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Do interior de Minas Gerais ao octógono de Las Vegas: lutadoras do UFC contam o caminho até a elite do MMA

Do interior de Minas Gerais ao maior palco do MMA mundial, duas histórias diferentes se encontram no mesmo ponto: o octógono do UFC. Vindas de cidades pequenas, Natália Silva, natural de Pingo d’Água, e Amanda Ribas, de Varginha, carregam trajetórias marcadas por superação, persistência e a quebra de barreiras em um esporte que, durante muito tempo, foi visto como território masculino.

Em um especial pelo Dia Internacional da Mulher, as duas brasileiras falaram sobre as dificuldades do início, os preconceitos enfrentados ao longo do caminho e o orgulho de representar mulheres dentro de um dos esportes mais duros do mundo.

Para Natália Silva, a caminhada até o UFC começou quase por acaso. Criada em Pingo d’Água, no interior mineiro, ela entrou nas artes marciais por curiosidade, após o convite de uma vizinha para experimentar uma aula de taekwondo. O que começou como um teste acabou se transformando em uma carreira que hoje a coloca a um passo do cinturão.

“A minha principal inspiração no começo foi a minha própria história. Quando comecei, eu perdia muitas lutas, então a vontade de me superar e de vencer virou a minha maior motivação”, contou a brasileira.

Hoje consolidada entre as principais lutadoras da divisão, Natália vive o melhor momento da carreira após uma vitória importante sobre a ex-campeã Rose Namajunas. O triunfo, segundo ela, a colocou definitivamente na rota de uma disputa de cinturão.

“Foi uma vitória muito importante, uma luta muito difícil. Eu sei que essa vitória me colocou em uma posição e me consolidou como a próxima desafiante. Agora é só aguardar o UFC me ligar e falar a data”, afirmou.

O sonho de disputar o título ganhou ainda mais força com a possibilidade de lutar em um evento histórico do UFC planejado para acontecer na Casa Branca. Para Natália, a ideia simboliza o tamanho da jornada que percorreu desde a pequena cidade mineira até o topo do esporte.

“Imagina só… de Pingo d’Água para lutar na Casa Branca. É grande demais”, disse, entre risos.

Mais do que vitórias dentro do octógono, Natália também celebra o impacto que sua trajetória pode ter na vida de outras mulheres. Segundo ela, receber mensagens de meninas e mães que se inspiram em sua história é uma das maiores conquistas da carreira.

“Eu vim de uma cidade muito pequena, passei muitas dificuldades e estou conseguindo alcançar meus objetivos. Ver que outras mulheres se inspiram na minha história, na força de vontade e na persistência, é algo muito honroso para mim”, afirmou.

Mesmo com o crescimento do MMA feminino, Natália admite que o preconceito ainda faz parte da realidade de muitas atletas.

“Eu acho que nunca vai acabar o preconceito. Já enfrentei por ser mulher e até por manter minha feminilidade. Mas a melhor forma de lidar com isso é trabalhando e mostrando resultado. Sempre vão falar alguma coisa, então o importante é continuar fazendo o que a gente acredita.”

A trajetória de Amanda Ribas, nascida em Varginha, também tem raízes profundas no interior de Minas Gerais e na tradição familiar nas artes marciais. Filha de treinador, ela cresceu dentro de academias e acompanhou de perto a evolução do MMA feminino ao longo da última década.

“Em 2027 vai fazer dez anos que eu assinei com o UFC. Ver a evolução da minha categoria e do MMA feminino é muito legal. Antes quase não tinha meninas treinando, hoje em dia tem várias lutadoras boas e o público quer assistir”, destacou.

Segundo Amanda, o crescimento da presença feminina nas artes marciais também tem impacto fora do esporte, especialmente no fortalecimento da confiança e da autonomia das mulheres.

“A arte marcial dá autocontrole, ensina a respirar, a pensar em momentos de pressão. Isso é muito importante para a mulher também, até em situações de defesa pessoal. Não é sair brigando, mas saber se proteger.”

Na academia onde treina, em Varginha, o cenário mudou completamente em relação ao passado.

“Antes eu treinava praticamente só com homens. Hoje a maioria das pessoas no tatame são mulheres. É muito especial ver esse espaço, que era considerado masculino, sendo ocupado pelas mulheres.”

Apesar do avanço, Amanda também enfrentou episódios de hostilidade ao longo da carreira, principalmente nas redes sociais. Um dos casos mais marcantes aconteceu quando ela publicou uma foto ao lado do presidente do UFC, Dana White, após uma luta em Abu Dhabi.

“Começaram a falar que eu só tinha entrado no ranking porque estava saindo com ele. Foram comentários muito baixos. Mas quem me conhece sabe da minha trajetória e do meu trabalho”, relembrou.

Entre histórias curiosas e momentos difíceis, Amanda vê no crescimento do MMA feminino um sinal claro de mudança no esporte. Para ela, o caminho aberto por lutadoras brasileiras ajudou a transformar o cenário global da modalidade.

“Hoje a gente vê várias mulheres lutando em alto nível e o público querendo assistir. Isso mostra que o MMA feminino conquistou o espaço dele.”

De Pingo d’Água a Varginha, passando pelos octógonos de Las Vegas e Abu Dhabi, Natália Silva e Amanda Ribas representam muito mais do que vitórias e rankings dentro do UFC. As duas carregam histórias que refletem a força de milhares de mulheres que encontram no esporte uma forma de transformação, inspiração e conquista de espaço.

E, enquanto seguem lutando por títulos e novos desafios, deixam uma mensagem clara para as próximas gerações: o lugar das mulheres também é no centro do octógono.