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Socos em bastidor, nocaute histórico e 'homem mais durão do mundo': como Masvidal foi de brigas de rua a homem mais 'quente' do UFC

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No próximo sábado (11), Jorge Masvidal terá sua primeira chance de disputar um cinturão de uma categoria no UFC.

Masvidal, que é dono do "Cinturão de Mais Durão" da organização, foi chamado às pressas para substituir o brasileiro Gilbert Durinho, que foi retirado da luta com Kamaru Usman por ser diagnosticado com coronavírus.

Agora, o americano terá sua primeira chance de conquistar o título do meio-médio na Ilha da Luta, em Abu Dhabi. Mas como Masvidal chegou até aqui e por que ele foi o escolhido de Dana White para substituir Durinho?

Tudo começou em condomínio em Miami, aonde Jorge viveu com sua mãe - Mama Dukes, como ele a chama - dos 7 aos 13 anos, vendendo miçangas para ajudar na renda da família, e um elevador que funcionava mal.

"Muitas vezes chegava aqui com compras e o elevador estava quebrado, tinha de subir cinco lances de escada", disse à Brett Okamoto, da ESPN, em 2019. ""Não sei por que esse era um tema constante, mas uma vez por mês o elevador quebrava. Fora de serviço. Provavelmente é por isso que sou bom em correr em escadas."

Além do elevador quebrado, Masvidal também passou por outras dificuldades em sua infância e adolescência, como crescer sem pai. Jorge Masvidal Sr. migrou de Cuba para os Estados Unidos em 1971 e sempre teve que se virar em terras americanas para sobreviver.

Em 1989, quando Masvidal tinha 4 anos, seu pai foi detido por tráfico de drogas e ficou por 18 anos na prisão. Naquela época, porém, Jorge imaginava que seu pai estava servindo ao exército, afinal, era essa a história que ele ouvia de sua mãe.

Sem uma figura paterna e com todas as dificuldades de uma infância pobre em Miami, Masvidal cresceu revoltado e "se envolveu em tantas brigas que é impossível se lembrar de todas", mas uma nunca será esquecida.

Quando Masvidal tinha 14 anos, sofreu uma das piores surras de sua vida. Ele diz que seu ouvido "explodiu" e que havia cascalho em seu rosto por ter sua cabeça pisada no chão.

Masvidal, então, decidiu que deveria aumentar sua defesa e criou um "gadget", que ele descreve como uma meia cumprida com um cadeado amarrado, algo que "serviria para estourar a cabeça de qualquer um" e começou a planejar sua vingança.

Uma conversa com seu pai, porém, mudou a vida de Jorge Masvidal. "Felizmente, meu pai me convenceu de não fazer isso", lembra Masvidal. "Ele falou: 'Cara, você vai acabar aqui’. Isso provavelmente impactou muito minha vida."

Também foi o pai o primeiro a incentivar Masvidal a buscar uma carreira no mundo da luta. "Eu tinha muitos planos e, quando contei a ele, ele foi a única pessoa que disse 'vamos lá'. Ele já sabia quem eu era, melhor do que ninguém."

Então, em 2003, Jorge começou a dar seus primeiros passos no mundo da luta, mas ainda não profissional. Muito pelo contrário.

As lutas de rua com Kimbo Slice

Reynaldo Fuentes era segurança em várias boates de Miami em 2003. Foi assim que Rey, como era chamado pelos amigos, conheceu Kevin Ferguson, conhecido nas ruas da Flórida como Kimbo Slice, e o gerente "Icey" Mike Imber.

Em pouco tempo, Rey foi escalado para a sua primeira luta de rua entre os famosos combates organizados por Mike e muitas vezes protagonizados por Kimbo. O acordo era de U$ 1 mil por vitória e, em sua estreia, Rey faria duas lutas.

Fuentes venceu a primeira sem muita dificuldade, um nocaute ainda no começo da disputa. A segunda luta foi mais demorada. O adversário? Um garoto chamado Jorge.

"Eu não tinha ideia de quem era Jorge", diz Rey. "Eu não sabia que ele tinha formação profissional, mas ninguém sabia quem eu era também. Eu frequentava academias desde criança. É quase como se você se metesse com um leão que poderia ter muita habilidade, e você nunca sabe. Você não sabia quem era o cara.”

Depois de idas e vindas dentro da luta, Rey finalmente jogou a toalha. Kimbo e Imber gostaram tanto da luta que organizaram uma revanche meses depois, novamente vencida pelo garoto Jorge, que começava ali a se transformar em Jorge Masvidal, o ícone dos dias atuais.

