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No momento mais difícil da carreira, LeBron encontrou forças para se reerguer e entrar para a história da NBA

O jogo de 8 pontos que mudou a carreira de LeBron James na NBA


ONDE ESTÁ LEBRON JAMES?

Era o Jogo 4 das Finais da NBA, e o Miami Heat estava atrás por três pontos contra o Dallas Mavericks, faltando 6,7 segundos para acabar o jogo. LeBron, em sua jornada para seu primeiro título , tinha anotado apenas oito pontos e parecia perdido em quadra.

Mas, agora, com um arremesso, ele poderia empatar o jogo, fazer todos esquecerem o que (não) aconteceu e segurar os Mavericks na série, caso ele tivesse a oportunidade.

Mas Jason Terry não deixaria isso acontecer. Quando Mike Miller estava com a bola para cobrar uma reposição na lateral, Mario Chalmers fez um bloqueio para LeBron, mas Terry achou um espaço para continuar colado no ala. Miller fingiu o passe em direção ao que estava acontecendo, mudou de ideia e escolheu Dwyane Wade, que perdeu a bola e se jogou no chão para que não voltasse para a quadra de defesa.

Wade, da maneira possível, conseguiu retornar a bola para Miller, enquanto James assistia. Na diagonal da cesta, Miller arremessou da linha de 3 pontos, desesperado, e errou, acertando só o aro. A bola caiu no chão, e o fim do jogo chegou. O LeBron derrotado, que só teve um arremesso no último quarto, foi lentamente para o vestiário.

O Heat não conseguiu se reerguer depois disso, perdendo os últimos dois jogos da série e o título para Dallas. As críticas mirando LeBron cresceram mais do que nunca: onde estava o 'Rei' quando seu time mais precisou dele?

Sua carreira desde esta série contra os Mavericks deu a resposta à esta pergunta.

Onze temporadas e quatro títulos depois, LeBron está rapidamente se aproximando do recorde de Kareem Abdul-Jabbar, o lendário pivô de Milwaukee Bucks e Los Angeles Lakers, de mais mais pontos na história da NBA. Os Lakers estão passando dificuldades desde que venceram o título em 2020, mas LeBron continua dominante.

Esta é a história contada sobre o pior desempenho de LeBron em sua carreira - o Jogo 4 das Finais da NBA de 2011 - e como ele usou isso para se tornar um dos maiores da história do basquete.

James se tornou um dos atletas mais odiados no esporte depois de deixar sua terra natal (Cleveland) e "levar seus talentos" para a Flórida, formando um supertime com Wade e Chris Bosh, em 2010. Ele foi apelidado de "LeFraud" (A fraude) e estava em um território distinto do prodígio amado que era.

Nos playoffs de 2011, o Heat eliminou Sixers, Celtics e Bulls, cada um deles em cinco jogos. O Heat venceu o Jogo 1 das Finais, em casa. James teve 24 pontos, nove rebotes e cinco assistências. Mas, no Jogo 2, Miami perdeu de virada, quando liderava por 15 pontos no último quarto. LeBron teve apenas dois pontos nos 12 minutos finais.

O Heat venceu o Jogo 3, mas LeBron, novamente, teve apenas dois pontos no último quarto. Neste momento, Miami estava vencendo a série, por 2-1.

LeBron [em um episódio do programa "The Shop"]: Meu primeiro ano em Miami... Eu queria provar que todo mundo estava errado.

Eddie House, armador do Heat: LeBron é um grande cara. Engraçado, fala bem, sem medo. É um grande líder. No seu primeiro ano em Miami, ele agiu de maneira diferente: Era sério, 'todos me odeiam, por isso quero mostrar que eles não deveriam me odiar'. Isso caiu em cima dele silenciosamente. Não parecia que ele estava se divertindo em alguns momentos, um cenário bem diferente anteriormente, quando parecia que sempre se divertia jogando.

David Fizdale, assistente técnico do Heat: Aquele ano foi bem difícil para LeBron, por causa de sua decisão de ir para Miami e tudo que ele recebeu, por simplesmente ser uma pessoa normal que pode controlar seu destino e carreira, escolhendo onde gostaria de jogar. Ele realmente foi crucificado por isso. A mídia nunca esqueceu disso. Era uma boa história e as mais negativas sempre dão mais eco.

