EU ESTAVA ME ACOTOVELANDO com um bando de jornalistas e ficando para trás, em meio a um mar de microfones, durante a coletiva de imprensa da edição 2018 do All-Star Game (Jogo das Estrelas) da NBA, em Los Angeles.
Não parecia o ambiente ideal para abordar um tema tão sensível e pessoal quanto a saúde mental, mas, três semanas antes, em Cleveland, Kevin Love, o ala-pivô dos Cavaliers, havia dado a entender que talvez estivesse pronto para compartilhar. Naquela ocasião, eu estava entrevistando Channing Frye, no vestiário do Cavs, sobre sua depressão após o falecimento dos pais. Sentado ao lado, Love escutava nossa conversa atentamente.
“Todo mundo passa por alguma coisa”, disse ele, enigmaticamente, enquanto eu me levantava para partir.
Agora, Love estava sentado em um palanque, em um salão no Staples Center, em frente a uma longa cortina preta, respondendo a perguntas inofensivas sobre sua rotina de treino. Consegui chegar à frente do bando e fiz algumas perguntas iniciais a respeito de Frye. Quando Love reconheceu que a sinceridade de Frye era “um passo importante” para tratar da saúde mental, e eu encontrei minha abertura.
“Você já procurou auxílio profissional?”, gritei em meio à loucura da coletiva de imprensa do Jogo das Estrelas.
De repente, silêncio. O murmúrio incessante nos púlpitos ao redor persistia, mas, em volta do espaço de Kevin Love, todos pararam, se viraram... e aguardaram. Love fixou os olhos em mim, hesitou um pouco e, então, endireitou os ombros largos e se aproximou do microfone.
“Sim”, respondeu com firmeza.
Assim começou a jornada pública de Love como porta-voz não- oficial (e eloquente) da NBA sobre a saúde mental. Quando Love e DeMar DeRozan decidiram sair das sombras e revelar suas dificuldades, a NBA entrou em um caminho importante de autodescoberta. Isso levou a NBPA (National Basketball Players Association, Associação Nacional de Jogadores de Basquetebol) a contratar o Dr. William Parham como seu primeiro diretor de saúde mental e bem-estar. Isso também convenceu o comissário Adam Silver e a diretora do sindicato Michele Roberts de que a elaboração de uma política abrangente de saúde mental precisa ser uma prioridade.
No entanto, ainda há muitos obstáculos a confrontar, sendo o maior deles o estigma associado à saúde mental que faz com que muitos jogadores sofram em silêncio. O sindicato também insiste que o tratamento da saúde mental seja confidencial, mas alguns proprietários de times da NBA – que, em alguns casos, pagam centenas de milhões de dólares aos seus jogadores – querem ter acesso aos arquivos dos seus “investimentos”. A liga não tem a mesma opinião. “A NBA é totalmente a favor de proteger a confidencialidade das informações sobre saúde mental dos jogadores e, consequentemente, confirmou à Associação de Jogadores que qualquer programa de saúde mental que realizarmos agirá dessa maneira", anunciou Mike Bass, o porta-voz da NBA.
Para Love, a confidencialidade não deve ser negociável. Sem ela, explica, nunca teria se sentido à vontade para anunciar, no palanque do Jogo das Estrelas, que estava buscando tratamento.
Segundos após a declaração de Love naquele dia, sinalizei freneticamente para Tim Frank, o vice-presidente sênior de comunicações da NBA, e para BJ Evans, o diretor de comunicações do Cleveland Cavaliers, que precisava de um momento a sós com o ala-pivô do time. Esse momento a sós se transformou em 25 minutos de uma conversa honesta por trás das cortinas (literalmente) com um dos mais talentosos jogadores da atualidade.
Enquanto LeBron James, Kevin Durant e James Harden respondiam a perguntas sobre seus vinhos preferidos, as enterradas mais incríveis e as melhores cidades para se comer sushi, Love e eu nos sentamos no santuário dos jogadores, logo atrás deles, e tratamos de um dos assuntos mais urgentes para a NBA – e para a sociedade como um todo. Enquanto Love explicava que a maior parte de sua ansiedade social ocorria fora das quadras, Steve Nash, o mais novo integrante do Hall da Fama, chutava alegremente uma bola de futebol para o outro lado do salão, inconsciente do assunto complexo que estávamos discutindo.
