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Após um ano da troca mais chocante da história da NBA, quais os impactos para os envolvidos?

Por volta das duas horas da madrugada de 1 para 2 de fevereiro de 2025, Shams Charania, da ESPN, principal insider de bastidores da liga, divulgou uma troca que tomou de assalto o noticiário esportivo por semanas. Quiçá meses. Bom, até mais, uma vez que ainda falamos dela com frequência.

Um dos maiores astros da NBA, Luka Doncic, foi trocado dos Mavs para os Lakers por Anthony Davis, um dos principais pivôs do século, especialmente na defesa, mas já em declínio físico e sofrendo com lesões.

Parecia tão sem sentido o Dallas Mavericks abrir mão de um dos rostos da liga que nem a credibilidade de Shams adiantou: tantos acharam que era uma pegadinha a ponto dele fazer outro post minutos depois confirmando: "Sim, é real".

A troca completa envolveu outros jogadores. Relembre o que cada time recebeu:

- Los Angeles Lakers: Luka Doncic, Maxi Kleber e Markieff Morris;

- Dallas Mavericks: Anthony Davis, Max Christie, escolha dos Lakers na primeira rodada do Draft de 2029 e do Jazz na segunda rodada de 2025 (Jamir Watkins);

- Utah Jazz: Jalen Hood-Schifino e uma escolha de segunda rodada dos Mavs de 2025 (John Tonje).

Vamos tirar os nomes 'excedentes' da frente. Para quem não se lembra, sim, o Utah Jazz também estava envolvido na troca. Mas a franquia de Salt Lake City apenas recebeu o contrato de Jalen Hood-Schifino, então nos Lakers, dispensado dias depois sem nem entrar em quadra, além de uma pick de segunda rodada de 2025, que se tornou o ala John Tonje. Apesar de boas partidas na G League, ainda não estreou na NBA. Em contrapartida, enviou uma pick de segunda rodada para os Mavs que virou Jamir Watkins, trocado no dia do draft para o Washington Wizards, onde tem atuações discretas, mas levemente melhores a cada semana.

Pelos Lakers, Markieff Morris fez oito jogos até o fim da temporada 2024-25 e está sem time desde então. Já Maxi Kleber, que chegou machucado, só estreou em 2025-26, mas sem grande impacto.

Sobraram, então, três nomes: Luka Doncic, Anthony Davis e Max Christie.

Lakers ganham novo fôlego, mas ainda não tiveram a transformação esperada

Pelo lado dos Lakers, o aceite era óbvio. Anthony Davis, ainda que tenha feito 76 jogos e sido eleito All-Star no ano anterior, em 2023-24, já estava longe do vigor físico de outrora. Além disso, não tinha passado de 56 partidas por temporada nos três anos anteriores. Por fim, ainda que importe cada vez menos na liga, já era um atleta de 30 anos de idade.

Por outro lado, Luka Doncic tinha acabado de levar os Mavs para a final da NBA, perdida para o Boston Celtics, e figurado no time ideal da NBA nas cinco temporadas anteriores. Ainda aos 25 anos e com um futuro brilhante pela frente, mostrou que era capaz de levar um time a grandes conquistas sem precisar de um elenco de apoio estrelado, 'apenas' das peças certas. Para uma franquia que já vislumbrava a aposentadoria de LeBron James em pouco tempo, foi a oportunidade perfeita para colocar o melhor companheiro possível ao lado do 'King' nos últimos da carreira, além de ter fôlego e a garantia de uma estrela do mais alto nível por vários anos.

Assim, que estreou, uma semana depois, Doncic deu novos ares aos Lakers: foram 18 vitórias em 28 jogos, o suficiente para deixar o time na terceira posição da Conferência Oeste, com 50 vitórias e 32 derrotas. Nos playoffs, porém, não conseguiram impor dificuldades ao Minnesota Timberwolves, e caíram na primeira rodada por 4 a 1.

Mas tudo bem. Afinal, a troca aconteceu muito perto dos playoffs, e o time ainda precisava de ajustes para a temporada 2025-26. Chegaram, então, Deandre Ayton, Marcus Smart e Jake LaRavia para compor o elenco.

Ao lado deles, mas não necessariamente por conta deles, Doncic tem números comparáveis aos de seus melhores anos em Dallas: 33,7 pontos, 7,8 rebotes e 8,8 assistências. O foco, via de regra, é começar a partida em alto nível: não foram raros os jogos em que Doncic fez 15 ou mais pontos ainda no primeiro período, incluindo aí um triplo-duplo em apenas 18 minutos na última semana, o quinto mais rápido da história.

Mas mesmo assim não parece que mudou muita coisa. Doncic segue produzindo lances e atuações geniais, os Lakers estão na sexta posição do Oeste (mas com aproveitamento muito parecido ao do ano passado) e podendo vencer qualquer time na liga. Mas falta algo. Especialmente um elenco de apoio condizente com as características do esloveno.

