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O Atlas de LeBron James na NBA: como o Rei deixou de ser um arremessador medíocre para se tornar um gênio no ataque

Desde que entrou na NBA, em outubro de 2003, LeBron James deixou de ser um dos pontuadores mais eficientes da liga para se tornar uma mente ofensiva hiper-eficiente, que domina defesas rivais com uma mistura incrível de força no garrafão e criação de arremessos no perímetro.

Neste dia 29, ele completa 15 anos de profissional. E há poucas coisas que LeBron ainda precisa provar.

Por isso, vamos entrar na jornada da sua grandeza ofensiva e o que isso significa para seu novo desafio nos Lakers. Vamos começar bem do começo.


Como LeBron mandava no garrafão

Dois dias depois de Lonzo Ball fazer seis anos de idade, James estreava na NBA em Sacramento. Ele não demorou para entrar no ritmo. Depois de receber um bloqueio de Carlos Boozer com três minutos de jogo, LeBron subiu para seu primeiro arremesso, na base do garrafão. Era o começo do sucesso do garoto de Akron.

Desde sua primeira cesta, James tentou 22.382 arremessos de temporada regular antes de 2018-19. Ele acertou 11.279. LeBron já ultrapassou Dirk Nowitzki para se tornar o 6º maior cestinha da história da NBA. Se permanecer saudável, ainda pode deixar para trás Wilt Chamberlain e Michael Jordan para acabar a temporada como o 4º colocado.

Mas James teve seus problemas pontuando na temporada de calouro. Dos 46 jogadores que tentaram pelo menos mil arremessos naquele ano, ele foi o 41º em eficiência de field goals. A tela com seus arremessos mostra como o jovem jogador ainda era um chutador medíocre e pouco acima da média no garrafão. Ele ainda não havia aprendido a usar seu tamanho e velocidade para conseguir cestas fáceis ou ir para a linha de lance livre - e dizer que seu arremesso era ineficiente ainda seria um elogio.

Ele ainda não era rei. Veja estas três estatísticas dignas de um plebeu:

  • De 74 jogadores que tentaram pelo menos 200 arremessos de três, James foi o 72º com aproveitamento de 29%

  • De 126 jogadores que tentaram pelo menos 200 arremessos de meia-distancia, James foi o 119º com aproveitamento de 33,2%

  • Dos 114 jogadores que tentaram pelo menos 200 arremessos na área restrita do garrafão, James foi o 72º com aproveitamento de 57,5%

Até hoje, sua temporada de calouro foi a pior da carreira em aproveitamento de arremessos, média de lances livres e eficiência - entre outros números. Mas em sua segunda temporada, James melhorou em praticamente todas as categorias de estatísticas importantes.

Ele mostrou o monstro que se tornaria pontuando com mais força dentro do garrafão, sofrendo mais faltas e forçando menos arremessos. Sua média nas bolas de três pontos foi de terrível para mediana - apesar de mostrar números promissores na zona morta', ele ainda era fraco no restante do perímetro:

A habilidade de James para pontuar se tornou rapidamente sua grande marca. Na primeira série de playoff da carreira, contra os Wizards em 2006, ele acertou dois arremessos importantes nos minutos finais para comandar a vitória. Ele venceu o Jogo 3 - seu primeiro fora de casa nos playoffs - com uma infiltração que passou por um drible brutal para se livrar de Antonio Daniels e uma bandeja sobre Michael Ruffin. Ele venceu o Jogo 5 quando atacou a cesta rapidamente em um lance que exigiu velocidade, força e aquele 'toque' para converter a bandeja com 0,9 segundo para o final da prorrogação.

A chave para desbloquear seu potencial como um jovem pontuador era simples: encontrar maneiras de usar seus pontos fortes, que eram baseados na habilidade de pontuar perto da cesta. A história de como James deixou de ser um calouro ineficiente para ser um campeão passou pela história de como um jogador aprendeu a atacar defesas com uma mistura de velocidade e força. Essa ainda é a chave para ele hoje.

Na temporada 2007-08, LeBron foi o único jogador a tentar mais de 600 arremessos na área restrita do garrafão. No caminho para se tornar o cestinha da temporada, ele foi quem mais acertou arremessos no ano (794), mas 55,4% (440) deles foram nesta mesma área restrita. James se tornou o melhor jogador do mundo pontuando no lugar onde as defesas da NBA mais tentam proteger. Quem precisa de um bom arremesso quando se consegue pontuar tão bem dentro do garrafão?

Em 2008, ele já havia notado seu potencial como jogador. LeBron era realmente a estrela mais versátil do mundo. Em 2008-09, ele liderou seu time em pontos, rebotes, assistências, roubos e tocos. Isso é incrível. Mas também mostra que ele não tinha o melhor dos elencos ao seu redor. Chegando no seu auge, ele trocou Cleveland por Miami. Em um ambiente muito melhor, o que veio a seguir foi o melhor LeBron James. Ao lado de Chris Bosh e Dwyane Wade, James poderia passar os arremessos mais difíceis que tinha quando jogava com um elenco mais fraco.