“Sofro de ansiedade, mas também venho de uma família com histórico de depressão", ele me contou naquela tarde de fevereiro. “É difícil falar sobre isso. É difícil enfrentar. Eu finalmente disse a mim mesmo: ‘Essas coisas vão lhe afetar durante toda a vida. Como você vai lidar com elas?’”.
As dificuldades de Love eram um dos segredos mais mal guardados no mundo dos esportes. Três meses antes, ele havia sofrido um ataque de pânico durante um jogo contra o Atlanta Hawks e precisou sair repentinamente de quadra. Também deixou o time em janeiro, após uma partida contra o Oklahoma City, levando os então companheiros Dwyane Wade e Isaiah Thomas a confrontá-lo a respeito da sua doença misteriosa. No entanto, Love afirma que não sofreu um ataque de pânico durante aquela partida.
Os dois incidentes forneceram um material excelente para as esposas fofoqueiras da NBA – e seus maridos – que tagarelaram avidamente sobre a saúde mental de Love durante os intermináveis eventos relacionados ao Jogo das Estrelas. Apesar das demonstrações de apoio encorajadoras depois que ele anunciou publicamente que sofria de ansiedade e depressão, o ceticismo e um leve escárnio persistiam nos bastidores. Alguns companheiros não aceitaram a desculpa da saúde mental para Love ter abandonado a equipe no meio de um jogo. As duras críticas foram cruéis – e provam que o estigma da saúde mental permanece vivo por trás das portas fechadas dos vestiários da NBA.
Love está bem ciente desse estigma. O tema da saúde mental nunca foi discutido entre seus familiares, apesar do histórico de depressão que, em sua opinião, foi passado de geração em geração. Love conta que o único comportamento aceitável era “parar de reclamar e enfrentar a situação”.
“Não deveria ser um tabu, mas é exatamente isso”, ele me explicou durante o All-Star Weekend, o Fim de Semana das Estrelas. “Penso no meu pai [o ex-jogador da NBA Stan Love], vindo daquela geração. Não se falava sobre nada. As pessoas guardavam tudo para si.”
Eu lhe perguntei como seu pai havia reagido à revelação de que ele sofre de ansiedade.
“Veremos”, disse Love, dando de ombros. “Eu ainda não disse para ele”. (A verdade é que Love não fala muito com o pai).
A sinceridade de Love foi impressionante e surpreendente. Porém, quando mencionei o ataque de pânico em novembro, no jogo contra o Atlanta, seu comportamento mudou. As respostas se tornaram curtas e evasivas, sua mandíbula endureceu e os olhos passearam pela sala, como se ele procurasse uma saída apressada. Ficou claro que Kevin Love ainda não estava pronto para falar desse assunto. Concordamos em abordá-lo mais tarde, quando ele se sentisse mais à vontade.
“Sim, obrigado”, concordou, visivelmente aliviado. “Acho que é uma boa ideia”.
Três semanas depois, recebi uma mensagem de texto de Love. Ele havia decidido revelar suas dificuldades no The Players' Tribune. “Senti”, explicou-me depois, “que precisava falar sobre isso com minhas próprias palavras”. No artigo, Love detalhou o ataque de pânico durante o jogo com o Hawks, que disse que “começou do nada”. Ele admitiu que estava enfrentando problemas familiares, tendo dificuldade para dormir e sentindo o peso das expectativas em relação à temporada do Cleveland. O resultado, disse ele, foi uma “grande tempestade” de problemas que o deixou sem ar e com o coração disparado. Love escreveu que, depois de sair da quadra, estava “correndo de sala em sala, procurando por algo que não conseguia encontrar”.
Ele revelou que começara a consultar um terapeuta e que essa decisão havia sido muito benéfica.
