Demian Maia, um dos melhores da história do UFC na luta agarrada, fez um pouco de tudo em sua respeitável carreira. Suas grandes habilidades no jiu-jitsu o ajudaram a derrotar alguns dos lutadores mais temidos do MMA e o fizeram disputar o cinturão mais de uma vez.
Fora dos octógonos, Maia é formado em jornalismo e, antes de seu 29º combate, contra Lyman Good, em Fortaleza, relembrou, em suas próprias palavras, a carreira à ESPN e o que o futuro pode reservar. Veja o relato do brasileiro, pressionado no UFC depois de três derrotas seguidas:
"Comecei a treinar judô quando tinha 5 anos de idade. Não sabia muita coisa. Minha mãe apenas levou meu irmão e eu para fazer judô porque éramos muito ativos. Treinamos por alguns anos. Não sei por que paramos, mas eu voltei a tentar outras formas de artes marciais como kung fu e karatê quando tinha 12 anos e nunca parei.
Mudei de kung fu para jiu-jitsu [aos 19 anos] porque estava assistindo algumas lutas e os caras do jiu-jitsu estavam ganhando tudo. Disse para mim mesmo: 'quero fazer aquilo.' Também era uma arte marcial brasileira, então a cultura era maior aqui [em São Paulo] do que uma arte marcial tradicional do Oriente. Assim que comecei, me apaixonei pelo jiu-jitsu.
O jiu-jitsu: paixão
No primeiro mês, eu treinava uma vez por dia, mas depois de alguns meses comecei a treinar pelo menos duas vezes por dia. Às vezes eu também levantava pesos, coisa que nunca tinha feito antes. Estava vivendo jiu-jitsu.
A ética de trabalho que tive e o amor que tinha por isso me fizeram perceber que eu poderia ser muito bom. Naquela época, as pessoas estavam começando a se profissionalizar, no final dos anos 90. Você poderia viver disso. Eu sempre pensei em ser um lutador, mas não era uma opção porque não havia muitos profissionais lutando. Não pensava em ganhar a vida lutando. Achava que eu poderia ser um professor ou treinador e competir em torneios e ganhar a vida lá.
Foi um dia muito emocionante [quando recebi minha faixa preta]. Eu chorei. Não acreditava no que estava acontecendo. Foi uma das maiores conquistas da minha vida. Lembro até hoje que esperavam que eu falasse, mas eu não conseguia falar porque estava lutando para dizer alguma coisa.
Quem me deu foi o Fábio Gurgel, quando eu tinha 24 anos. Levei cerca de 4 anos e meio. Na minha academia isso foi muito rápido porque meu técnico era muito rigoroso. Ninguém levou a faixa antes de pelo menos sete anos de treinamento muito duro. Mas eu estava vencendo muito.
Quando eu não estava treinando, estava ensinando com os professores mais antigos de lá. Quando eu não estava na faculdade, estava treinando, ensinando e trabalhando com jiu-jitsu.
Eu assisti ao campeonato mundial ADCC [Abu Dhabi Combat Club] em 1998. Vi aquilo e disse: 'Este é o passo perfeito antes de ir para o MMA'. O jiu-jitsu era lutado de quimono naquela época, mas às vezes treinávamos sem quimono. Eu estava ajudando os caras mais velhos que iriam competir e, finalmente, venci a seletiva e consegui competir. Fiquei em segundo em 2005 e em 2007, enfim venci.
Fiz minha primeira luta profissional em 2001 na Venezuela - também foi minha primeira viagem internacional. Foi uma experiência ótima. Em 2005, eu fui para a Finlândia e venci. No ano seguinte teve um torneio no Brasil com três lutas em uma noite. Eu era o azarão e venci as três lutas.
Em 2007, lutei em Ohio. Voei para Chicago, fiquei com alguns amigos treinando, fui para Ohio, participei dessa luta e ganhei, então voltei na mesma noite para Chicago e cheguei às 6 da manhã. Dei umas aulas em Chicago das 7 da manhã às 8, 8 às 9, 9 às 10, 10 às 11 e 11 às 12.
Depois das seis lutas, eu estava com 6 vitórias. Meu empresário na época disse que conversou com algumas organizações e acabamos quase fechando um acordo com o K-1. Não deu certo. Ele também estava conversando com o UFC e assinamos com eles em 2007.