Os Mavs demoraram muito a entender isso, mas eventualmente conseguiram emplacar um plantel com bons nomes na defesa, chutadores de três pontos confiáveis e pivôs especialistas em ponte aérea, tudo feito para potencializar a gravidade que Doncic gera quando está em quadra. E mostraram que não precisam ser estrelas. Afinal, o melhor Mavs dos últimos anos tinha PJ Washington, Derrick Jones Jr., Tim Hardaway Jr., Daniel Gafford e Dereck Lively como os principais parceiros de Luka. O único astro era Kyrie Irving, que foi fundamental para tirar de Doncic o fardo de organizar toda posse da equipe, além de fornecer uma excelente opção quando a defesa sobrecarregava o europeu.

Em Los Angeles essas características ainda não conseguiram ser replicadas. É bem verdade que LeBron James e, principalmente, Austin Reaves conseguem dividir a responsabilidade com Luka no ataque. Mas com a lesão do armador, ficou claro que o equilíbrio ainda é tênue. Sem contar que muitas vezes Reaves e Doncic parecem ocupar os mesmos espaços na quadra, gerando uma redundância ao invés de maior repertório, o que também aumenta a sensação de que jogam melhor quando o outro é desfalque. Longe de ser um parceiro ruim. Mas não é Kyrie Irving.

Além disso, a evolução física que Luka mostrou nos meses após a troca não parece ter se confirmado, o que é notado principalmente na defesa. Reaves e LeBron igualmente não se destacam nisso. Tampouco Deandre Ayton. O pivô, melhor opção no mercado na última intertemporada, também pouco contribui no ataque em lances explosivos próximos ao aro, aproveitando os espaços gerados por Doncic. Ainda que tenha bons números, não tem a dominância no garrafão que se espera de um pivô de elite nos dois lados da quadra, e a construção das jogadas, que geralmente resultam em ganchos e bandejas, não potencializam o jogo de Luka.

Mesmo com Marcus Smart, Rui Hachimura e Jarred Vanderbilt, poucas vezes os Lakers conseguem se sobressair na defesa. Muito menos nas bolas de três pontos. Apenas Hachimura chuta acima dos 38% no elenco. LaRavia teve uma queda muito grande em relação aos anos anteriores, enquanto Dalton Knecht, draftado para ser o 'chute certo' do time, mal entra em quadra. O que prejudica, inclusive, os números do trio Doncic-LeBron-Reaves, uma vez que as defesas adversárias podem ficar confortáveis em afrouxar a marcação nos outros jogadores sem a ameaça constante no perímetro.

De todo o potencial avaliado na época da troca, o que mais se tornou realidade foi a diminuição da dependência de LeBron. Embora ainda em altíssimo nível, James não consegue jogar por tantos minutos e com a mesma intensidade física de antes. Aos 41 anos, já assume em entrevistas a possibilidade de parar em breve, e que o time é de Doncic.

Mas no final das contas, ainda que a dupla Doncic e LeBron (ou trio, incluindo Reaves) não seja aproveitada ao máximo, pelo menos os Lakers seguem com uma janela de muitas temporadas para brigar por título e montar um bom time que encaixe com Doncic. Para isso, entretanto, precisam acertar a questão salarial, já que os contratos de Reaves e LeBron estão próximos do fim e serão renegociados em breve. O ideal para a equipe é que a soma dos novos salários seja menor que a atual para a equipe sair do 2nd apron e ter maior flexibilidade na montagem de elenco.

Nico Harrison se afogou ao olhar demais para o próprio reflexo, mas os Mavs já vislumbram voltar à superfície

Ao longo das entrevistas após a troca, ficou claro que a negociação não foi fruto de uma grande análise da diretoria e dos analistas de desempenho do time, mas uma aposta de Nico Harrison, ex-gerente geral e diretor de operações do time. Apesar de uma final meses antes, Nico estava frustrado com a forma física de Doncic, que havia voltado acima do peso para a temporada 2024-25 e se lesionado no Natal, além de querer um perfil mais defensivo para os Mavs. Fora de quadra, a relação com Luka não era das melhores, uma vez que o atleta fazia questão de ter sua própria equipe médica e representava uma eventual ameaça ao controle que Nico desejava ter sobre a franquia, ainda com muitos nomes remanescentes da gestão anterior.

Harrison também tinha o argumento de que foi ele o arquiteto das movimentações por PJ Washington e Daniel Gafford, além de Kyrie Irving, que alavancaram de vez o nível da equipe. A troca por Anthony Davis, em tese, manteria o time em altíssimo nível e tornaria a equipe muito mais defensiva. Ora, alguém com uma visão tão apurada e sucesso recente não poderia cometer um erro tão grande, certo?

Tal qual o mito grego de Narciso, Nico caiu no lago.

A reação foi imediata. Os gritos de 'Fire Nico' (demitam Nico) entoados a todo momento pela torcida de Dallas, a ausência de Dirk Nowitzki, que deixou de comparecer ao ginásio, e a incredulidade de todo o ecossistema da NBA jogaram contra o dirigente assim que a troca foi anunciada.

Mas Harrison ainda tinha sua aposta esportiva, que podia o salvar de toda a crise. Afinal, bastava o time ir bem e tudo estaria resolvido.