Eddie House: LeBron era mais perseguido ainda por causa daquilo, simplesmente pela decisão que tomou e tudo que as pessoas estavam dizendo.

Na temporada regular, os três melhores jogadores de Miami - James, Wade e Bosh - anotaram dois terços dos pontos totais. Dallas era liderado pelo futuro Hall da Fama Dirk Nowitzi, junto com Jason Kidd na armação e Tyson Chandler, defensor do ano naquele momento. Mas os Mavs precisavam de tudo que tinham para vencer James e companhia, incluindo diferentes formações em quadra, criados pelo técnico Rick Carlisle, e diferentes esquemas de defesa para conter todo aquele arsenal, por conta de Dwane Casey.

O antigo Sexto Homem da temporada, Jason Terry, estava no banco e entrava ao lado do armador DeShawn Stevenson, que começou os três primeiros jogos daquela série. Stevenson foi substituído pelo armador J. J. Barea, 1,78m.

Barea: Em nossos aquecimentos, havia várias conversas entre mim, Jason Kidd, Jason Terry, Tyson Chandler, Shawn Marion (ala), Dwane Casey, Carlisle e Terry Stotts (assistente na época e depois técnico do Portland Trail Blazers e Indiana Pacers). Nós discutíamos algumas vezes, sempre sobre o que aconteceria no jogo. Próximo do Jogo 4 começar, eu lembro do técnico [Carlisle] dizer: "Ei, você vai começar e vou colocar DeShawn Stevenson para vir do banco". Eu disse: "Ok, estarei preparado."

Joel Anthony, pivô do Heat: Ele realmente deu a eles uma mudança de postura. E isso definitivamente os ajudou a mudar a energia e colocar todo o momento a favor de Dallas.

Barea: Sempre haverá alguns momentos em que terei que marcar grandes jogadores como LeBron. É difícil, mas eu sei que sou muito bom em marcar grandes jogadores fora do garrafão. Eu gosto disso. Eu sei que eles vão tentar vir para cima e sei lidar com a força.

Shawn Marion: Isso faz parte da pós-temporada. O trabalho de grandes técnicos é esse, fazer os ajustes necessários. Quando você olha nosso time, nós talvez tivéssemos o elenco mais rico nos playoffs. Por muito. Quanto mais longe você vai, mais você precisa do seu time inteiro, incluindo o banco de reservas.

No vestiário antes do jogo, Carlisle chamou seu time para conversar sobre dominar o Heat como um coletivo. O técnico usaria todo o time para fazer isso. Enquanto isso, o técnico do Heat Erik Spoelstra, implorou para seus jogadores fazerem o simples contra o Mavericks.

O jogo começou com Nowitzki anotando um fadeaway (estava de costas para o marcador, gira seu corpo e inclina para trás, levantando sua perna direita, como sempre) na direita do ataque. Depois outro arremesso parecido, no lado esquerdo. No ataque seguinte, recebeu a bola na média distância e converteu. Enquanto isso, o Heat só foi anotar dois minutos depois. LeBron anotou seus primeiros quatro pontos com um rebote ofensivo e lances livres. O primeiro quarto acabou com um empate (21 a 21), mas Nowitzki e o Mavericks deixaram claro como seria até o fim da partida.

Corey Brewer, ala/armador do time: Eu não vou dizer que o Jogo 4 foi como um Jogo 7, mas tudo mudou naquele momento. Nós estávamos muito focados. Tínhamos jogadores veteranos e eles sabiam o que era necessário para vencer.

Eddie House: Quando você está passando por dificuldades, em qualquer série de playoff, os caras que supostamente são os caras precisam ser os caras e você faz o que pode com os jogadores de rotação. Nosso caras estavam errando nos jogos da série, enquanto do outro lado... Os caras estavam realmente convertendo tudo.

Mike Bibby, armador do Heat: A confiança de Dirk era: "Eu não sei se alguém poderia me parar naquele time". Eu acho que era essa a mentalidade dele naquele momento.