O começo da profissionalização

Ao mesmo tempo que se destacou nas lutas de rua, Masvidal começou a dar seus passos como profissional e fez sua primeira luta em maio de 2003. Ocasionalmente, porém, as lutas eram difíceis de acontecer ou, então, as recompensas não eram altas.

Com isso, Jorge tinha dificuldades para pagar o aluguel e foi forçado a dormir em seu carro por várias noites. Masvidal, porém, já imaginava que aquilo era apenas um pequeno empecilho antes do sucesso.

"Eu poderia imaginar isso naquela época, enquanto eu estava deitado no carro dormindo", diz Masvidal. "Um dia, eu vou ter isso, isso e isso. Vou abrir a geladeira e ela ficará cheia de comida. Vou fazer o que diabos eu quiser."

A treta nos bastidores

Masvidal já havia se estabelecido como um dos principais lutadores do mundo e, inclusive, já fazia seu nome no UFC no começo de 2019.

Em março, depois de nocautear Till no evento principal do UFC Fight Night em Londres, ele entrou em uma briga nos bastidores com Leon Edwards, depois que o inglês de origem jamaicana falou com ele durante uma entrevista. As câmeras flagraram Masvidal acertando vários socos em Edwards, antes de serem separados.

Quando pedido, mais tarde naquela noite, para descrever o que aconteceu, Masvidal disse à ESPN que foi Edwards quem instigou, e ele simplesmente respondeu, dando-lhe "three-piece with the soda”, algo como “três peças com um refrigerante", uma espécie de combo em restaurantes fast-food. Quando Masvidal voltou aos EUA no final daquele mês, os fãs estavam vestindo camisetas com esta frase impressa.

"Foi quando eu comecei a notar algo como 'Oh, nós fizemos uma pequena onda nessa água'", diz Masvidal.

O nocaute mais rápido da história

Quatro meses depois da briga nos bastidores, Masvidal se estabeleceu de vez como um queridinho dos fãs. No UFC 239, o americano enfrentou o então invicto Ben Askren e precisou de, literalmente, cinco segundos para chocar o mundo, vencer a luta e entrar para a história.

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Uma joelhada voadora no rosto de Askren derrubou o adversário, antes de Masvidal finalizar com dois socos no já inconsciente Ben, no que é o nocaute mais rápido da história do UFC.

O Mais Durão

Em novembro do ano passado, Jorge Masvidal subiu ao octógono para a luta principal do UFC 244, no Madison Square Garden, após aceitar o desafio de Nate Diaz.

Nate é uma das maiores estrelas e um dos lutadores mais populares da história do UFC e havia abandonado a organização em 2016, voltando em agosto de 2019 para vencer Anthony Pettis no UFC 241.

O retorno foi a grande história do verão americano e Diaz podia, simplesmente, escolher qualquer um para ser seu próximo adversário. Poderia ter pedido uma trilogia contra Conor McGregor ou uma disputa de título contra Khabib Nurmagomedov. Até mesmo desafiado George St-Pierre a sair da aposentadoria.

Mas nenhuma dessas foi sua opção. Nate queria lutar com Masvidal pelo 'Cinturão de Mais Durão', criado especialmente para essa luta e que premia o lutador mais durão do UFC.

"A razão pela qual eu saí foi porque todo mundo era péssimo, não havia ninguém para lutar", disse Diaz em sua entrevista pós-luta no 241. "Jorge Masvidal teve uma boa última luta (nocauteou Ben Askren). Boa última luta... Não há mais gângsteres neste jogo. Ninguém faz isso direito, exceto eu e ele."

Foi a imagem de "gângster" que deu a Masvidal a oportunidade de ganhar o cinturão BMF. E ele não desperdiçou.

Depois de amassar Diaz por três rounds, Masvidal venceu antes do início do quarto por nocaute técnico por decisão médica, que apontou que Diaz estava impossibilitado de continuar na luta.

Primeira e possível última chance de título

Depois de vencer o cinturão de mais durão, agora Masvidal vai em busca de um cinturão "de verdade". Será a primeira, e possivelmente a última, vez que Jorge terá essa oportunidade.

Com 17 anos de carreira no MMA profissional e 48 lutas em seu cartel, Masvidal estabeleceu o recorde de mais lutas no cartel antes de ter uma chance de título.

Com 35 anos de idade e tendo demorado tanto para ter sua primeira chance, é provável que Masvidal precise vencer Usman para ter outra oportunidade. Em caso de derrota, é difícil ver Dana White dando outra oportunidade para o americano.