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A ascensão de Victor Wembanyama significa o fim da dinastia dos Estados Unidos no basquete?

Francês deve ser a primeira escolha do Draft da NBA em 2023 e é considerado um talento geracional


Victor Wembanyama carrega em sua mente uma data, um aniversário sinistro de algo que, aparentemente, não consegue deixar para trás.

“Aquela derrota. Eu penso naquilo todo dia desde o dia 11 de julho de 2021”, comentou Victor em uma entrevista ao L’Equipe. “Quando tudo se desfaz em um instante enquanto você está próximo do seu sonho, é difícil".

Aquele dia, na capital da Letônia, a França perdeu, por 83 a 81 para os Estados Unidos, na final da Copa do Mundo de basquete sub-19. Wembanyama, como esperado do melhor jovem do planeta, impressionou com 22 pontos, 8 rebotes e 8 tocos.

Mas Wembanyama saiu de quadra por muitas faltas, faltando três minutos para o fim da partida. A jogada foi claramente uma falta, onde acertou o armador Jaden Ivey, que hoje joga no Detroit Pistons, mas Victor ainda reclamou.

Wembanyama andava pela arena, mordendo a gola de seu uniforme enfurecido, mas era melhor que fazer outra coisa e ser duramente punido por isso. Em entrevista, o prospecto falou sobre como perde sua tranquilidade com uma derrota e precisa trabalhar para “se manter civilizado”. Isso foi mostrado ali em Riga, na Letônia, e quase que não consegue se segurar.

Não é uma surpresa saber que os jogadores que ele mais estudou são Michael Jordan e Kobe Bryant. Outra data que Victor não pode esquecer, segundo ele, é 26 de janeiro de 2020, o dia da morte de Bryant.

“Venho pensando sobre isso quase todo dia desde que aconteceu”, Wembanyama disse. “Eu sei todas suas estatísticas e recordes, mas o que eu mais admirava era o seu estado mental e filosofia ao chegar no jogo. Quando eu sofro, quando tenho alguma dúvida, eu sempre penso o que Kobe teria feito. E eu sei que ele teria feito melhor, por isso eu coloco minha cabeça no lugar e sigo em frente.”

Depois de atingir o limite de faltas e ficar fora da partida, a França sentiu a falta de Wembanyama em quadra. Perdeu a chance de empatar ou vencer quando os estadunidenses pegaram dois rebotes ofensivos, faltando dez segundos. Provavelmente Victor teria agarrado aqueles rebotes. Quando o fim do jogo veio com aquele barulho e o time estadunidense comemorou, o jovem francês estava mordendo sua toalha enfurecido com o que havia acontecido.

“Só fiquei pensando o que fez minha mandíbula doer tanto”, Victor disse. “É um arrependimento. Um tipo de buraco que tenho no meu peito e não pode ser preenchido. Então eu preciso consertar isso.”

Isso é relevante porque o garoto de 18 jogou pela seleção principal da França pela primeira vez nos últimos dias. Está sendo contado como um momento de transição no basquetebol francês, fazendo comparações com os heróis do futebol Zinedine Zidane e Kylian Mbappé, em seus primeiros passos jogando pelo Bleus.

Há um possível cenário para enxergar este desenvolvimento nos próximos anos, podendo enfrentar os Estados Unidos na Copa do Mundo no próximo verão em Manila, Filipinas, ou também, é claro, nas Olimpíadas de Paris 2024.

Em seu primeiro jogo na sexta-feira passada (11), Wembanyama marcou 20 pontos, com 9 rebotes, em apenas 24 minutos, no confronto contra a Lituânia. Na segunda-feira (14), Victor ajudou os franceses a conseguir acesso à Copa do Mundo de 2023, com 19 pontos em 25 minutos, em uma vitória de 92 a 56, contra a Bósnia.