Corey Brewer: Dirk deixou que seu jogo falasse sobre si.

Dirk Nowitzki [em uma coletiva de imprensa após o Jogo 4]: Estamos nas Finais. Precisamos fazer tudo que é possível e deixar tudo em quadra.

O ataque do Heat estava perdido no segundo quarto, sem execuções coletivas. Durante uma corrida de 9-0 que Dallas conseguiu faltando sete minutos para o intervalo, Miami perdeu quatro posses de bolas seguidas por conta de confusões e desorganização: uma falta de ataque de LeBron em Kidd, estouraram os 24 segundos, um passe errado que não achou LeBron infiltrando no garrafão e um roubo de bola depois de um screen que LeBron estava fazendo.

LeBron arremessou apenas uma vez, no estouro do cronômetro, que acertou a tabela e o intervalo começou. O Heat ainda estava na frente, por 47 a 45.

David Fizdale: A primeira questão para nós é sempre tentar jogar próximo e de costas para a cesta (post-up). Se LeBron estiver com a bola, não queremos que Joel Anthony esteja no outro lado, na melhor posição possível oposta enquanto a jogada pode acontecer. Tem pelo menos três jogadores brilhantes do outro lado e estão utilizando o sistema contra nós, enchendo o garrafão e se posicionando para fazer a melhor jogada possível.

LeBron [em coletiva depois do Jogo 4]: Eu estava com a bola para jogar de costas algumas vezes e vi algumas marcações duplas. Eu tentei achar outros caras para arremessos livres. Ao mesmo tempo, eu não conseguia parar de ser agressivo quando eles me marcavam assim. Eu tentei envolver mais meus companheiros de time, fazer jogadas para que eu tivesse ritmo nesse jogo.

Shawn Marion: Nós conseguimos tirá-los da zona de conforto.

Corey Brewer: Jason Kidd foi fenomenal na defesa em todos os jogos. Tinham medo dele até longe.

David Fizdale: Nós arrebentamos... O que fizemos com LeBron foi sensacional, simplesmente dando espaço para ele e fechando a situação.

Mas o Heat tinha Wade, que converteu todos os seus cinco arremessos no terceiro quarto. Enquanto isso, LeBron estava tendo seu melhor quarto além da pontuação, conseguindo quatro pontos, quatro rebotes e três assistências. Faltando um minuto no período, ele colocou sua força sobre Jason Terry na linha de lance livre e converteu um arremesso. Foi desafiador e decisivo. Este foi o último ponto dele no jogo.

O Heat conseguiu uma sequência de 8-1 ao fim do terceiro quarto e liderava no último período, por 69 a 65, mas LeBron (3/10 em aproveitamento naquele momento) ainda comandava o time.

Bibby: D-Wade foi o cara daquele jogo.

Wade [em coletiva no fim do Jogo 4]: Meu time precisou de mim mais do que o esperado em um esquema ofensivo unidimensional. Então, obviamente, eu estava em um ritmo de ataque.

LeBron [na mesma coletiva]: Eu estou confiante na minha habilidade. É sobre ir lá, achar alguns espaços e converter os arremessos.

David Fizdale: Eu não ligo para o que as pessoas dizem, mas um arremesso convertido não vai se repetir se você não conseguir alguns lances livres [LeBron e Wade combinaram para 13, com o ala tentando apenas quatro]. Não estávamos facilitando a vida de ninguém.

Mike Bibby: Eu nunca estive em uma situação como essa: "Ah, nós dois somos os principais desse time. Não é a minha noite, então vai para cima. Faz o que precisa fazer. Ganha essa para a gente". Acho que LeBron estava dizendo [para Wade]: "Ok, você pode fazer o que puder agora."

Zydrunas Ilgauskas, pivô do Heat em 2011: A temporada inteira nós tivemos alguma marcação dupla e não sabíamos o que fazer, muito menos quem forçar nestas situações. Porque Chris Bosh, Dwyane Wade e LeBron são os principais caras. Então, era sempre uma dúvida: "É o nosso dia? Hoje posso então forçar uma bola?"