Em outra entrevista com a ESPN, recentemente, em Los Angeles, Love forneceu mais detalhes do ataque de pânico. Depois de correr de sala em sala em completo pânico, ele conta que finalmente desmaiou no chão do vestiário.
“Meu coração estava saindo do peito”, relata Love. “O ar não chegava aos pulmões. Enfiei o dedo na garganta para tentar limpá-la.
“Foi assustador. Achei que estava tendo um ataque cardíaco. Senti muito medo. Realmente pensei que fosse morrer naquele momento.”
Love conta que Steve Spiro, chefe de preparação física dos Cavs, o encontrou caído no chão. “Ele tentou me acalmar, mas não sabia o que fazer”, diz Love. “Me perguntou: ‘Como posso ajudar você a respirar?’”.
O time transportou Love ao hospital. Todos os sinais vitais estavam normais. O coração estava bem. Os companheiros de equipe ficaram confusos e irritados. “Eles não faziam ideia do que estava acontecendo”, conta Love.
Love ainda não se sentia pronto para lhes explicar, da mesma forma que empacou quando nós dois estávamos conversando nos bastidores em Los Angeles.
“Fiquei muito incomodado por não ter conseguido terminar nossa conversa durante o Jogo das Estrelas”, ele me disse depois do artigo no The Players' Tribune. “Voltei para casa e me perguntei: ‘Por que ainda estou escondendo isso? Por que não consigo me abrir?’”.
Kevin Love não está sozinho. John Lucas, assistente técnico do Houston Rockets e jogador aposentado da NBA que enfrentou o vício em álcool e drogas e, atualmente, administra um programa de cuidados e bem-estar para atletas, estima que mais de 40% dos jogadores da NBA têm problemas de saúde mental, porém menos de 5% buscam ajuda. (Quando perguntaram a Parham, o diretor de saúde mental e bem-estar da Associação de Jogadores, se ele achava que Lucas estava exagerando o problema, sua resposta foi: “Nem um pouco”).
Segundo Lucas, esses problemas podem levar diretamente ao abuso de álcool e drogas.
“É uma epidemia na nossa liga”, diz ele. “Estou falando de tudo, desde DDA até bipolaridade, ansiedade e depressão.”
Após conversas com dezenas de técnicos, proprietários de times e diretores gerais, está claro que os problemas de saúde mental chegaram a todas as franquias da NBA. Também está claro que muitos jogadores optam por ignorar seus sintomas ou não tratam os problemas de saúde mental com o mesmo cuidado que dedicariam a um punho quebrado ou lesão no joelho.
“Tenho três caras na minha equipe – dois recebendo medicação”, contou-me um técnico da Conferência Leste. “Em alguns dias, eles estão bem. Em outros, não. Estou tentando agir com o máximo de sensibilidade, mas não sou médico nem psiquiatra e, às vezes, me pedem para ser.” Talvez o maior desafio para as equipes da NBA não seja identificar quem necessita de ajuda. Mas sim convencer esses jogadores de que eles precisam de ajuda. “Podemos oferecer todos os serviços do mundo”, explica Danny Ainge, diretor geral do Boston Celtics, “mas não conseguiremos ajudá-los se eles não os utilizarem. Muitos desses caras não percebem o quanto precisam de ajuda até que seja tarde demais.”
As revelações públicas de Love, Frye e DeRozan são um avanço positivo, assim como as dezenas de jogadores anônimos que decidiram buscar ajuda anonimamente. Entretanto, o renomado jogador que abandona intermitentemente o medicamento para bipolaridade por que detesta a maneira como se sente ao tomá-lo ainda não entendeu a gravidade da sua condição mental atual. Tampouco o armador veterano que insiste que seus problemas de “controle da raiva” não constituem um problema de saúde mental.
“As pessoas lidam com isso de formas diferentes”, explica Love. “Todo mundo precisa tirar suas próprias conclusões sobre a hora de enfrentar o problema. Uma das minhas séries de TV favoritas é ‘Família Soprano’. Estou sentado, assistindo, e James Gandolfini vai consultar uma terapeuta. Ele diz: ‘M----, não preciso disso’. No final, está dizendo: ‘preciso mais’."