Estas eliminatórias no meio da temporada da NBA não costumam atrair os melhores talentos, já que a Liga nem sequer considera interromper jogos da G League para eles. Mas isso é importante na França. A Liga Francesa deixa de jogar para isso, e Vincent Collet, técnico de Wembanyama no Metropolitans 92, também é o técnico da seleção nacional. Isso não é uma coincidência: Collet aceitou o trabalho com o time depois que Wembanyama se comprometeu a jogar lá, na última intertemporada, e está ajudando o garoto para a boa forma ao entrar no draft da NBA de 2023.

Apenas três semanas após a equipe francesa sub-19 perder para a equipe estadunidense, naquele jogo que Victor não esquece, as equipes principais jogaram fizeram um belo jogo na Olimpíada de Tóquio. Nela o time dos Estados Unidos ganhou o jogo disputado, por 87 a 82.

Em 2019, a equipe francesa venceu os EUA, na Copa do Mundo na China, para quebrar a série de 58 vitórias seguidas, que remontava a 2006, quando foram eliminados na Olimpíada. Em Tóquio, a França venceu os americanos na fase de grupos, entregando aos EUA sua primeira derrota olímpica desde 2004, quebrando uma série de 25 jogos.

Em 2024, os franceses terão a vantagem da quadra e tentarão impedir que os EUA ganhem o quinto ouro olímpico consecutivo.

E eles estão planejando ter Wembanyama para isso, que disse ser sua intenção jogar o máximo de vezes que puder com a seleção nacional, mesmo na intertemporada. Combinado com o astro francês Rudy Gobert, dá à França uma enorme vantagem contra qualquer equipe do mundo e uma dupla de defesa de garrafão potencialmente devastadora.

A equipe dos Estados Unidos está em uma situação complicada, em relação à altura a nível internacional. Muitos dos principais pivôs do mundo não são estadunidenses: Gobert, Nikola Jokic (Sérvia), DeAndre Ayton (Bahamas), Jusuf Nurkic (Bósnia), Kristaps Porzingis (Letônia), Jonas Valanciunas (Lituânia), Nikola Vucevic (Montenegro), Jakob Poeltl (Áustria), Clint Capela (Suíça) e Ivica Zubac (Croácia).

Essa é a maior parte dos titulares da NBA. Os estadunidenses são afortunados. Bam Adebayo não guardou muito rancor por ser o último corte da equipe que foi à Copa do Mundo de 2019. Ele era elegível para jogar pela Nigéria, em Tóquio, e o considerou seriamente antes de entrar para a equipe dos EUA.

Karl-Anthony Towns tem uma habilidade ideal para o jogo internacional, mas ele jogou pela seleção da República Dominicana na adolescência, o tornando não elegível para jogar pelos Estados Unidos da América.

É por isso que todos ficaram de olho no momento em que Joel Embiid tornou-se cidadão estadunidense, no início deste ano. O recrutamento para a equipe americana é um pouco menosprezado, mas levá-lo à Olimpíada de 2024 pode ser um grande feito. Embiid também tem cidadania francesa e poderia se juntar a Gobert e Wembanyama para Paris, se estiver tão disposto a isso.

Mesmo com 2,23m, as tremendas habilidades de Wembanyama com a bola permitem que jogue como ala, pelo menos por um tempo. Outro ponto: Com um joelho saltado, na linha da cintura, parecido com Dirk Nowitzki e Kevin Durant, Victor consegue arremesar assim da linha de 3 pontos.

Isso já aconteceu duas vezes em nível internacional e prepare-se para ver mais, porque ele explicou ao L'Equipe por que ele existe, e este tipo de resposta é uma das razões pelas quais ele parece ter tudo para ser um dos melhores jogadores do mundo:

"Um jogador de basquete é como um jogador de xadrez, você tem que ser capaz de antecipar cada movimento de seus adversários e ter uma resposta. Os adversários sempre se adaptam. Estou trabalhando nesta jogada há meses. Eu quero ser capaz de me tornar indefensável".

A possível onda imparável Wembanyama tem implicações em todo o esporte e os últimos dias servem como lembrete.