Dirk Nowitzki [na coletiva de imprensa depois do Jogo 4]: Não importa quem esteja com a bola [sobre o Big Three do Miami], mas os outros dois não podem receber o passe.

Wade [na mesma coletiva]: Obviamente quando você tem jogadores em um bom ritmo, agressivo, como eu e Chris Bosh estamos jogando, você fica um pouco passivo. É isso que LeBron enfrentou no Jogo 4. É algo que eu tive na série contra Chicago... Quando LeBron estava com a bola, nós queríamos, e ainda queremos, que ele tire total vantagem dessas oportunidades.

LeBron [na coletiva em que ambos participavam]: Eu só preciso ser mais preciso e efetivo. É tudo sobre uma execução mais assertiva.

Mas LeBron passou aqueles 12 últimos minutos do jogo de uma maneira neutra: passivo na zona morta ou às vezes subindo para passar a bola para o lado.

Um pouco mais de três minutos depois, os Mavericks substituíram J. J. Barea para colocar Jason Kidd, que se juntou a Nowitzki, Stevenson, Terry e Chandler. Carlisle e Casey estavam usando as marcações em zona e individuais ao mesmo tempo. Contra isso, LeBron perdeu um arremesso no período, contra Stevenson, faltando 2:25 no relógio.

J. J. Barea: Nós colocamos Kidd para marcar o LeBron algumas vezes e, em todas as oportunidades que teve, ele tentou uma bandeja e Tyson Chandler estava esperando ele no aro. Nós começamos a trocar em todas as oportunidades. Fomos de uma marcação em zona para individual, na tentativa de pressioná-los em alguns momentos na série. Com a segunda unidade, eu e Jason Terry somos pequenos, então o técnico dá muita liberdade para trocarmos, dependendo do nosso entendimento, e foi o que fizemos.

Joel Anthony: Não era algo que lidamos com tanta força assim na temporada regular, em termos de atacar contra uma marcação que troca tanto assim, até de fundamento (zona para individual). Nós não conseguimos fazer o possível e muito menos do jeito que queríamos.

Dwane Casey: Nós sabíamos que marcar LeBron e Wade no individual seria impossível. Precisávamos fazer algo para contra-atacar suas habilidades atléticas.

Joel Anthony: Muito do que estávamos fazendo, porque éramos um bom time defensivo, era conseguir parar o ataque deles e daí conseguir sucesso contra eles. Quando este momento, em que a defesa criava a transição ofensiva, parou, o que normalmente acontece em um playoff, especialmente no último quarto, quando as coisas ficam mais lentas, não conseguimos ter outra resposta ou jogo para funcionar.

Dwane Casey: Contra grandes atletas, você não pode dar ritmo para eles. Você precisa fazer com que eles estejam marcados demais. O único jeito para o Heat vencer, seria se forçassem chutes de 3 pontos. Nós jogamos em zona a maior parte do Jogo 4 e Jogo 5. Mas o Jogo 4 nos deu muito mais confiança para nosso desempenho no Jogo 5. A marcação em zona continuou tirando o balanço deles e os fez ficar mais lentos para pensar.

Joel Anthony: No basquetebol, no momento em que você passa a pensar sobre as coisas, você perdeu. Não é como se LeBron estivesse simplesmente errando no Jogo 4. Ele não tinha a mesma agressividade que vimos durante a temporada inteira.

Eddie House: Para James era algo como: "Eu estou aqui, mas não estou. Minha mente está em outro lugar": Na maioria das vezes travado, pálido. Vários caras passaram por ele e diziam: "Ei, precisamos de você. Vamos lá. Vamos!". Em algum momento, com todas essas repetições, você começa a ouvir, mas não escutar direito, porque todos falavam a mesma coisa, repetidamente. Isso também deve ter tirado ele de sua concentração e o deixado estagnado, seja qual situação fosse, porque estava lidando com muita coisa mentalmente, sem claridade da situação.

LeBron [em uma coletiva depois do Jogo 4]: Você começa a tentar alguns arremessos. Você pensa demais sobre as jogadas e o que fez. Você começa a pensar demais sobre o jogo, ao invés de ir lá, fazer a leitura, reagir e jogar.

