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Splitter revela convite dos Cavs e contato com técnico da seleção: 'Não estava em condição de defender o Brasil'

12 de abril de 2017. Com 12 pontos e 5 rebotes diante do New York Knicks, Tiago Splitter fez a última de suas oito partidas na temporada 2016-17 da NBA pelo Philadelphia 76ers. Dali em diante, ele se tornara um jogador livre para assinar com qualquer franquia da liga, mas uma lesão no quadril - onde ele realizou a cirurgia que o tirou da Olimpíada do Rio de Janeiro - tem atrapalhado sua carreira.

Mas mesmo assim, em conversa com o ESPN.com.br, o pivô de agora 33 anos garante que ainda não pensa em se aposentar. Interesse nele, como o próprio revelou, existe. E até de Cleveland Cavaliers, Los Angeles Clippers, Utah Jazz e mais recentemente do New Orleans Pelicans Porém, as limitações físicas o impediram de ir além.

Mas Splitter mantém a calma, faz sua luta diária contra a lesão, da qual ele diz estar 60% fisicamente no momento, e segue a vida, se "coçando" para voltar a pisar numa quadra de NBA.

E enquanto o momento esperado não vem, ele mantém sua vida ocupada com outros projetos, inclusive alguns que parecem dar indícios do que ele pode fazer uma vez que se aposentar das quadras.

Neste fim de semana, o brasileiro será um dos técnicos da "peneira" do Basketball Without Borders da semana do All-Star Game da NBA, que acontece em Los Angeles e terá a transmissão do Time LeBron x Time Curry, ao vivo às 22h (Brasília) na ESPN.

Seja à beira da quadra, ou no seu projeto de escolinha de basquete em Blumenau ou até como Youtuber, as opções para Splitter são várias.

Qual vai ser sua participação no All-Star Week?

Eu vou estar presente no Basketball Without Borders. Eles trazem os melhores garotos sub-18 do mundo para treinar, jogar, e pra própria NBA poder acompanhar os jogadores, ver a evolução deles e quem sabe selecionar eles no Draft. É meio que uma peneira internacional que a NBA faz junto com a Fiba. E eu vou ter o prazer de treiná-los, para estar ajudando eles nesses dias

Pensa em ser técnico no futuro?

Com certeza é algo que eu vou estar, no meio do basquete. Eu quero estar aqui nos Estados Unidos dentro do meio da NBA, sendo técnico, scout ou diretor de algum time aqui. Esse é meu objetivo, é para isso que estou trabalhando. Ainda não sei a minha função, o que eu quero fazer, mas o futuro dirá. As oportunidades virão.

Você não joga há mais de um ano. Sua carreira como jogador já chegou ao fim?

Não sei ainda. Eu estou treinando, me mantendo ativo. Tive uma série de lesões complicadas no quadril, tive uma operação, que foi bem, mas ainda não estou 100%, estou treinando para isso e espero estar nas quadras o quanto antes possível.

Na pré-temporada você chegou a treinar por alguns times. Como foi essa experiência? Não rolou proposta de contrato de nenhum deles?

Eu tive propostas de treino, mas eu não estava me sentindo bem. Não queria gastar nenhum cartucho naquele momento, não achava que estava bem fisicamente e decidi não participar. Às vezes você tem que dar um passo para trás para continuar, mas eu estou bem, bem de cabeça e olhando essas oportunidades como crescimento e agradecendo tudo que está acontecendo na minha vida.

Quais foram os times pelos quais você recebeu convite para treinar?

Eu treinei com Cleveland, Utah Jazz, Clippers, também o New Orleans está interessado até agora. Mas acho que minha condição física deixou a desejar por causa dessa lesão. Eu estou trabalhando e espero poder sair dessa situação o quanto antes possível.

Consideraria voltar para a Europa ou até vir para o Brasil jogar?

Por enquanto só na NBA. Não penso em sair daqui, no momento quero estar aqui. É a melhor liga do mundo. E quem sabe no futuro eu possa estar mais vinculado com a NBA e o basquete brasileiro. Eu nã estou prometendo que vou jogar no Brasil, mas tem outras coisas que estão acontecendo lá, tem meu instituto que está bombando lá em Blumenau. E eu estou gostando da experiência.

O instituto começou agora com escolinha de basquete para crianças e até adultos, não tem nem um ano. A gente já organizou dois 3 x 3, que é a nova modalidade olímpica. E a gente espera fazer muitas coisas em prol do basquete brasileiro.

Você tem tentado atualizar seu repertório em quadra com alguma coisa nova?

