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UFC: Glover conta como fez travessia ilegal para os EUA e narra 4h no deserto, 43 dias de viagem e 'não' à proposta de coiote

Glover Teixeira enfrentará Anthony Smith e será mais uma vez a atração principal do UFC, na noite desta quarta-feira, em Jacksonville, Flórida (EUA). Em tempos de pandemia, o brasileiro estará em ação justamente por já morar nos Estados Unidos e não ter que fazer a viagem até o país. Mas a relação dele com a terra do Tio Sam vai muito além e envolve até imigração ilegal pelo deserto e ajuda de senador para regularizar a situação.

Tudo começou em 1999. Como muitos à época, Glover resolveu deixar a cidade de Sobrália (MG) para tentar a sorte nos Estados Unidos. Mas, também como muitos, o faria de forma ilegal.

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Glover voou para a Colômbia. De lá, foi de barco para Guatemala, de onde partiria para o México, acompanhado de outros brasileiros, que também fariam a travessia. A parada final seria em Danbury, Connecticut, do outro lado dos Estados Unidos.

No total, foram 43 dias de viagem. Até as quatro horas derradeiras que passou no deserto para atravessar a fronteira.

“Vim para os Estados Unidos com coiotes, travessia pelo México. A gente viaja por alguns países, Colômbia, Guatemala... e depois fica no México e lá pega o coiote que te ajuda a fazer a travessia no deserto”, conta Glover.

“A gente espera a neblina baixar um pouco para ficar difícil para o pessoal da imigração ver. A minha não foi tão ruim. Quatro horas no deserto andando durante a noite. Mas não teve nada assim... Já ouvi do pessoal que nada no rio, se perde, às vezes morre... É muito perigoso. Mas a minha foi muito tranquila. A gente atravessou andando por quatro horas”, complementa.

A viagem, claro, não foi gratuita. Muito pelo contrário. Glover investiu cerca de 8,5 mil dólares na época, o que correspondia a dois anos de trabalho futuro nos Estados Unidos.

O brasileiro revelou à ESPN que chegou até a receber uma oferta para minimizar o valor, mas negou prontamente.

“Os caras tentaram dar uma mochila para a gente... Eu não trouxe! A gente não sabia o que tinha na mochila. Ninguém da nossa turma trouxe, mas eles descontavam 50% do valor que a gente paga pela travessia. Com certeza alguma coisa ilegal, né?”, diz.

A travessia deu certo. Glover trabalhou com jardinagem e carpintaria. Mas seria a luta que mudaria o seu destino. Conheceu o jiu-jitsu por acaso, ao assistir vídeos de Royce Gracie lutando nos primeiros UFCs. Foi treinar boxe também e logo estreou no MMA. Acabou ‘apadrinhado’ por Chuck Liddell e foi evoluindo. Mas ele só poderia lutar no Ultimate se regularizasse a situação de seu visto.

Em 2009, ele voltou. Com ajuda dos advogados do UFC, tinha a expectativa de que demoraria apenas um mês. Demorou mais de três anos.

“Foi um nocaute na minha vida, meu visto foi negado. Eu fiquei sem saber o que fazer”, disse Glover, em entrevista recente ao Portal do Vale-Tudo.

Ele resolveu aceitar todas as lutas que apareciam. Foram 10 vitórias consecutivas. A volta aos EUA, porém, só aconteceu com uma ajuda política. Sua esposa, que é americana e vivia lá enquanto Glover estava no Brasil, mandou uma carta a Chris Murphy, político que logo viraria senador de Connecticut, e o sensibilizou. Com a ajuda dele, finalmente saiu o visto de trabalho.

Dali, a história ficou conhecida. Glover emendou cinco triunfos seguidos e ganhou a chance de enfrentar Jon Jones. Perdeu na decisão dos jurados, mas chegou até a visitar a Casa Branca antes do evento.

De lá para cá, o brasileiro alternou vitórias (oito) e derrotas (quatro). Agora, está em uma série de três resultados positivos, na 8ª colocação do ranking. E pega logo o terceiro da lista para já ficar na cara do gol de uma possível nova chance de disputar o título dos meio-pesados.

“A luta contra o Anthony Smith é muito, muito importante para mim. Vai me colocar na cara do cinturão, para eu começar a falar com a galera. São duas lutas até o cinturão, essa e mais uma, talvez. É uma das lutas mais importantes que já tive e é hora de buscar essa vitória”, diz.

“Eu quero lutar mais uma vez pelo cinturão. Eu sonho em ser o campeão do mundo. Já bati na porta algumas vezes, mas perdi algumas lutas. Perdi para o Gustafsson e ele lutou pelo cinturão depois. Queria muito ter lutado com o Cormier. Foram pequenos erros que tive e tenho consertado. Meu sonho é lutar pelo cinturão”, completa.