“É mais ou menos assim que estou me sentindo”.
A DECISÃO CORAJOSA DE KEVIN LOVE de compartilhar sua história – “Se você acha que não precisa de coragem, é por que não conhece a mentalidade da NBA”, comenta Charles Barkley, membro do Hall da Fama – deu origem a uma nova camada de conscientização e aceitação. Todavia, permanece o enorme fardo de administrar uma carreira profissional. As armadilhas incluem adolescentes que começam a ganhar milhões de dólares de repente, com amigos, familiares e estranhos querendo tirar proveito disso. Há o escrutínio implacável e a pressão para ter um bom desempenho. Também existe a expectativa de emitir uma aura de dureza e invencibilidade.
O curioso caso de Markelle Fultz, jogador do Sixers e primeira escolha geral no draft da NBA em 2017, deixou muita gente intrigada. Depois de muito pontuar em Washington, Fultz sofreu uma lesão no ombro, desenvolveu um tique misterioso na hora de arremessar e não participou da maior parte da sua temporada inicial. Foi um problema físico? Mental? Ou uma combinação de ambos? A mentalidade de Fultz ficou mais clara após uma postagem em seu perfil no Instagram em julho: “Depressão, ansiedade e ataques de pânico não são sinais de fraqueza. São sinais de ter tentado se manter forte por muito tempo. 1 em cada 3 pessoas sofre de depressão, ansiedade ou ataques de pânico pelo menos uma vez na vida. Você compartilharia isso no seu perfil por pelo menos um dia? A maioria das pessoas, não. A quem compartilhar – obrigado pelo apoio. Mostre a essas pessoas que elas não estão sozinhas.”
Parham, psicólogo e diretor do programa de Aconselhamento da Faculdade de Educação da Loyola Marymount University, afirma que a saúde mental é “um problema humano, não um problema do basquete”.
Seu objetivo não é apenas acabar com o estigma dos problemas de saúde mental, mas também identificar as origens deles. Com muita frequência, afirma Parham, os pacientes recebem tratamento para os sintomas, seja com medicação ou mecanismos para lidar com eles, mas não para as causas reais de seus problemas de saúde mental. Ele explica desta forma: Quando o detector de fumaça dispara na sua casa, você não pega um banco, remove o equipamento e o leva para consertar. Você localiza a fonte do incêndio e a resolve.
“O ruído estridente não sugere que não está funcionando”, elucida Parham. “Na verdade, ele sugere que está. A ansiedade, a depressão e os ataques de pânico são detectores de fumaça humanos que indicam que outra coisa está acontecendo.”
Em 2001, o CDC (Centers for Disease Control and Prevention, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos EUA e a Kaiser Permanente estudaram mais de 17 mil pacientes para determinar os efeitos de experiências adversas na infância (adverse childhood experiences, ou ACE), incluindo abuso físico, emocional e sexual, negligência física e emocional, violência doméstica, abuso de substâncias pelos pais, separação ou divórcio dos pais, doença mental, suicídio ou morte na família e criminalidade ou prisão de familiar.
“Uma experiência adversa na infância pode ser qualquer coisa, desde ver seus pais discutindo até testemunhar um tiroteio”, diz Parham. “Foi constatado que dois terços dos americanos tiveram entre uma e quatro experiências adversas antes dos 10 anos de idade.”
Se não for tratada, essa bagagem será carregada durante a adolescência e a vida adulta, acumulando sintomas pelo caminho. De acordo com a pirâmide estabelecida pelo estudo, as experiências adversas na infância são capazes de interromper o desenvolvimento neurológico, o que pode causar danos sociais, emocionais e cognitivos, que podem levar à adoção de um comportamento prejudicial à saúde (como drogas e álcool), acarretando doenças, incapacidade e problemas sociais. A última camada da pirâmide, em relação a preocupações não tratadas de saúde mental, é a morte.
