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UFC 287: Como Poatan superou alcoolismo, morte trágica do irmão e foi de borracheiro a estrela do MMA

Alex 'Poatan' Pereira (7-1) enfrenta Israel Adesanya pela segunda vez no MMA neste sábado (8), na Miami-Dade Arena, pelo UFC 287, na revanche que vale o título do peso médio seis meses depois de o brasileiro nocautear o nigeriano no UFC 281.

Bem antes de ser um dos lutadores mais temidos do planeta e uma estrela no MMA, Poatan era apenas Alexsandro Pereira, um garoto de 12 anos de São Bernardo, cidade da região metropolitana da capital do estado de São Paulo, que não gostava de estudar. Com essa idade, ele desistiu da escola.

Se os estudos não atraíam o jovem garoto, uma coisa não lhe faltava, a determinação para ganhar seu dinheiro e se sustentar na vida. Por isso, desde pequeno trabalhou como ajudante de pedreiro com o pai e fez outros trabalhos menores para poder ter e aproveitar coisas que qualquer criança dessa idade gostava: jogos de fliperama, coxinha (aperitivo típico brasileiro) e outras guloseimas.

Até que com 12 anos, Neri Lopes entrou na vida de Alex Pereira.

Neri era vizinho dos Pereiras e tinha amizade com os pais do garoto. Ele era dono da borracharia Villa Nova, localizada em São Bernardo. "Com 12 anos de idade, ele não estudava e eu falei pra ele 'você não quer, no período que você não estudar, ir lá na borracharia pra varrer o chão lá?'. E ele começou a frequentar a borracharia com 12 anos de idade", disse Lopes, hoje com 49 anos, à ESPN.

"Eu comecei lá com 12 anos de idade, mas antes disso ajudei meu pai como servente de pedreiro, fazia uns bicos pra se virar, pra ter um dinheirinho pra comprar as coisas que eu queria. Nunca gostei de estudar, então estava difícil, parei de estudar, me dediquei só ao trabalho, vida difícil, trabalho duro. Fazia um trabalho de uma pessoa mais velha com 12 anos", revelou Poatan em entrevista exclusiva à ESPN.

"Ele sempre foi um moleque bem zoeiro, sempre brincalhão com os clientes, gostava de brincar, hoje ele é mais sério, mas ele era mais novo e gostava muito de desafio em serviço, metas. Ele, se um dia desistir da luta, como borracheiro vai se dar bem, é difícil um borracheiro igual ele hoje, porque ele tinha muita força, era rápido, pegava 10 pneus de caminhão e fazia rapidinho. Os clientes gostavam muito dele, ele atendia bem", detalhou Neri.

"Como ele era um menor de idade e eu coloquei ele pra trabalhar, não podia forçar muito porque é um serviço perigoso, então ele ficava calibrando pneus de automóveis, coisas básicas. Eu dava uns R$ 200 por semana pra ele".

A morte trágica do irmão de Poatan

Enquanto Poatan ia crescendo e se dando bem como borracheiro, ganhando seus trocos apesar da falta de estudos, seu irmão Angelo, um ano e sete meses mais velho, tomava outro rumo na vida.

"A gente sempre andava junto. A gente estudava junto, mas eu não gostava muito de estudar, eu sempre estava procurando algo pra fazer, algum trabalho. Eu insisti bastante pra trabalhar, arrumei o trabalho na borracharia. Já meu irmão não tinha um trabalho pra se ocupar. Ele tomou o caminho errado e eu fui pelo certo. Até hoje a gente não entende muito. Eu sempre andei junto com ele, sempre soube de tudo. Mas em um momento eu tomei um caminho e ele tomou outro caminho, então eu fiquei sem saber muito das coisas. Ele estava usando drogas, andando com pessoas que já estavam nesse tipo de vida há mais tempo", relembrou Poatan.

Angelo morreu aos 17 anos, assassinado em São Bernardo.

"Eram pessoas que tinham pedidos, ameaças, de gente falando que ia matar. E ele estava sempre junto com essas pessoas. Depois eu escutei pessoas falando, 'pô, seu irmão está nessa vida'. Mas fazia mal pra ele andar com essa galera. Aí quando foram pegar ele falaram 'pode ir embora que a gente não quer você, quer só o seu amigo'. Mas ele falou 'não, tô com o cara, tô com o cara'. Aí mataram os dois. Mataram ele, foi uma vida que ele escolheu, foi bem triste mesmo", disse Poatan.

Alex Pereira poderia ter tomado o mesmo rumo de seu irmão mais velho, mas a vida como borracheiro o livrou disso.

"Talvez se ele não tivesse vindo pra borracharia ele teria acompanhado o irmão dele e teria ido pra outro caminho. O Alex fala disso, ele me agradece mais por isso, ver onde ele está e o irmão foi pra outro caminho", afirma Neri.

Ao entrar no octógono em Miami, talvez um pensamento de "e se" esteja na cabeça do brasileiro de 35 anos. "E se meu irmão estivesse aqui?". Angelo, segundo Alex, poderia também ter ido para o mundo das lutas.

"Eu sempre penso nele, não tem como esquecer. Pra quem conhece, pergunta dele. 'Seu irmão, se fosse pra esse lado da luta, será que ele seria bom?'. Não dá pra saber. Ele era mais velho do que eu, a gente brigava muito quando era moleque e eu apanhava dele. Eu era maior que ele, mas tinha menos força do que ele. Na maioria das vezes eu sempre apanhei dele."