Zydrunas Ilgauskas: Voltando a olhar para este jogo, gostaria que LeBron fosse mais agressivo, mas é difícil estar na pele do outro. Eu sempre disse a ele que eu jamais consideraria qualquer arremesso tentado dele ruim.

David Fizdale: Nós estávamos tentando jogar como o antigo Heat, quando tinha apenas Dwyane Wade, com apenas ele de estrela e foi isso. Nós não estávamos prontos para mudar o que já estávamos fazendo.

Os 14,4 segundos finais colocaram tudo em destaque e em uma perspectiva pior ainda.

Depois que Wade perdeu o lance livre para empatar o jogo e Nowitzki fez a bandeja, o Heat tinha duas posses e perdia por três pontos. LeBron foi o espectador na zona morta do lado direito nas duas chances. Na primeira, Dallas permitiu uma enterrada de Wade (a única conversão de Miami nos último sete minutos). O 'airball' de Mike Miller encerrou a segunda, e Dallas venceu por 86 a 83. A série estava empatada e as duas jogadas começaram por Wade.

A questão que passava pela cabeça de todo mundo: o que aconteceu com LeBron no Jogo 4? O atleta em questão se recusou a falar sobre essa história e dar uma entrevista.

LeBron [no "The Shop"]: Nesta série eu literalmente me perdi em um momento.

Joel Anthony: LeBron nunca esteve nesta situação desde o colegial. Foi uma mudança muito grande, em não ser mais o principal jogador e ter estas situações em que você ainda é o número um, mas a posse de bola está nas mãos de outra pessoa. Isso seria difícil para qualquer outro jogador, não importa o quão bom seja: lidar com isso e conseguir estar presente para jogar, até ser eficiente nesta situação é algo complicado.

David Fizdale: Naquele momento, sem dúvida foi o pior jogo de LeBron. Se você olhar estatisticamente, vai ter certeza disso. O jogo provavelmente chame mais atenção ainda, para ele e para nós. Provavelmente isso o incomode até hoje e ele adoraria jogar este jogo mais de uma dezena de vezes novamente.

J. J. Barea: Quando empatamos a série, isso nos deu a confiança necessária: "Ei, nós podemos vencer", e talvez LeBron tenha pensado também: "É... Talvez isso seja mais difícil de ganhar do que eu achei. Podemos perder". Acho que foi neste momento que a pressão caiu sobre ele.

Mike Bibby: Todo mundo [no Heat] estava dizendo: "Nós vamos ganhar no próximo jogo. Nós sabemos como vencê-los. Vai dar certo". E nosso melhor jogador com menos de dez pontos, enquanto perdíamos por três? Isso não vai acontecer de novo. Era isso que pensávamos e chegamos no Jogo 5 assim.

Chris Bosh [em coletiva de imprensa depois do Jogo 4]: Não é o primeiro jogo ruim de LeBron na carreira. Ele sabe como lidar com isso e seguir em frente. Nós já vimos ele ir mal em um jogo na série passada, quando fez apenas 15 pontos em 5 conversões de 15 tentadas, na derrota para o Bulls, e depois conseguiu 29 no Jogo 2. Ele já esteve nessa situação. Todos nós já passamos por isso. Temos que continuar confiando em nós mesmos e confiar um no outro.

Spoelstra [na mesma coletiva]: LeBron não precisa pensar muito no que aconteceu. Ele já se provou um grande jogador. Ele sabe como ser agressivo e onde achar espaços. A mentalidade agressiva será necessária. Nós faremos algumas coisas para ajudá-lo e colocar ele em posições para usar sua agressividade.

J. J. Baria: Quando vencemos o Jogo 4... Foi o momento em que tudo mudou. A confiança de LeBron se foi, especialmente no ataque. Ali entendemos que tínhamos chances reais.


Antes do Jogo 5, que LeBron diz ter sido o seu maior momento na carreira, principalmente por ter que lidar com o que aconteceu no Jogo 4, um vídeo surgiu mostrando LeBron e Wade tossindo enquanto andavam pelo túnel da American Airlines Center, em Dallas. Muito se falou sobre ser uma zoação sobre Nowitzki, que jogou o Jogo 4 com uma febre.

