Tão representativo no vasto mundo das lutas e artes marciais, com expoentes do quilate de Eder Jofre, Popó, Anderson Silva, Aurélio Miguel e Amanda Nunes, o Brasil inicia, neste sábado (19), sua história em uma modalidade antiga, controversa e, certamente perigosa.
O bare knuckle boxing, também conhecido como "boxe sem luvas", vem ressurgindo nos EUA desde 2016, depois de mais de um século da proibição instituída em 1892.
Antônio "Bigfoot" Silva, o Pezão, e Gabriel Gonzaga, o Napão, vão se enfrentar no estado norte-americano da Flórida, na cidade de Tampa, nos arredores de Orlando.
Será a estreia de ambos, ex-postulantes aos cinturões dos pesados do UFC, no Bare Knuckle Fighting Championship (BKFC) e na modalidade que causa arrepios a médicos traumatologistas e aos menos afeitos a socos na cara e, certamente, sangue escorrendo pelos lutadores.
Evitar o contato e, consequentemente, o derramamento de sangue, aliás, é o principal objetivo e a estratégia de Pezão na luta, conforme ele revelou em entrevista ao ESPN.com.br.
"Se o rosto corta e escorre muito sangue nos olhos, a luta para. Por isso, evitar o contato é fundamental", diz.
Pezão conhece bem a sensação. Em maio de 2012, um combate seu contra Cain Velasquez, no UFC, precisou para depois de o supercílio do brasileiro literalmente jorrar sangue.
"Foram 18 pontos externos e cinco internos. E tinha luva", diz, entre risos.
"Quem luta sabe que aquela luva do MMA é quase a mesma coisa que nada", afirma. No BKFC, as mãos dos pugilistas são envolvidas com as ataduras que servem de base para a colocação das luvas no boxe.
"Eu surgi no Vale Tudo, com Pedro Rizo e Wanderlei Silva. Nos primórdios do MMA, os Grace também lutavam sem luva. E está todo mundo aí, bem e saudável. Alguns, ainda lutando", diz.
GOLPES REPETIDOS E CONCENTRADOS
Moisés Cohen, médico do Hospital Albert Einstein, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e professor da Unifesp, é taxativo.
"Parece-me, particularmente, nada interessante. Eu não recomendo sua prática", diz.
"Qualquer esporte sem proteção é perigoso", diz. "Essa modalidade vai certamente trazer muito mais incidências de fratura nas mãos e face", afirma.
Mas não é só, é claro. Cohen preocupa-se, especialmente, com a concentração dos golpes apenas no rosto, como no boxe tradicional. Mas, sem luvas, os traumas para a região da cabeça podem ser ainda mais sérios.
"No Muay Thai e Caratê, por exemplo, os golpes são mais distribuídos pelo corpo. Nessa modalidade, é só na face, com uma sobrecarga muito maior", afirma. "É só no rosto e só soco", diz.
"O problema maior não é nem a intensidade, mas a repetição e a concentração. É só na face, o tempo inteiro", faz questão de enfatizar.
"Se o boxe normal já traz diversos riscos de concussão, edemas, problemas circulatórios e, a longo prazo, contribui para sequelas como Mal de Alzheimer e Encefalopatia Traumática Crônica (a chamada Demência Pugilística), imagina sem luvas", diz Cohen
"Eu até aceitaria o soco com a mão sem luva, se houvesse uma proteção para o rosto. Sem nada, não acho recomendável", diz.
RISCO NÃO PODE TE IMPEDIR, DIZ LUTADOR
"Eu gosto de novidades", diz Antônio Pezão, que assinou contrato de três lutas com o BKFC, mas pretende renovar chegar ao ponto de disputar o cinturão na organização.
"Tudo tem risco. Até se você entra em um avião, pode não chegar ao seu desembarque vivo", filosofa.
"Eu acredito que você não pode deixar de fazer as coisas só porque elas têm risco", diz. "Eu estou nas artes marciais desde os cinco anos de idade, sempre lidei com riscos", afirma.
"Antes de assinar, eu passei por exames médicos para saber se estava apto", diz Pezão. "Jamais fariam algo perigoso demais para os atletas", acredita.
Para se preparar para a estreia, Pezão treinou em Natal, com Everton Lopes, ex-campeão mundial de boxe, para melhorar seu jogo de pernas e velocidade. Mas sempre com luvas.
"Você tem que chegar 100% na luta. Machucar, antes de chegar, não pode. Na luta, ok, você está lá para isso. Nos treinos e sparrings, não", explica.
Ou seja, para todos os efeitos, a estreia de Pezão no BKFC será sua primeira luta de boxe sem luvas na vida.
Além de lutador, Pezão é pai de lutadora. Anne Ribeiro, 19, está iniciando sua trajetória no MMA e já disputou três lutas amadoras.
O que o pai Pezão diria à filha, se ela quisesse entrar no mundo do boxe sem luvas?
"Agora, eu diria que não. Ela ainda nem é profissional", diz.
"Mas eu ficava preocupado até quando ela jogava vôlei", diz, entre risos. "Se, no futuro, o caminho dela levar para isso, eu não impediria", jura.
CRESCIMENTO
Além de Pezão e Napão, o nome de Wanderlei Silva vem sendo ventilado como um futuro integrante do BKFC. Há quem afirme que ele já assinou com a organização, mas ele ainda não confirmou.
Pezão também vem atuando como um propagador da organização.
"Conversei com duas pessoas que estão interessadas. Um é um brasileiro muito famoso. O outro, talvez seja o maior lutador de kickboxing do mundo", conta, sem revelar nomes.
"A modalidade tende a crescer. Uma edição recente vendeu muitos pacotes de pay per view ", diz.
"A verdade é que o povo gosta de lutas, combates, desde o tempo dos gladiadores", afirma.