“Posso afirmar que grande parte das dificuldades que estou enfrentando são profundas”, confirma Love. “Elas vêm de muito tempo.”
Love conta que visitou seu irmão em Portland logo após a publicação do artigo no The Players' Tribune. “Eu não sabia se ele queria conversar sobre esse assunto”, informa ele. “Ele me disse: ‘Lembro-me de quando você era mais jovem e tinha acessos de fúria ou perdíamos você por algumas semanas e eu o deixava em paz’”. Durante esses períodos, que Love chama de “tempos sombrios”, ele ficava trancado no quarto, com as cortinas fechadas, sem falar com ninguém.
Em mais de 20 entrevistas com jogadores atuais e ex-jogadores da NBA, um tema recorrente que emergiu foi a falsa percepção pública de que os atletas profissionais têm vidas idílicas porque são ricos e famosos.
“Quando você vem de um ambiente difícil, acha que, se conseguir sair dele e chegar à NBA, todas essas coisas ruins desaparecerão”, comenta DeRozan. “Mas então encontra uma dinâmica totalmente nova, carregada de estresse."
“As pessoas perguntam: ‘Por que você está deprimido? Pode comprar o que quiser’. Eu queria que todo mundo fosse rico para perceber que o dinheiro não é tudo na vida.”
Parham diz que essas preocupações são pontuadas pelo fato de que atletas de elite, particularmente do sexo masculino, são treinados pela sociedade para “manter-se firmes, internalizar, não compartilhar emoções”.
“Se adicionarmos uma camada de celebridade”, completa Parham, “teremos um golpe duplo. Quando um atleta de elite começa a falar sobre as ‘coisas’, sente que corre o risco de ser negociado, de não renovar o contrato, de perder patrocínios. A conclusão a que se chega é: ‘Melhor ficar quieto’.”
EM 25 DE SETEMBRO DE 2000, Paul Pierce foi esfaqueado diversas vezes no Buzz Club, em Boston, EUA. Um dos ferimentos teve 17 centímetros de profundidade, a pouca distância do seu coração. Pierce foi submetido a uma cirurgia de emergência por causa de um colapso pulmonar e, mais tarde, afirmou que a espessura do casaco de couro havia salvado sua vida.
A estrela dos Celtics surpreendeu a todos por ter se recuperado a tempo de disputar os 82 jogos da temporada. Enquanto os outros se maravilhavam com sua rápida recuperação física, Pierce lutava internamente com as cicatrizes mentais do incidente, que demoraram anos para curar.
Pela primeira vez, Pierce falou sobre a crise debilitante de depressão que o deixou tão preocupado a ponto de solicitar presença policial 24 horas em frente à sua casa em Lincoln, Massachusetts.
“Fui esfaqueado 11 vezes”, conta Pierce à ESPN. “Sentia-me como se estivesse preso em uma caixa. Não podia ir a lugar algum."
“Lutei contra a depressão por um ano. A única coisa que me salvou foi o basquete.”
Por muito tempo após a alta hospitalar, Pierce continuou nervoso, agitado, ansioso. Não conseguia dormir. O pessoal dos Celtics lhe pedia para procurar auxílio, mas ele não lhes dava atenção. “Eu pensava: ‘Consigo fazer isso sozinho’”, relembra Pierce. “Não queria que ninguém se metesse na minha vida.”
Porém, conforme as semanas passavam, ir a lugares públicos tornou-se algo quase insuportável para ele. O trauma do evento havia acabado com sua confiança. Sua ansiedade chegou ao auge durante um jantar no restaurante Morton's, em Boston, poucos meses após o esfaqueamento, quando o gerente se aproximou com um telefone e lhe disse que um amigo insistia em falar com ele. Pierce pegou o telefone e uma voz ameaçadora zombou dele: “Vou matar você”.
“Foi então que fiquei realmente paranoico”, conta. “Não queria ir a lugar nenhum. A polícia permaneceu na frente da minha casa por meses. Fiquei muito mal."
