A crise enfrentada pelo Golden State Warriors nesta semana deixou clara uma coisa importante, e não se trata do temperamento de Draymond Green ou da fragilidade de Kevin Durant com palavras dos outros.
É o seguinte: Durant é a pessoa mais poderosa da NBA.
Desde que Shaquille O'Neal virou a liga de cabeça para baixo ao ir para o Los Angeles Lakers em 1996, a força mais poderosa da NBA tem sido as mudanças de grandes estrelas através da free agency. A ida de LeBron James para o Miami Heat em 2010 só serviu para reforçar isto.
Em uma era que está marcada por estrelas trocando de time ano após ano, nenhum outro jogador teve em suas mãos o equilíbrio da liga como Durant terá quando se tornar agente livre no final desta temporada. Ele foi MVP das duas últimas Finais que não só mudaria o futuro do seu novo time, como poderia destruir uma das grandes dinastias da história da liga com uma simples decisão.
Imagine se Michael Jordan não tivesse se aposentado em 1993, mas, em vez disso, fosse para o Atlanta Hawks de Dominique Wilkins. Ou se Magic Johnson tivesse ido para o Dallas Mavericks de Mark Aguirre em 1985. Ou se Larry Bird fosse para o Philadelphia 76ers de Charles Barkley e Julius Erving em 1986.
Um paralelo possível para Durant é o que Kobe Bryant viveu em 2004, mas nem assim a comparação é perfeita. Naquela época, os Lakers não haviam vencido um título nos dois anos anteriores, e a maioria das franquias não tinham espaço na folha salarial para convencer Kobe - diferentemente do que Durant terá pela frente em 2019.
A única verdadeira ameaça na época de Kobe era o LA Clippers, e a simples possibilidade de algo acontecer fez o dono dos Lakers, Jerry Buss, trocar Shaquille O'Neal em seu auge. Foi algo extremamente ousado e surpreendente, mas ainda longe do que está acontecendo agora.
Durant pode deixar para trás um tricampeonato com Golden State em um time que tem outros dois futuros jogadores de Hall da Fama ainda vivendo seus melhores momentos. Isso tudo no ginásio que deve ser o mais incrível da NBA: o Chase Center, que será inaugurado em 2019-20 com um custo estimado de um bilhão de dólares (R$ 3,74 bilhões).
A capacidade de dizer não para tudo isso é a mais poderosa que pode existir no esporte norte-americano. Não há qualquer tipo de precedente.
A realidade não é confortável para os Warriors. Você acha que Green não estava pensando em tudo isso antes de explodir na discussão com Durant? Acha que as brincadeiras do dono dos Warriors Joe Lacob sobre a renovação de Durant, logo na noite de abertura de temporada, não aconteceram baseadas em alguma preocupação? Ou pensa que LeBron James ter falado com Durant sobre jogar nos Lakers antes do começo da temporada foi apenas um rumor?
Todos na liga sabem que Durant deve ir embora no ano que vem. Da mesma forma que todos sabiam que LeBron deixaria o Cleveland Cavaliers. A diferença é que ele não abriu mão de um time que está defendendo os últimos títulos. E todos sabem disso.
Mas Durant, assim como LeBron, já mostrou que tem coragem de ir embora. Talvez você não leve sério a chance dele sair, afinal ninguém nunca abandonou um time tricampeão (tecnicamente Jordan sim, duas vezes com aposentadorias). Mas você pode não estar pensando no que Durant teve de fazer para virar as costas para o Oklahoma City Thunder. Se ele fez aquilo, pode fazer qualquer coisa.
Talvez não, certo? Talvez Durant renove por cinco anos e mais de 200 milhões de dólares quando a free agency começar no primeiro dia de julho do ano que vem. Talvez os Warriors entrem em um momento mágico, ganhem mais três títulos nos próximos quatro anos - assim como levaram três dos últimos quatro. Talvez Durant ou Green acabem como padrinhos de casamento um do outro. Na NBA, imaginar algo, principalmente na free agency, é algo fútil.
Mas a questão não é esta. A questão é que agora, neste momento da história, Durant tem mais controle sobre o futuro da liga do que qualquer outro jogador que já vimos. Mais do que qualquer dono ou comissário.
O que estamos vendo é a definição de poder.
