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UFC: Cigano abre o jogo sobre 'energia pesada' e 'desrespeito' em demissão

Junior Cigano teve encerrada, no último mês de março, uma história de mais de 12 anos com o UFC. Ex-campeão dos pesos pesados, o brasileiro foi demitido após acumular quatro derrotas seguidas e não aceitar voltar aos octógonos pouco tempo depois de sofrer uma concussão.

Desde então, ele é sincero: chegou a pensar em se aposentar, desgastado também psicologicamente pelo mundo do MMA. Em entrevista à ESPN Brasil, o lutador abriu o jogo sobre a “energia pesada” nos bastidores e o que entendeu como “desrespeito” do Ultimate.

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Para Cigano, a forma como foi dispensado foi o que mais o tocou. “Não posso dizer mágoa, é um negócio. A gente luta e batalha para que seja um esporte de respeito. Mas, para os caras, é negócio. Querem lucrar. Estão ali para ganhar dinheiro”, afirmou o atleta, hoje com 37 anos.

“Do jeito que foi minha última luta (contra Ciryl Gane, em dezembro de 2020), acabei perdendo com cotovelada na nuca. Quem assiste, viu. Me ofereceram uma luta 20 dias depois, com o (Marcin) Tybura, e eu vindo de uma concussão, após a cotovelada. Eu não poderia aceitar. ‘Então, você está fora’. Óbvio, senti a falta respeito, mas, no mundo dos negócios, não existe isso. É um tentando engolir o outro”, complementou.

No UFC 256, seu último evento, Cigano saiu com pagamento de US$ 420 mil (R$ 2,2 milhões na cotação atual), mais do que o dobro, por exemplo, do que os US$ 155 mil (R$ 812 mil) a que Gane teve direito. Para o brasileiro, essa matemática ajuda a explicar também a demissão.

“Sinto que o que aconteceu foi isso: estava perdendo para caras que eram, vamos dizer, mais ‘baratos’. E acharam que fosse válido me dispensar. É o que é, fiquei triste, mas não magoado. Considerei fazer outra coisa, parar de lutar, por ser um mundo com uma energia pesada, dependendo do evento. Mas existem outras oportunidades.”

O próximo passo

Cigano ainda avalia com calma qual será seu futuro como lutador. No MMA, outras organizações, como o Bellator, surgem como opções. Mas, ele tem dificuldade para esconder o brilho nos olhos quando fala de uma aventura no boxe. “É minha especialidade”.

“Do mesmo jeito que me senti desrespeitado lá (no UFC), com eles me empurrando para o que queriam; por outro, me senti muito valorizado pelas propostas. Mas meu próximo passo é muito importante, não quero tomar de qualquer forma”, explica.

“Eu não vivo sem treinar e toda vez que vou treinar vejo que sou bom nessa coisa. Sou bom nessa coisa. Mas óbvio, nem sempre tudo é do jeito que a gente quer, estou passando por um momento difícil, mas quando estou treinando, vejo muito potencial ainda, gás, força física. Ainda tenho muita lenha para queimar. Vamos em frente.”

Estresse psicológico

Além da base que já tem construída no boxe, Cigano também valoriza o dinheiro movimentado no esporte, que ele acredita ter uma divisão mais justa do que a praticada no UFC. Mas não é só isso: fora do MMA, o brasileiro também enxerga uma forma de aliviar a pressão que a modalidade exige, tanto psicológica, quanto fisicamente – apesar de sua paixão pelas artes.

“O MMA é o esporte mais duro do planeta terra. A preparação é um outro bicho... Divida a sua semana para todas as principais artes... Boxe, wrestling, jiu-jitsu e muay thai. Fora a preparação física. É um esporte que exige demais e leva a um nível de estresse psicológico que é difícil de aguentar. Eu consigo enxergar o que a Simone Biles viveu perfeitamente”, exemplificou ele, citando o caso da ginasta norte-americana nas Olimpíadas de Tóquio.

“Não é simples. Você tem que estar no ponto alto fisicamente falando, mas o psicológico precisa estar bom também. Para mim, 80% é mental. Se você está bem, confiante, você consegue vencer caras tecnicamente melhores do que você.”

“É estresse psicológico, físico... Por isso os atletas se machucam muito em treinos. Você eleva a um nível muito pesado, por isso alguns atletas acabam quebrando. Por isso que alimentação, descanso, é tão importante. Às vezes, é a parte mais importante do treino. O lutador vive 24 horas para a luta. Se não for isso, ele não consegue bons resultados. Pode até ter uma vitória ou outra, mas não vai conseguir ser um cara relevante.”

Agora, se perguntar para Cigano, se todo esforço valeu a pena na carreira que construiu no UFC, ele não tem dúvidas na resposta. “Ao mesmo tempo de tudo isso, é maravilhoso quando você vence uma luta. Tento explicar em palavras quando uma vitória chega... É o céu, não tem explicação. Tudo vai embora”. É esse sentimento que ele seguirá buscando daqui para frente.