O drama de Poatan com o álcool

Nesta idade, não só um trabalho e um salário mudaram a vida de Poatan, mas também foi quando ele começou a ser introduzido ao álcool.

"Chegava final de ano, a molecada pegava escondido uma champagne da mãe e do pai e a gente bebia. Eu já tinha alguns indícios que ia gostar de beber. Comecei beber com 12 anos de idade", disse Poatan.

Já adulto, Poatan sabia que seu problema com a bebida estava o prejudicando. "Eu sempre era irresponsável, eu bebia e andava de moto, passei por vários apuros, chegando atrasado no trabalho, faltando". "Ele era muito da noite, de virar a noite em baladas, fazia bastante isso", relembra Neri.

"Ele trabalhava numa outra empresa e passou a noite nas baladas bebendo e chegou de manhã, pra não trabalhar, jogou detergente no olho. Aí ele foi lá na empresa e falou que estava com conjuntivite, que não podia trabalhar e tinha que ir para o médico", disse Neri.

Até que Poatan, reconhecendo que a bebida o prejudicava, resolveu agir. Aos 21 anos, começou a praticar a primeira arte marcial de sua vida: kickboxing. Porém, com seu salário não era possível se sustentar apenas com a luta no começo. Por isso, foi trabalhar na borracharia Villa Nova de novo.

"Fui cada vez bebendo mais. E falei 'vou ter que fazer algo que tire essa atenção pra eu sair da bebida'. Foi onde eu conheci o kickboxing. Eu mesmo nunca tive um pai, irmão, tio, alguém que tenha feito algo pra me incentivar. A gente escuta que o esporte salva. Nunca gostei de futebol, não levava jeito. Eu sempre gostei de brigar na rua, combina mais comigo".

"Eu trabalhava e estava treinando, aí chegou um tempo que eu comecei a ter algumas ajudas, achava umas parcerias, era um pouco menos do que o salário que eu ganhava como borracheiro, mas tentei me dedicar, talvez conseguisse algo. Cheguei no patrão (Neri) e falei que não ia dar mais pra trabalhar, ele me apoiou, 'tomara que dê certo'. Aí saí da borracharia. Fiquei uns meses, acho que um ano, sem trabalhar, e aí vi que não dava. Cheguei novamente no meu patrão, falei que estava difícil, perguntei se não tinha como trabalhar meio período, e ele falou que dava, que estava precisando. Ele falou 'te pago meio salário e vc trabalha meio período'. Chegou no final do mês, ele me pagou o salário todo, foram 8 meses, um ano fazendo isso. Me ajudou muito", relembra Poatan.

E o próprio Neri revelou por que pagava o salário integral a Alex Pereira. "Ele falava 'hoje vou ter que sair porque tenho um treino', ele saía e eu nunca descontava do salário dele e ele me agradece muito por isso. Chegou uma hora que ele pediu as contas porque não ia dar mais e falou 'vou pra cima da luta'. E eu falei 'Alex, pode ir. Tomara que dê certo. Se um dia não der, as portas estão abertas'. Na época ele pagava aluguel, tinha filho pequeno, as coisas não eram fáceis. Como ele era um garoto que nunca me deu trabalho, me deu bons rendimentos, não fazia questão de horas. Quando a pessoa merece, você não faz contas. Ele às vezes passava do horário e não reclamava, uma coisa justifica a outra".

"Tinha dia que ele vinha trabalhar com o corpo doendo, pra chegar no horário era difícil, coisa de moleque novo. Ele não tinha grana pra comprar luva e outros materiais, aí juntava os colegas e fazia uma vaquinha na hora de lutar. Foi tudo bem na vontade. Cheguei a patrocinar ele um tempo, eu e um colega do bar do lado", completou Neri.

Quatro anos depois de sua primeira aula de kickboxing, Alex Poatan, ainda batalhando contra o álcool, deu um basta que foi decisivo para sua carreira na modalidade, que inclui o título do Glory e duas vitórias sobre Israel Adesanya.

"Em 2012 eu tinha lutado no Brasil e perdi essa luta, não treinei direito, a bebida me atrapalhou e foi onde eu falei 'tenho que parar, se não parar não vou pra canto nenhum'. Comecei a treinar, fiquei quatro anos tentando parar de beber. Fiquei quatro anos na luta, na porrada, pra sair da bebida. Com quatro anos eu consegui. Muito difícil ainda, mas tive melhores resultados e parei há 10 anos, tem 10 anos que não bebo nada."

"Começar tarde pra mim foi bom porque eu vi muitas pessoas que nasceram no berço da arte marcial. Quando você começa ali como criança e se profissionaliza, você já correu um tempo enorme e você está meio de saco cheio. Com 20 e poucos anos você começa a se desanimar, eu estava começando na hora que as pessoas estavam desistindo. Achei que começar tarde pra mim foi melhor. O que eu sofri pra chegar aqui...se eu tivesse nascido no berço da arte marcial, eu talvez teria desistido".

Não fosse Neri Lopes e a borracharia Villa Nova, talvez Alex Poatan, campeão do peso médio do UFC, não existisse. E o próprio lutador faz questão de toda vez que vem ao Brasil visitar seu antigo local de trabalho.

"Toda vez que venho aqui eu tenho que passar naquela borracharia. Enquanto vocês verem eu fazendo isso, vocês podem ter certeza que eu vou ser eu mesmo".