Foi então que as lesões, grande risco da troca, se confirmaram. Anthony Davis fez uma ótima estreia contra o Houston Rockets, mas se machucou no final da partida e só voltou no finalzinho da temporada. Ainda pior, porém, foi Kyrie Irving, que rompeu o ligamento cruzado anterior no mês seguinte e não voltou às quadras até hoje. Os astros, portanto, fizeram apenas um jogo juntos.

A campanha posterior foi ruim, deixando o time na 10ª posição e caindo no play-in para o Memphis Grizzlies.

Só que pouco depois da eliminação na temporada, a sorte finalmente sorriu para Nico Harrison e os Mavs. Mesmo com menos de 2% de chance na loteria, a equipe conseguiu a primeira escolha no Draft de 2025, marcado pela chegada de Cooper Flagg à NBA, tido como um dos melhores prospectos americanos desde de LeBron James.

Os Mavs apostaram no mesmo elenco e contrataram apenas D'Angelo Russell para segurar as pontas na armação enquanto Kyrie Irving não voltasse.

Mas não funcionou. Russell não rendeu e hoje nem entra nos jogos, preterido pelo não draftado Ryan Nembhard, além de Brandon Williams. Cooper Flagg também demorou a engrenar. Ala durante toda a carreira no ensino médio e universidade, foi testado como armador por Jason Kidd, num experimento semelhante ao que fez com Giannis Antetokounmpo nos tempos de Memphis Grizzlies.

Só que o novato não conseguiu desempenhar como esperado, e Anthony Davis, mais uma vez, se machucou. O restante do elenco não conseguiu dar conta do recado, os Mavs se tornaram um time claramente pior e a pressão da torcida não arrefeceu.

Tal qual Narciso, Nico se afogou. E foi demitido ainda no início de novembro, com apenas 15 jogos na temporada, sendo 11 derrotas.

A decisão, de certa maneira, expurgou o fantasma da troca da temporada anterior, apesar da presença de Anthony Davis no elenco. Dali para a frente, o desempenho começou a melhorar. Cooper Flagg voltou para sua posição original e está rendendo cada vez melhor, incluindo um jogo icônico de 49 pontos contra o Charlotte Hornets dias atrás.

Ainda há muito o que evoluir, principalmente nos arremessos longe da cesta, mas já mostra o motivo de tanta empolgação ao redor de seu nome no draft.

No restante do elenco, Naji Marshall e Brandon Williams subiram o nível, enquanto Ryan Nembhard foi uma grata surpresa. Além, vejam só, de Max Christie. O nome menos lembrado da troca (dos que entram em quadra) evoluiu consideravelmente em Dallas e é uma ameaça ofensiva, com 44% de aproveitamento do perímetro e 13,2 pontos por jogo.

Aos poucos, os Mavs vão encontrando o melhor caminho, ainda que não tenham uma boa defesa e Anthony Davis não seja mais um jogador confiável fisicamente. Quando está em quadra, rende muito bem, mas são poucos os jogos. Dos 39 da temporada, só jogou em 20. Kyrie Irving deve voltar no final da temporada após o All-Star Game, mas sem uma data estipulada.

O grande ponto de atenção para os Mavs nos próximos meses, portanto, está fora da quadra, nas decisões que a diretoria irá tomar. Vale a pena manter Anthony Davis ou é melhor trocar o pivô em baixa? O que será feito com Kyrie Irving e Klay Thompson? E no próximo Draft? A franquia tem a própria escolha e, no momento, 20% de chances de ficar com uma escolha top 4 e 4,5% de terminar novamente na primeira posição.

O trauma de um ano atrás foi enorme, mas é plenamente possível imaginar uma nova era na franquia ao redor de Cooper Flagg. É preciso apenas de tempo e boas decisões, assim como foi com Luka. E também menos ego. Embora essa parte, ao que parece, já foi resolvida.

Mas no final das contas, essa é a maior troca da história?

Não que importe ser a primeira, segunda ou a terceira. Até mesmo a última. Mas o tamanho dessa movimentação que abalou as estruturas da NBA é um ponto de discussão até hoje, um ano depois do ocorrido. Por um lado, existe o elemento surpresa, que foi determinante para que a troca pegasse a todos completamente desprevenidos, tornando o momento significativamente memorável.

É impossível acompanhar à NBA, mesmo que minimamente, e não lembrar o que você estava fazendo no momento em que viu que essa troca tinha sido anunciada. Foi o exemplo perfeito do que significa uma troca bombástica.

Por outro lado, olhando para dentro da quadra, a troca ainda se mostra muito incerta do que pode gerar para as duas franquias. Para os Lakers, o futuro é muito promissor e pode reservar algo extremamente especial, mas que depende da montagem de um elenco que tenha peças que potencializem ainda mais o que um jogador como Luka Doncic pode entregar.

Os Mavs também seguem no processo de reestruturação após a perda de uma grande estrela. Claro que as lesões de Anthony Davis e Kyrie Irving têm um impacto significativo nos resultados, mas, apesar disso, contar com um talento como o de Cooper Flagg e com uma equipe mais equilibrada pode render bons frutos. Mas apesar da troca, e não por conta dela.