir uma cultura de injustiça social enraizada por séculos.

Ao longo de sua carreira com Cleveland Cavaliers e Boston Celtics, Irving ganhou a fama de desagregador, treinando sozinho, brigando com colegas e até almejando (e conseguindo) uma ruptura com um dos maiores companheiros de equipe que já teve, LeBron James.

Mas a questão levantada é considerada válida para muitos de seus colegas, que veem o timing perfeito para alterar significativamente o cenário.

Outro vice-presidente da associação da categoria, Malcolm Brogdon (Indiana Pacers) falou no podcast ancorado por JJ Redick - veterano que hoje atua pelo New Orleans Pelicans - sobre uma série de jogadores estarem cogitando seriamente não ir para a Disney:

“Alguns caras vão dizer: 'Por motivos de saúde, diante da pandemia de COVID-19 e seus efeitos a longo prazo que não compreendemos ainda, quero ficar de fora.' Outros dirão: 'A comunidade negra está passando por muita coisa para eu me distrair com o basquete. Eu não vou priorizar isso sobre a comunidade negra, vou ficar de fora’."

As redes sociais alimentam a discussão. Lou Williams (Los Angeles Clippers), Jae Crowder (Miami Heat), Dwight Howard e Avery Bradley (ambos do Los Angeles Lakers), entre outros, concordam que retomar os jogos seria uma distração na luta contra o racismo estrutural, quando há um holofote inegável sobre o movimento Black Lives Matter (Vidas Pretas Importam).

82% dos jogadores da liga norte-americana de basquete são negros.

SAÚDE EM PRIMEIRO LUGAR?

No que diz respeito à saúde, o líder do Utah Jazz, Donovan Mitchell, se disse preocupado quanto à retomada dos jogos pelo alto risco de lesões, levando em consideração os meses parados sem jogos reais e competitivos. Isso poderia interferir diretamente na provável oferta do Utah Jazz de extensão com contrato máximo ainda neste ano.

Na intertemporada, o Jazz surgiu como forte concorrente no Oeste ao adicionar ao elenco de Mitchell e Rudy Gobert os veteranos Mike Conley Jr e Bojan Bogdanovic. Mas a junção, que no papel parecia excelente, não rendeu tanto quanto esperado, especialmente por causa das dificuldades de adaptação de Conley. Mesmo na 4ª posição da conferência, parece improvável pensar na equipe levantando o troféu.

A química é outro fator questionável para Utah. Quando o francês Rudy Gobert testou positivo para o coronavírus, Donovan Mitchell também descobriu estar infectado e não gostou nada do comportamento do pivô, que chegou a minimizar a doença e tocar deliberadamente nas coisas dos companheiros no vestiário e também em microfones de jornalistas durante uma entrevista coletiva.

Mitchell e vários jovens talentos, a exemplo de Kyle Kuzma (Los Angeles Lakers), Jayson Tatum (Boston Celtics), Bam Adebayo (Miami Heat) e De'Aaron Fox (Sacramento Kings), tentam negociar para a rodada em Orlando um seguro preventivo contra lesões que possam ameaçar suas carreiras.

Isso sem falar na preocupação com o próprio coronavírus. A Flórida é um dos estados norte-americanos a registrar aumento do número de casos da doença. A princípio, as regras estabelecidas para os times na bolha não incluem os funcionários do Walt Disney World. Ou seja, eles poderão entrar e sair livremente do complexo, ampliando o risco de exposição ao vírus.

TÉCNICOS VETERANOS

Ainda é incerto como ficará a situação dos técnicos que fazem parte do grupo de risco, como Gregg Popovich, Mike D’Antoni e Alvin Gentry, que já passaram dos 60 anos de idade.

Aí reside um dos maiores impasses do plano: permitir que esses profissionais atuem ou vetar a permanência deles à frente dos times que acompanham há anos?

Se por um lado a segurança deve ficar em primeiro lugar, por outro a exclusão pode afetar não só o desempenho dos respectivos times como interferir até em futuras oportunidades de trabalho, a depender dessa performance. Vale lembrar que Mike D’Antoni, por exemplo, só tem contrato garantido com o Houston Rockets até o final desta temporada. A renovação ou não com a franquia está diretamente ligada aos resultados nos playoffs. A partir disso, o modelo proposto pela NBA mostra que tem suas brechas no que diz respeito à equidade para os competidores.

Todos os integrantes das equipes terão a opção de usar um anel que mede a frequência cardíaca e respiratória, para monitorar a chance de contrair a infecção. Será instalada uma linha anônima para denunciar quem desrespeitar os protocolos de segurança.

