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UFC 292: Como Amanda Lemos superou pobreza para ser a possível próxima campeã brasileira

Amanda Lemos em evento do UFC Mike Roach/Zuffa LLC

Após a aposentadoria de Amanda Nunes no mês de junho, o Brasil ficou sem nenhuma campeã no UFC. E isso pode mudar neste sábado (19), no UFC 292, em Boston, quando a xará da Leoa, Amanda Lemos, enfrentará Weili Zhang pelo cinturão do peso palha da organização.

Aos 36 anos, Amanda Lemos terá a primeira chance de título da sua carreira. E a vida de Lemos no MMA por muito pouco não existiu. E ela só chegou a este ponto graças a sua própria força de vontade e superação.

Ela fez sua primeira luta profissional aos 27 anos, começando tarde no esporte. "Eu comecei tarde e sempre parava de treinar porque tinha que trabalhar. Tinha que me sustentar, então sempre tinha um período que eu parava de treinar", disse Amanda, à ESPN.

Mesmo já tendo em seu currículo o cinturão do Jungle Fight, principal organização de MMA em solo brasileiro, ela ainda não conseguia viver do esporte. "Já fui um pouco de tudo. Já fui garçonete, ajudante de cozinha, flanelinha, já vendi maça do amor na praça...".

"As coisas apertavam. Na época meus pais estavam desempregados e eu tinha uma moto, então fui atrás de ser moto-táxi. Eu fico sem tempo de treinar aí. Eu pensava 'o tempo que eu vou treinar ali eu já vou perder um trocado'. Eu fiquei uns 2 anos assim. Eu já tinha lutado no Jungle Fight. Na época do Jungle eu era vigilante, aí trabalhava de noite. Saía do trabalho 7h. Ia pra casa, tomava banho e já ia pra academia. Quando eu fui campeã do Jungle eu treinava uma vez por dia só e não ia todos os dias porque ficava muito cansada".

Foi nessa época, já perto dos 30 anos, que a paraense resolveu ser motorista de moto-táxi em Belém. Longe do MMA e na profissão para ganhar uns trocados, a brasileira revelou que diversas vezes esteve em contato com criminosos.

"No moto-táxi, várias coisas me marcaram. Estava com passageiro e a polícia parou e a passageira estava com a bolsa cheia de droga e armas. Ela já estava sendo seguida e a polícia parou. Eles queriam me levar pra delegacia e eu falei que não tinha nada a ver, que estava trabalhando. Aí ela falou que eu não tinha nada a ver e eles me liberaram. Aí nem trabalhei mais, fui pra casa, acabou meu dia (risos)", relembrou.

"Depois fui levar um passageiro no local que ele pediu e tinha a polícia lá e ele queria que eu desse fuga pra ele. A polícia estava na casa dele. Fiquei desesperada, falei 'desce da moto'. Já cheguei em um lugar e os traficantes me pararam com arma na minha cara. Eu ache que ia ser assaltada, mas eles falaram que não podia entrar naquele lugar de capacete".

Amanda revelou que até sofreu com preconceito por ser mulher no moto-táxi.

"No ponto de moto-táxi onde eu trabalhava só tinha homem. Era só eu e mais uma menina de moto-táxi e uns 30 homens. Eles queriam ser mais do que a gente e tinha hora que eu tinha que falar mais alto, menosprezavam a gente por ser mulher. Principalmente quando eu cheguei, que era novata, não queriam que eu fizesse corrida, queriam me enganar pra que eu não fizesse corrida porque era por vez. Às vezes a corrida era R$ 10 e o passageiro falava 'posso fazer por R$ 7, só tenho isso'. E eu falava que sim. E eles ficavam com raiva porque eu estava diminuindo o preço da corrida e vinham brigar comigo. Aí rolava uma discussão".

Estreia no UFC, suspensão e faxina

Andando pelas ruas de Belém em sua moto, Amanda Lemos recebeu certo dia uma ligação de Wallid Ismail, seu empresário até hoje. Leslie Smith havia ficado sem adversária para a luta de 16 de julho de 2017 no UFC Fight Night. "Quer lutar no UFC daqui 20 dias?", perguntou Wallid. "Será no peso galo...".

"Eu fique uns meses sem lutar e eu agoniada querendo alguma coisa porque eu não tinha dinheiro", relembrou Amanda. "Na época as coisas apertaram em casa e eu não foi mais treinar, foram 4 meses sem fazer nada, só rodando, às vezes rodava 24 horas por dia".

"Não estava treinando, mas falei 'me coloca lá que vou assim mesmo'. Liguei para o meu treinador, aí fui treinar e no segundo dia machuquei minha coluna, travou e eu não treinei mais e lutei assim mesmo, com um dia de treino. Perdi a luta e falei 'agora é isso que eu quero pra mim'".

Logo depois de fazer sua estreia no UFC, Amanda Lemos foi suspensa por dois anos após falhar em um exame antidoping pela substância Estanozolol. Mesmo assim, ela seguiu nos Estados Unidos treinando. E aí, além da suspensão, vieram mais complicações.

"Peguei minha grana do UFC, fui embora para os EUA treinar e fui suspensa depois de 4 meses treinando. Lá nos treinos minha coluna travava, meu treinador tinha que me carregar pra ir pra casa. Quando cheguei em Belém no início de janeiro e não conseguia treinar, fui no médico e descobri que estava com um osso quebrado e uma hérnia de disco. Passei pela cirurgia, depois de um mês infeccionou, tive que abrir de novo. Depois de 3 meses em recuperação o parafuso soltou e tive que fazer cirurgia de novo".

"A grana que eu peguei da primeira luta, eu troquei em real e levei R$ 1600 para os Estados Unidos ficar lá. E nessa época acabou a grana, eu fui suspensa e não tinha nem dinheiro pra voltar. Tenho uma amiga lá que ela trabalha com limpeza de casa e eu pedir pra trabalhar com isso. Falei 'me coloca pra trabalhar aí que eu pago minha passagem e faço ainda uma graninha pra não voltar lisa'. Logo que fui suspensa pedi pra trabalhar porque não tinha mais dinheiro. Trabalhava em Albuquerque, saía cedinho pra limpar a casa da galera. Era 10 dólares a hora".

Na volta ao Brasil, suspensa, sem poder lutar, os problemas financeiros voltaram.

"Paguei minha passagem e ainda trouxe uns reaizinhos, mas chegando em Belém, não demorou muito pra acabar. Fiz as cirurgias, foi praticamente um ano de recuperação. Eu queria voltar a andar de Uber de novo porque eu tinha moto. Mas lá em casa estava uma situação ruim, minha esposa fazia sobrancelha e ela tirava uma grana, minha irmã sempre me ajudou. Lá em casa nesse período a gente tinha o almoço, mas a janta era escassa. A gente comia um ovinho, alguma coisa. Minha irmã me chamava pra jantar na casa dela, eu ia toda noite. O dinheiro que minha esposa fazia de sobrancelha a gente usava pra comprar comida".

No retorno ao octógono, em 2019, foram sete vitórias em oito lutas - com sua única derrota sendo para Jéssica Bate-Estaca - e agora a chance pelo cinturão.

"Eu sempre tive esperança de que a situação ia melhorar, que tudo era uma fase. Tinha na minha cabeça que aquilo ia passar. Nada é pra sempre. Tinha muita fé em Deus que aquilo ia mudar e eu ia conseguir realizar meus sonhos e poder ajudar minha família. Meus pais lembram, amigos, eles choram porque lembram o que eu passei pra chegar aqui".