“Acho que foi por isso que voltei tão rápido às quadras. Não dava para ficar em casa pensando a respeito [do esfaqueamento]. Eu ia a todos os treinos, sentava na lateral por horas, por que era ali que me sentia seguro. Não queria que os treinos acabassem, porque então precisaria voltar para um mundo que me assustava demais.”
Incrivelmente, Pierce conseguiu uma média de 25,3 pontos e 6,4 rebotes durante a temporada 2000-01. Foi um período tumultuoso para os Celtics, que venceram apenas 36 jogos e cujo técnico, Rick Pitino, pediu demissão no meio da temporada. Pierce não se importava. O basquete era seu santuário.
“Eu não podia me aproximar de multidões”, relembra ele. “Se entrasse em um lugar lotado, começava a tremer por dentro. Levei anos para superar isso. Se estivesse caminhando e alguém esbarrasse ou tocasse em mim, ficava apavorado.”
Antes do início da temporada 2000, os Celtics fizeram uma promoção em que jogadores posicionavam-se nas entradas da arena para cumprimentar os fãs à medida que passavam pelas catracas. Pierce concordou em participar, mas, quando chegou a hora, sua frequência cardíaca aumentou, as palmas das mãos começaram a suar e ele sentiu falta de ar. Estava tendo um ataque de pânico.
“Eu disse ao pessoal dos Celtics: ‘Não consigo fazer isso’”, relata Pierce. “[No segundo ano], achava que estava melhor, mas aguentei cerca de 2 minutos e a sensação de pânico retornou. Tinha certeza de que algo ruim aconteceria comigo.”
Em retrospecto, afirma Pierce, ele gostaria de ter escutado o time e conversado com um especialista em saúde mental. A decisão de enfrentar o estresse pós-traumático sozinho acentuou sua depressão e o isolou dos amigos, dos familiares e dos companheiros de equipe.
“Eu devia ter me aberto mais cedo”, admite Pierce. “Aquilo estava acabando comigo. Quando finalmente comecei a conversar com um familiar, me senti melhor.
“Entendi que devia ter feito isso antes. Eu diria a todas as pessoas para procurar a ajuda necessária. Minha depressão foi forte, muito forte. Nunca mais quero me sentir daquele jeito”.
KEVIN LOVE PASSOU anos tentando ignorar e, em seguida, harmonizar seu comportamento. Na juventude, diz ele, era propenso a “acessos de fúria” que não conseguia entender.
“Sou um cara com um pavio extremamente longo”, conta Love. “Tento evitar confrontos ao máximo. Porém, quando o pavio queima, eu arrebento. Pessoas assim podem ser muito destrutivas – e eu sou uma delas."
“Quando era criança, agia assim. Era competitivo demais. Conforme cresci, comecei a guardar muita coisa para mim. Minha namorada, Kate, percebeu que eu estava entrando em um caminho destrutivo e me disse: ‘Amo muito você. Acho mesmo que você precisa conversar com alguém’."
“Mas eu continuava dizendo a mim mesmo: ‘Não preciso de ajuda. Sou uma pessoa de sucesso. Cheguei longe. Tenho os melhores amigos do mundo’. No entanto, ainda existiam muitas coisas que me deixavam infeliz.”
Alguns dos melhores jogadores da liga são os mais vulneráveis por causa da pressão exagerada que lhes é imposta para ter um bom desempenho e também elevar o nível de jogo das suas franquias.
O ex-jogador Chris Bosh, que participou 11 vezes do All-Star Game, consegue se identificar. Ele se lembra da euforia que sentiu durante a temporada 2006-07, quando o Toronto Raptors começou a brilhar, tendo ele como estrela, e venceu 47 partidas.
“Finalmente chegamos ao sucesso. Temos um título da Divisão do Atlântico, estamos em 3º lugar no Leste, chegamos exatamente aonde eu sempre quis chegar”, conta Bosh para à ESPN. “Então, de repente, acordo de manhã, olho para minhas mãos e elas estão tremendo. Sinto-me nervoso o dia inteiro e me pergunto: ‘Mas o que é que está acontecendo? O que há de errado comigo?’.”