O OUTRO LADO DA MOEDA

Há também, claro, quem vê menos problemas: os atletas ávidos pelo reinício da NBA.

À frente deles LeBron James, dono da voz mais poderosa da liga na atualidade.

Vale lembrar que o Los Angeles Lakers é um dos favoritos ao título, na primeira posição da Conferência Oeste. No ano passado, James ficou de fora dos playoffs pela primeira vez desde 2005. Nesta temporada seu desempenho é digno do prêmio de MVP – é de se entender que “o Rei” prefira não abrir mão desta conjuntura favorável aos 35 anos de idade. Essa é, possivelmente, uma das suas últimas e melhores chances de título.

LeBron é uma das figuras mais politizadas do esporte. E ele acredita ser possível lutar por igualdade racial enquanto busca o troféu. De fato, é o que tem feito há tempos. Seja usando uma camiseta com os dizeres “eu não consigo respirar” - para protestar contra a violência policial em alusão ao assassinato de Eric Garner (afro-americano morto asfixiado por um policial em Nova York em 2014) -, seja conscientizando seus 65 milhões de seguidores no Instagram sobre o porquê da onda de protestos ser necessária até agora.

Isso sem falar de sua iniciativa em abrir uma escola em Akron, sua cidade natal, para ajudar crianças carentes a terem uma oportunidade de crescimento como a que o esporte deu a ele.

O esporte serve como uma plataforma para atingir bilhões de pessoas nas mais variadas partes do mundo. Estar em quadra poderia servir como estratégia para propagar as mensagens que precisam ser passadas, coisa que o ostracismo não permitiria.

Para Patrick Beverley, apesar do debate, só a opinião do astro dos Lakers importa, ratificando a força que ele tem. Nas redes sociais, o armador do Los Angeles Clippers escreveu: “Digam o que quiserem, se LeBron falou que vai jogar, todos vamos jogar. Nada pessoal, são só negócios”.

Companheiro de Lakers de James, o pivô Dwight Howard tem vocalizado constantemente que está em outro lado nessa discussão. Ele não acredita exatamente que o posicionamento irá barrar o reinício da NBA, mas defende a liberdade de expressão daqueles que não estão confortáveis o suficiente para falar o que pensam.

Há ainda outra perspectiva na mesa a favor do restart da NBA - a dos profissionais que não são estrelas e, sim, peças complementares das equipes.

O ala-pivô do Utah Jazz, Ed Davis, representa bem essa categoria. Veterano, ele atua há dez anos como um role player, com passagens por diversos times. As atuações sólidas contribuem com o todo, mas não o colocam no seleto grupo dos melhores do jogo.

Davis ponderou que é fácil para colegas como Kyrie Irving e Dwight Howard (que já assinaram contratos máximos na carreira) dizerem que pretendem focar na reforma social.

"Há outros caras na lista que precisam desse dinheiro para prover o sustento aos seus. É fácil para as superestrelas dizerem como se sentem sobre isso ou aquilo. Mas o retorno significa muito mais quando se trata dos jogadores comuns. Existem tantas perspectivas diferentes porque existem muitos níveis diferentes na NBA. Então, é fácil para os astros dizerem que não vão jogar e tudo bem. Mas alguns não conseguem fazer isso”, afirmou.

Os jogadores já estão desde maio com uma redução salarial de 25% por causa da paralisação.

Há mais em jogo do que apenas o título de campeão de 2019-20. Com os 88 jogos regulares previstos em Orlando, a National Basketball Association ainda perderá cerca de U$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão). O valor é metade do prejuízo estimado caso o resto do torneio fosse inteiramente cancelado.

Assim, a bola deve subir em breve, mas ainda não se sabe bem sob quais circunstâncias.

Um esforço está sendo feito para conciliar todos os interesses envolvidos. Um informe enviado para as 30 equipes diz que “um objetivo central do recomeço será utilizar a plataforma da liga para chamar atenção e criar ações prolongadas ao combate de injustiças sociais”.

Os jogadores que escolherem não participar têm até o dia 24 de junho para notificar seus respectivos times. Nenhuma multa será aplicada a quem ficar de fora.

Diante da conjunção de tantos fatores, fazer uma leitura unilateral da situação é impossível.

Quando a NBA paralisou as atividades em março, conter o vírus era a única premissa para o retorno à normalidade. Mas, com o turbilhão de acontecimentos dos últimos meses, está claro que continuar de onde paramos não será tão simples assim.