Nos dois últimos anos dele em Miami, teve as menores médias da carreira de arremessos tentados por jogo. Ele se tornou obcecado pela eficiência, especialmente em 2012-13, quando venceu seu segundo título. Olhe para este mapa praticamente todo vermelho. Uma obra de arte em sua essência:

James não era mais o foco completo do ataque. Ele aprendeu a jogar sem a bola. Aprendeu a ser mais seletivo com seus arremessos. Um luxo que veio ao jogar em um grande time. Olhe o que o especialista em LeBron, Brian Windhorst, escreveu em maio de 2013, quando James venceu seu quarto prêmio de MVP:

"Menos arremessos ruins, mais arremessos bons, mais tentativas dos lugares onde ele aprendeu que era bom contra certas estratégias defensivas, menos tentativas contra estratégias feitas para levá-lo às decisões ruins..."

O auge de LeBron se manifestou quando seu cérebro, seu corpo e seu jogo se alinharam em Miami. Depois de anos sendo um arremessador ruim ou mediano nas bolas de três, foi lá que James finalmente teve bons números do perímetro. Em 2012-13, 55% de suas bolas de três aconteceram depois de assistências. No ano passado, em Cleveland, foram só 36%.

E mesmo que ele nunca tenha se aproximado dos números de Stephen Curry, isso pode não ser tão importante. As estatísticas de James próximas à cesta são tão assustadoras quanto as de Curry arremessando de longe.

Nas 10 temporadas entre 2008-09 e 2017-18, James foi o líder da NBA em pontos no garrafão seis vezes, incluindo a temporada passada, quando ele fez 534 field goals na área restrita. Não só foi o maior número da carreira de LeBron, mas o maior desde Shaquille O'Neal em 1999-00. Na época, todos sabiam que Shaq era o pontuador mais dominante do planeta. Mas este título pertence a LeBron há uma década:

Isso não significa que James não consiga criar arremessos no perímetro. Na verdade, esta é uma de suas melhores habilidades.

Um tipo diferente de especialista nas bolas de três

Uma das coisas que ajudaram LeBron a superar sua mediocridade como arremessador foi sua habilidade como criador. Provavelmente o melhor passador para bolas de três na história da NBA.

Na temporada passada, James Harden liderou a NBA com 265 bolas de três. É um grande número - que ajudou Harden a ser MVP -, mas James liderou a liga em assistências para bolas de três, com 344. Nas cinco últimas temporadas, Curry se tornou o novo grande nome entre os cestinhas, com incríveis 1.485 bolas de três desde a temporada 2013-14. Mas neste período, James criou assistências para 1.318 cestas de três.

Todos sabem que LeBron é um grande passador. Poucos jogadores recebem tanta atenção quanto ele. Enquanto as defesas tentam impedir suas infiltrações dobrando a marcação, James aprendeu a punir estas estratégias soltando passes nos momentos certos para arremessadores livres. Contra ele, você precisa escolher: ou deixa que ele passe pelo defensor no um contra um e pontue tranquilamente próximo à cesta, ou dobra a marcação e deixa que ele crie jogadas para seus companheiros de time. Os Cavs e o Heat fizeram um bom trabalho colocando especialistas em arremessos do perímetro ao lado de LeBron. Afinal, você não gostaria de deixar Kyle Korver ou Ray Allen livres. E isso abre espaço para James atacar a cesta.

Em sua 16ª temporada, é justo perguntar se seu novo grupo de colegas de time vai ajudar a aumentar seu legado como um dos melhores pontuadores dentro do garrafão ou como um dos grandes criadores de cestas de três.

Na temporada passada em Cleveland, Kevin Love (cinco vezes All-Star), J.R. Smith (extremamente talentoso) e Kyle Korver (fenomenalmente preciso nos arremessos) ficaram com mais da metade de suas assistências para bolas de três. Mas eles ficaram nos Cavaliers, e não se sabe se o time montado nos Lakers é bom o bastante no perímetro para aproveitar as habilidades únicas de James.

O que vai acontecer quando seus passes acabarem nas mãos de seus novos colegas de time?

Uma dose de pessimismo é necessária. Durante a pré-temporada, os arremessadores mais ativos dos Lakers foram Kyle Kuzma, Josh Hart, Kentavious Caldwell-Pope e Svi Mykhailuk - juntos, acertaram só 28% dos 81 chutes de três pontos que tentaram, contra 32,6% do time completo.

A questão não é se os Lakers vão melhorar. Claro que eles vão. A questão é o quanto eles vão melhorar. No ano passado, tiveram o 23º ataque mais eficiente da liga, principalmente pelos números ruins no chutes de longa distância. Isso precisa mudar, e não deve haver uma estratégia melhor do que entregando o ataque para quem mais cria arremessos livres de marcação.

O nível de evolução depende das habilidades de um grupo de arremessadores que ainda não se provaram. Se Caldwell-Pope, Kuzma e Hart acertarem seus chutes de três, este experimento pode funcionar. Se não conseguirem, Magic Johnson e LeBron terão de encontrar novas formas de armar o perímetro com peças para LeBron.