Naquele tempo, LeBron e Wade não falaram sobre suas condutas. Em 2021, Wade disse que era mais uma piada com a mídia do que com Nowitzki, mas admitiu que não gostou de ter assistido isso e diria para seu filho não fazer o mesmo. Ano passado, Nowitzki disse que não viu o vídeo até o fim do Jogo 5, mas seus companheiros de time disseram que o vídeo sedimentou o sentimento de que seriam campeões.

J. J. Barea: Fazer piada com Dirk, por estar doente, isso realmente nos deu mais energia. Não precisávamos de mais nada. Fizemos questão de que Notwizki assistisse ao vídeo.

Corey Brewer: Eu lembro que Dirk estava meio: "Tranquilo, tanto faz. Eu vou mostrar à eles."

Caron Butler, ala do Mavericks [em entrevista para Bally Sports Southwest]: Quando Dirk sente que as pessoas não acreditam que ele nasceu para aquilo, ele simplesmente alcança um nível diferente. Imediatamente se transformou para, o que eu diria, ser o momento de maior confiança existente e sabia que o título seria comemorado em Dallas.

Nowitzki anotou 29 pontos no Jogo 5 e conseguiu 21 tentos e 11 rebotes no Jogo 6. Quando LeBron esteve em quadra, seu time perdeu por 35 pontos nestes dois jogos. Dirk Nowitzki conseguiu seu troféu de MVP das Finais, quando conquistou o primeiro título dos Mavericks ao fechar a série em 4-2.

Três dias depois a ESPN publicou um texto: "LeBron precisa de um psicólogo do esporte?" E o atleta desapareceu na intertemporada. Não retornou para a quadra por mais de seis meses, por conta de uma greve que os jogadores fizeram naquele ano.

James [no "The Shop"]: Nós perdemos porque eu nem estava lá... Não estive presente naquele jogo.

David Fizdale: Eu sei que ele chorou bastante. Ele passou dias sozinho na escuridão, procurando forças para se encarar. Ele realmente estava em sua própria bolha. Isso o forçou a lidar ferozmente com o seu ego. Quando você sofre em um nível monumental assim, especialmente em coisas que você se identifica e luta, é sempre uma queda dura. Eu acho que foi o ápice de tudo o que ele tinha ouvido e teve que rever tudo que estava em sua mente, com essa ideia de compreender "quem realmente somos e o que somos."

LeBron [em uma entrevista de 2019 para a ESPN]: O nível de análise que eu tive que lidar e o jeito que tive que sair da minha zona de conforto foi tanto que eu perdi o meu amor pelo jogo. Eu sabia que era uma questão de clarear minha mente.

Eddie House: Essa série foi algo que realmente ele pode olhar diretamente para estas coisas que estavam incomodando e refletir sobre o que passou, até para dizer: "Eu nunca mais terei uma oportunidade e vou deixá-la escapar, muito menos deixar meu time na mão. Não quero mais passar por isso", e ele seguiu assim. Isso o motivou a se transformar.

Joel Anthony: D-Wade disse para ele: "Olha, isso é seu time e o palco é todo seu. Nós podemos ir tão longe quanto você conseguir". É o tipo de mudança onde não há mais tanta hesitação. Nós sabíamos o que ele queria fazer.

David Fizdale: Naquele momento [depois de perder as Finais de 2011 para o Dallas], seja o que ele tenha feito, eu simplesmente vi um novo LeBron chegando no treino. Foi realmente muito lindo ver sua evolução.

No Jogo de Natal em 2011, quando a temporada retornou e eles jogaram novamente contra ao Dallas, LeBron conseguiu 37 pontos, 10 rebotes e 6 assistências na vitória de Miami por 11 pontos.

A redenção, talvez, chegaria na pós-temporada. LeBron deixou de fora todo o ruído, lendo livros ao invés de consumir alguma mídia, seja ela online ou não.