A única vez que fui atingido com força foi minha na primeira derrota, para o Nate Marquardt [em 2009]. Ele me acertou quando eu estava correndo até ele. Eu caí e ele me apagou. Assim que caí no chão, acordei. O árbitro parou a luta porque eu estava meio fora. Aquele foi o único soco realmente duro que eu tomei em toda minha vida.
Confronto com Anderson Silva
Lutar com Anderson Silva em 2010 foi uma experiência interessante. Eu só tinha cerca de 12 lutas naquela época. A experiência de ir a Abu Dhabi e lutar lá pela primeira vez foi ótima. A principal coisa que percebi foi que eu era capaz de lidar com isso como um verdadeiro lutador. Eu tinha apenas 12 lutas, não era muito experiente e lutei com o melhor cara do mundo no seu auge. Nós cometemos muitos erros - não consegui derrubá-lo - mas eu aguentei a luta e fiquei de pé com ele os cinco rounds. Para mim, antes da luta, não tinha certeza se isso seria possível.
Acho que eu era muito imaturo para essa luta naquela época. Mas não podemos mudar como as coisas são. Aprendi com aquela experiência. Não olho para trás triste, mas feliz com a forma como tudo correu.
É sempre difícil lutar contra wrestlers porque eles são capazes de evitar minhas tentativas de cair muito bem. Quando vi [Chael Sonnen] na minha frente [em 2009], ele era enorme. Muito maior do que eu pensava. Havia muita pressão sobre mim porque eu estava pensando em lutar pelo título.
Quando cheguei na O2 Arena, olhei para ele e percebi que estava muito maior do que na pesagem. Chael começou a luta com alguns jabs. Então eu abri a guarda e consegui acertar um gancho. Nós nos levantamos novamente.
Percebi que não conseguiria encaixar um golpe certeiro para quedar. Eu segurei e dei um golpe para derrubá-lo, que ensinei por tantos anos para autodefesa. Já caí montado e encaixei um triângulo.
A luta com Carlos Condit [em 2016] foi meio assustadora porque ele era um cara que derrubava todo mundo. Eu disse: 'Imagine se eu for tentar uma queda e levar uma joelhada voadora no rosto'. Ele tinha sido campeão. Eu chego lá e é a luta principal da noite em Vancouver.
Era um lugar onde eu já tinha lutado antes e perdido, então ficou na minha cabeça. Eu ganhei muito rápido com uma finalização no primeiro round, sem dar nenhum soco. Foi uma experiência ótima.
Se você perde três vezes [seguidas], você precisa vencer agora. É para isso que venho trabalhando - para vencer. Quero demais isso.
Você precisa colocar as coisas em perspectiva - os caras para quem eu perdi [Tyron Woodley, Colby Covington, Kamaru Usman] foram os três melhores caras do mundo. O campeão, depois o cara que foi o campeão interino e agora o cara que vai lutar pelo título e tem uma boa chance de ser campeão. Essas derrotas foram para caras de altíssimo nível e eles também são wrestlers. É difícil para mim lutar com wrestlers porque eles são bons contra a minha queda e luta de chão.
Quero ser lembrado como um cara que vai lá e representa a arte do jiu-jitsu. Quero mostrar que em um esporte violento como o nosso, você não precisa machucar ninguém para ganhar. Às vezes acontece, mas você pode vencer de uma maneira limpa.
Aposentadoria?
Vejo [a aposentadoria chegando em breve], mas não por causa da queda no meu desempenho. Mais pelo tempo que quero ter para fazer outras coisas. Quando você é um lutador profissional, você praticamente vive para treinar porque nunca sabe quando pode ser chamado para uma luta.
Se estou me aposentando depois das três lutas que ainda tenho no meu contrato, é porque quero dedicar esforço e energia para outras partes da minha vida, como minhas academias afiliadas ao redor do mundo, meus seminários, TV e talvez um podcast que eu quero fazer. Não tenho tempo de fazer tudo agora. É só por isso que penso na aposentadoria.
Tenho mais três lutas no meu contrato. Depois dessas três lutas vou decidir se quero continuar ou não. Também quero ver como me saio nessas três lutas. Tenho 41 anos. Não sei como vou me sentir daqui a um ano. Se meu rendimento cair, não quero continuar. Não quero sofrer uma lesão cerebral ou algo assim só porque não quero parar. Enquanto meu desempenho estiver bom, vou continuar".