Os Raptors chamaram um psicólogo esportivo, que implementou técnicas de relaxamento, incluindo meditação. No entanto, conta Bosh, isso só o fazia cochilar.
“Ele não me ajudou em nada”, relembra.
Na pós-temporada daquele ano, os Raptors foram derrotados na primeira rodada dos playoffs, pela equipe veterana do New Jersey Nets, liderada por Jason Kidd, Richard Jefferson e Vince Carter.
A ansiedade de Bosh voltou a crescer, conta ele, quando assinou o notório contrato com o Miami Heat, para jogar com LeBron James e Dwyane Wade em 2010.
“Eu vinha do Toronto, uma situação benigna”, relata Bosh. “Pensei: ‘Certo, as pessoas vão entender por que parti, elas vão gostar de mim’. Era isso que me importava – que as pessoas gostassem de mim."
“Chego lá, sorrindo, e todo mundo está me olhando de cara feia. A ‘Decisão’ do LeBron deixou todo mundo zangado. Não sei por que, mas fui atingido no fogo cruzado. Então perdemos [para o Dallas nas Finais da NBA de 2011] e as pessoas me perseguiam. Fui ficando amargo.”
A imagem que persiste do Jogo 6 – a vitória apertada do azarão Mavericks – é a de um Bosh perturbado, em lágrimas, cambaleando até o vestiário. Vídeos do choro dele viralizaram e ele foi sumariamente desacreditado por ser “sensível”.
“As pessoas que riram de mim por que me descontrolei não entendem”, diz Bosh. “Dediquei minha vida a isso. Estava sendo atingido por todos os lados e, então, perdemos. Expressei meus sentimentos e riram de mim por causa disso. Fui honesto demais. Não consegui ganhar.”
Muitas vezes, as redes sociais dão um destaque intenso às falhas dos jogadores. Tudo é dissecado, desde uma jogada ruim no basquete até uma noite de festa em um clube noturno. Nada é sagrado – e as críticas cruéis dirigidas a eles muitas vezes partem de trolls anônimos.
“As redes sociais são um grande desafio para os atletas”, informa Parham. “Elas começaram a determinar o que as pessoas dizem, quando dizem e se é que dirão alguma coisa. Nunca se sabe quais motivos as pessoas têm ou quem elas realmente são.
“Podemos aconselhar os jogadores a ignorar, mas, para muitos deles, as redes sociais são uma forma importante de comunicação”.
Para alguns atletas, as críticas são tão viscerais e impiedosas que decidiram eliminar as redes sociais de suas vidas.
“Pobre Kevin Love”, comenta Barkley. “Sempre que os Cavaliers perdiam, as redes sociais o culpavam. Era impossível assistir à TV sem encontrar alguém dizendo: ‘Os Cavaliers são uma droga, e é culpa do Kevin Love’.”
Love diz que as críticas públicas apenas intensificaram dúvidas que já tinha sobre si mesmo. “Sou perfeccionista, portanto, sou rigoroso comigo mesmo”, explica. “Não passo no teste do espelho”.
Para Love e DeRozan, a jornada até o bem-estar mental está evoluindo e em progresso. Para os jogadores da NBA que se recusam a buscar ajuda, ela continua difícil, solitária e incerta. Parham insiste que, ao confrontar seus problemas, eles descobrirão um potencial que nem sabem que têm.
“Com investimentos no bem-estar dos jogadores, esses atletas poderão ter um desempenho ainda melhor do que o atual”, diz Parham. “Mas eles precisam estar dispostos. Caso contrário, ninguém poderá ajudá-los”.
"Não é coisa da sua cabeça: a luta corajosa para resolver o problema de saúde mental na NBA" é a parte 1 de uma série especial da ESPN. Este mesmo capítulo, em inglês, pode ser acessado em "The courageous fight to fix the NBA's mental health problem". Nesta terça-feira, o ESPN.com.br publica o segundo capítulo da série, em um total de cinco.