Então chegou o que talvez foi o melhor jogo de sua carreira: um atropelo contra o Celtics, em Boston, no Jogo 6 das Finais de Conferência Leste de 2012, que colocou o Heat liderando a série, com LeBron anotando 45 pontos e 15 rebotes. Foi um ano depois do Jogo 4 das Finais em 2011. LeBron venceu o Jogo 7 também. Eles conseguiram o título mais tarde, o primeiro da carreira do ala.

David Fizdale: Foi um dos desempenhos mais impressionantes que eu já vi em uma quadra de basquete e eu acho que tem muita relação com o que aconteceu em Dallas.

Joel Anthony: Para nós, chegar no lugar em que queríamos e fazer funcionar diante do nosso objetivo, algumas vezes temos estas derrotas que nos ajudam nestes momentos.

David Fizdale: Perder as Finais de 2011 fez com que Spoelstra mudasse nosso sistema, para que funcionasse com LeBron, ao invés de colocá-lo no que estava sendo construído por nós. Nosso sistema começou a funcionar no ano seguinte e os números de LeBron aumentaram demais por isso.

Eddie House: Você não consegue atingir o posto de Michael Jordan sem vencer um campeonato.

Na temporada 2012/2013, LeBron conseguiu seus melhores números no aproveitamento de chutes (56,5%) e em arremessos de 3 pontos (40,6%). Miami conseguiu uma sequência de 27 vitórias seguidas, venceu o segundo título com o jogador contra o San Antonio Spurs, que contou com aquele momento memorável da NBA em que Chris Bosh conseguiu um rebote, passou a bola para Ray Allen, que converteu, forçando o Jogo 6 para prorrogação e depois conquista do título. LeBron foi MVP da temporada e das Finais pelo segundo ano seguido. Wade e LeBron se tornaram uma das melhores duplas da história e seu sucesso deu exemplo para unir grandes estrelas do basquete. Além disso, LeBron começou a entrar nas conversas sobre ser o melhor jogador da história da NBA.

Corey Brewer: LeBron sempre fez de tudo para alcançar o maior posto do basquete. Então ter um jogo como esse, em que ele perde nas Finais, é claro que o ajudou a compreender melhor algumas coisas e o tornou melhor. E, como vimos, isso definitivamente o fez muito bem. Acho que foi uma motivação para ele.

LeBron [fez um tweet sobre o Jogo 4, no dia 17 de maio de 2022]: Eu apertei o botão reset e voltei ao básico. Trabalhei algumas coisas do meu jogo e eu precisava melhorar para que a defesa não conseguisse me parar. Horas e horas e horas todos os dias da intertemporada nisso.

Shawn Marion: Eu acho que isso o fez ter mais consciência do que acontecia no garrafão. Ele adicionou mais coisas no seu jogo também. Ele é um destes caras que, com sua habilidade e com o que sabe fazer, é realmente especial, principalmente porque conseguiu fazer isso por 20 anos.

Dwane Casey: Ele é um computador em quadra. Quando você joga contra LeBron, é uma partida de xadrez. Essa série fez ele ver o jogo e pensar sobre o jogo... Aliás, é este o porquê de me tornar técnico hoje. Eu passei três anos perdendo para LeBron (em Cleveland) nos playoffs, quando era técnico de Toronto. Mas lá, nada disso funcionou.

David Fizdale: Ele parou de jogar com a preocupação que as pessoas pensavam sobre ele ou sobre o que aconteceria se não ganhasse.

Mike Bibby: Todo mundo ainda fala muito dele e LeBron vai pssar Kareem Abdul-Jabbar como maior pontuador na história da NBA. Ele tem uma mente forte o bastante para entender como bloquear este barulho e ficar longe destas distrações. Eu acho que ele aprendeu para a próxima vez que "isso nunca vai acontecer de novo."

LeBron [em entrevista com a ESPN, em 2019]: Conseguir parar por dois minutos ou 30 segundos, que seja, fechar meus olhos e conseguir relaxar, me acalmar, em um ginásio lotado, com 20 a 22 mil pessoas gritando malucas, tem funcionado demais para mim na minha carreira. É como uma meditação, basicamente.