É uma coisa que eu nunca parei de fazer, que é melhorar os fundamentos do basquete. Se você olhar minha carreira na NBA, na Europa, na seleção brasileira, eu sempre tentei olhar as coisas que eu estava fazendo mal e melhorar. Eu comecei na NBA com uma porcentagem de lances livres baixa, melhorei, acabei minhas últimas temporadas com 81% de lance livre. Na última temporada eu abri para os arremessos de 3 pontos. Tive 33% de 3, que não é uma porcentagem ruim. Você sempre tem que melhorar. Basquete continua sempre evoluindo. Se você não melhorar, significa que você está indo para trás. Não só na quadra, mas vendo os adversários, vídeos, tudo pra você estar preparado para esses dois, três jogos por semana da NBA.

Você ainda é jogador, vai ser técnico, tem um projeto social...e agora é até youtuber? Nos conte um pouco sobre isso.

Essa foi um pouquinho pra matar meu tempo. Eu estou obviamente me coçando para estar numa quadra de basquete. Quem é jogador nunca deixa de ser, mas eu falei 'por que não fazer uma coisa diferente?'. E meu primeiro intuito foi passar um pouquinho de basquete, bastidores, até mesmo ensinar a fazer coisas simples como passar, arremessar...tudo isso eu estou preparando para estar no canal, ainda não está pronto. Não estou tendo muito tempo para fazer tudo. Leva tempo, não é simples. É uma coisa que todo mundo me pediu, todo mundo gostou. As entrevistas que fiz com Anderson (Varejão), Mills, Boris (Diaw), Ginóbili, todo mundo gostou. Eu quero tentar fazer mais uma conversa. Você sabe como um jogador reage numa entrevista, às vezes muito duro, travado. É difícil você tentar soltar tudo para o repórter na hora e eu estou tentando fazer isso com os meus amigos e tentar dar uma soltada.

Quando você está desse lado aqui você percebe que o jogador já está com aquela resposta pronta. 'Vamos ganhar os 3 pontos fora de casa' e aquela história toda.

Eu acho que faz parte. Por que não fazer as duas coisas ao mesmo tempo? Se você olhar o modelo norte-americano, você olha aqui na televisão tem muitos técnicos explicando para quem está em casa. Basquete não é um esporte tão fácil assim. Quando você tem alguém que explica para a sua vó como que funciona o basquete, fica mais fácil. E é isso que eu quero fazer, mas estou engatinhando ainda.

Você chegou a falar com o Petrovic (novo técnico da seleção brasileira)?

Eu falei. Ele ligou para mim e eu falei que não estava em condição no momento. Para eu defender a camisa do Brasil eu tenho que estar bem, eu não posso estar a meio gás enquanto tem jogadores disponíveis 100%. Seria injusto da minha parte querer, mas, sim, existiu contato. Eu conversei com o Petrovic, ele não só perguntou da minha situação, mas também pediu conselho. Ele é um cara novo no Brasil, chegou de para-quedas, sem conhecer muito a liga, os jogadores. Ele está bem aberto a fazer a coisa certa, não tem muito tempo por causa do sistema que mudou um pouquinho agora, que você reúne o time para jogar dois, três jogos. Com essas janelas agora do modelo futebolístico fica difícil você ter um pouco de entrosamento.

De 0 a 100, como você está fisicamente agora?

Eu devo estar 60%, 70%. Tive uma recaída e por isso estou nessa situação e espero nesses próximos dois, três meses ter uma resposta melhor. Realmente agora está difícil para mim dizer o que eu estou sentindo. Faz parte do esporte, são momentos que você tem que passar por cima de tudo isso. Existem vários exemplos de jogadores que passaram pela minha situação.

Como você vê o futuro dos brasileiros na NBA?

A situação de cada um é diferente. O Anderson, Leandrinho, também chegaram numa idade com lesões e tudo e aos poucos as portas foram se fechando. A NBA também teve uma renovação muito grande. Essa nossa geração, não só os brasileiros, mas os argentinos, europeus, todos os caras que estava jogando há quatro, cinco, seis, sete anos na NBA saírem e foram buscar espaço em outro lugar. Alguns deles voltaram para o Brasil. Tem jogadores americanos na China. Esse ano a liga está muito jovem, novatos muitos bons. Deu uma renovada. Essa situação contratual mudou um pouco a estrutura dos contratos da NBA e isso não favoreceu para que essa geração ficasse. Mas é normal, é um ciclo. Uns entram, outros saem. O que preocupa um pouco é a não chegada de novos brasileiros.

Para mim, Raulzinho é a chave do Brasil para o futuro, um jogador que vai fazer a diferença para o Brasil internacionalmente. Depois tem o Felício, que eu achava que ia ter mais oportunidade esse ano. Mas com a explosão do menino, do Markkanen, está jogando menos. Aí tem Lucas (Bebê) e Bruno (Sacramento). Vamos ver se ele consegue ter mais minutos de quadra em Sacramento. Ele tem talento, muita coisa para mostrar pra gente, ele só precisa de um bom líder e um bom time para estar no caminho certo.